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«Angola é um país com muito passado pela frente»
José Eduardo Agualusa

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«Angola é um país com muito passado pela frente.»
José Eduardo Agualusa
(Entrevista de João Tibério)

O José Eduardo Agualusa, a par do Pepetela, é provavelmente um dos nomes maiores da literatura angolana. Enquanto o benguelense viveu muitos anos a desenterrar obras no passado, as do Agualusa parecem-me ser mais do futuro, ou intemporais, excepção feita à Conjura ou a Estação das Chuvas, pelo que fica a questão: É possível escrever Angola sem falar da Guerra Civil?

Eu também comecei com um romance histórico, e até tenho outros, porque a Nação Crioula também é um romance histórico, então, e como eu já disse, Angola é um país com muito passado pela frente. Há tanta coisa para trás para investigar e trabalhar que é inesgotável, que é uma tentação para um escritor. Mas ao mesmo tempo também há muito presente. Angola é um país cheio de histórias. E as guerras, tal e qual como todos os conflitos, contribuem para isso, porque as guerras colocam pessoas normais em situações excepcionais e, no fundo, o que a literatura faz é um pouco isso. Toda a literatura tenta estudar isso, como pessoas normais se comportam em situações excepcionais.

Talvez por isso no Se o lobo mau fosse angolano é dito que «ainda havemos de voltar a ser o país do futuro». Esse dia já chegou?

Depende do que é o futuro. Angola tem condições para ser um outro país, podia ser um outro país. Só que o desenvolvimento em Angola infelizmente tem muitas distorções, porque Angola está a crescer mas está a crescer duma forma muito distorcida. Eu acredito que é possível construir um outro país.

Porque se baseia muitas vezes na economia e na política, com todas as cambiantes e condicionantes que tem actualmente…

Porque é um país que é dos mais corruptos do mundo, saiu agora uma lista dos países mais corruptos do mundo e Angola está no top. Está nos de mais corruptos… E a corrupção evidentemente tem consequências no dia-a-dia, no desenvolvimento dos países e as próprias pessoas são atingidas por ela. Não é um país onde se cresça normalmente.

E a culturas e as artes são uma das formas de…

A cultura e as artes são uma das formas de pensar pelo menos. Eu acho que a literatura serve, pelo menos a mim serve, de reflexão. E creio que serve num país como Angola, onde a maioria não tem forma de fazer ouvir a sua voz, deveria servir também para promover debates e promover o pensamento. Acho que cultura é essencialmente isso.

Recentemente [Outubro 2010] lançou o Milagrário Pessoal, é este seu livro uma opinião sobre o acordo ortográfico ou é apenas uma pista sobre como ele há de ser…

Não, não tem nada a ver com o acordo ortográfico. O acordo ortográfico é exactamente o que o acordo diz, é um acordo ortográfico, é um acordo entre vários países e que tem exclusivamente a ver com a ortografia e a adopção de uma nova. Em princípio seria para facilitar a aprendizagem, era uma das principais razões do acordo, e que para no espaço da mesma língua não existam várias ortografias, porque não faz muito sentido existirem várias ortografias no espaço duma mesma língua. O livro não tem nada a ver com isso. O livro tem a ver, isso sim, com a língua portuguesa. Primeiro, e para mim, o livro é um romance, uma história de amor, é a história de um homem mais velho que se apaixona por uma mulher e que para a seduzir lhe oferece uma nova forma de dizer o mundo. E isso é a história do livro, basicamente. Depois é uma reflexão sobre a linguagem de uma forma geral, e da língua portuguesa em particular.

E qual é o papel da língua portuguesa hoje em dia para um Angolano?

Não é muito diferente do papel da língua portuguesa em qualquer outro país de língua portuguesa. Mas no caso de Angola, que é um país que tem muitas outras línguas vivas, felizmente, e a língua portuguesa é uma língua transnacional. Não é apenas nacional, é universal, pois atravessa várias nações. É uma língua utilizada como língua materna por uma percentagem significativa de Angolanos e isso é um caso raro em África, de uma língua de raiz europeia que se enraíza como língua materna, mas é também uma língua transnacional que atravessa várias nações e serve, ou deveria servir, para as unir.

Se hoje fosse o primeiro dia do resto da sua vida, o que faria o Agualusa escritor e o Agualusa homem? São eles indissociáveis?

São claro. Evidentemente. Mas todos os dias são o primeiro dia do resto da nossa vida. A vida é sempre um recomeço. E no meu caso isso é ainda mais evidente. Mas o que eu faria? Do ponto da vista profissional tenho tido sorte com aquilo que gosto de fazer, que é escrever. O que eu quero é procurar projectos novos, e para já continuar nesse campo da escrita.


 

 

 

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