Arte e Entretenimento

# Reconhecimento e Mérito
Sílvia T. Chicó

«Angola é um país com muito passado pela frente»
José Eduardo Agualusa

Reconhecimento e Mérito
Sílvia T. Chicó

Na vida cultural e artística, reconhecimento e mérito são por vezes mais incertos, e por vezes injustos, do que em outras áreas. Nas profissões em que o quantificável se sobrepõe qualificável, como na banca, indústria, vida militar, em algum funcionalismo público, é mais fácil contabilizar o êxito profissional e valorizá-lo. Nas artes e humanidades, e de modo geral na cultura, nem sempre assim acontece. As mais jovens gerações contam já com a influência do marketing para o reconhecimento do seu possível êxito, o que quer dizer que a noção de mérito pode decorrer de uma fabricação. E falamos do que ocorre na actualidade, em que o público, se bem que mais consumidor de cultura, ainda é predominantemente acrítico, procurando linhas de orientação no que é considerado sucesso. Assim, a noção de valor, torna-se mais fluida e flutuante, escapando a critérios de uma possível e sempre aproximada objectividade. Pode dizer-se que, na pior das hipóteses, o mérito está para os nossos dias, como o prestígio estaria para a sociedade, antes de ela ser dominada pelo marketing.

Na minha opinião, a de alguém que escreve sobre arte contemporânea, o principal critério para apontar o mérito, seja de um artista ou de um intelectual, é a qualidade do seu trabalho. E quem - referindo agora o campo das artes plásticas -, aponta o real valor a uma produção artística? Penso que a melhor opinião é a dos artistas mais jovens, que escolhem e seguem as propostas que lhes interessam. Como tanto se diz, e plenamente concordo, os artistas são barómetros da sociedade, apontam vias que o futuro confirmará. Por essa razão, a dimensão futurante das obras de arte é de extrema importância. Podem dar-se prémios e ainda bem, hoje em dia dão-se muitos prémios, competem as empresas e instituições no preço que atribuem, e a verdade é que estes constituem importantes estímulos à criação artística. Mas é bom que os critérios de premiação não recaiam sempre sobre os mesmos eleitos. Atribuir um prémio constitui um acto de grande responsabilidade e muitas vezes de coragem, pois um prémio de um júri conceituado pode apontar um caminho. Que irá talvez contra a opinião geral, contra o gosto, que em muitos casos é conservador. Requer conhecimento da matéria e da obra do artista. Mas é preciso não esquecer que bons artistas produzem por vezes más obras, e que não há que apostar cegamente num nome, só porque este é consagrado. Nas artes, no pensamento, e mesmo na ciência, torna-se evidente que a qualidade é a questão central, embora a sociedade actual, pressionada pelos critérios que servem para a investigação científica e inovação tecnológica, tenda a exaltar a quantidade em detrimento da qualidade. Urgências do tempo actual, decorrentes de uma corrida frenética a uma hegemonia quase perdida, de uma sociedade que teme pelo seu futuro. Os governos do ocidente fomentam à outrance o investimento em ciência e tecnologia, na esperança de uma superioridade que bélica, por temor do desenvolvimento rápido e da superioridade numérica dos países emergentes.

Assim, este apelo à produção em quantidade, que estamos a conhecer por exemplo nas universidades, onde se estabelece um modelo em que a produtividade é quase um valor moral, e ainda não existem critérios suficientemente sólidos que preconizem a valorização da qualidade. Assim, num momento em que a arte está mais liberta de alguns espartilhos que as vanguardas impuseram, está mais livre e ágil na sua formulação de linguagens, o que é muito positivo, a verdade é que em simultâneo, no mesmo campo, coabitam obras de grande qualidade e outras que são meras produção de efeitos, muitas vezes não existindo instrumentos críticos suficientes para os poder distinguir. O próprio meio artístico, ao inverter papéis e apelar à criatividade e critérios de quem não poderá estar habilitado para tanto, induz à confusão. Por isso a tarefa da crítica e da premiação, nunca foi tão urgente e apaixonante como hoje. Giza-se a nível internacional, uma separação: da arte que está longe do comércio e que, curiosamente se aproxima cada vez mais da poesia e da literatura e da arte das galerias, vendável na proporção da prosperidade dos países onde se situa.

Assim, o reconhecimento do mérito, em vez de ser um tema linear, é uma questão que ou encontra justiça num meio activo e culto em que a crítica tem de ser profunda e competente, ou acontece o que é de tradição: a glória tardia, depois da morte do artista.

 

 

 

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