Capa de Carlos Cravo

Editorial

Sociedade e Mundo

# Um-Xis-Dois
Clara Tehrani

Construindo pontes para a «Lusofonia»
Andreyna Caires

Ciências Sociais

# Música e-mérita
Ana Paz

Propaganda e simulação: a política nos jogos
Pedro Lisboa

Arquitectura e Design

# Respirar fundo
Sérgio França

O OPO'Lab
João Barata Feyo & José Pedro Sousa

Arte e Entretenimento

# Reconhecimento e Mérito
Sílvia T. Chicó

«Angola é um país com muito passado pela frente»
José Eduardo Agualusa

Espaço Criação

# Fotografia
Manuel Duarte

Couve Illustrations
Ariana Couvinha


EDITORIAL
João Tibério

Some are born great, some achieve greatness, and some have greatness thrust upon 'em.
William Shakespeare

I don't want to achieve immortality through my work. I want to achieve it through not dying.
Woody Allen

O reconhecimento. O mérito. O prémio. A glória. A eternidade. A obra.
Do artista ao técnico, e falsas modéstias à parte, o reconhecimento é essencial para quase todos os autores e criadores. Ele é afirmação oficial e oficiosa da passagem da mensagem, do significado e do significante. É a compreensão. É o respeito. E, todavia, a história prova que esse sabor é, talvez demasiadas vezes, acre. É fel. É o requentado molho agridoce num almoço solitário no chinês, num frio dia de Natal.
E depois há ainda a fama. A fama que ficou propositadamente ausente da enumeração inicial. A fama que é mais «moderna». É mais pop. É o pop. É o ser a cara conhecida. É o ser reconhecido em todos os cafés, barbeiros, talhos, supermercados e praias. É até ser capa de revista cor-de-rosa e ver a vida a cores no programa de domingo à tarde na TV. Pior que isso, é ser conhecido entre os demais e não ter reconhecimento entre os seus.
E o prémio? Jean Carrière, David Foster Wallace, Gabriel García Marquéz são apenas alguns dos nomes que tiveram reconhecimento e prémios e, contudo, estes trouxeram consigo um peso incomportável e uma pressão imensa. Ser laureado ou distinguido é, provavelmente, a cruz dos tempos modernos. O prémio que pode ser de obra, carreira, revelação, passado ou futuro. O prémio que não chegou ainda, mas todo o mundo exige e espera. O prémio. Será ele o fruto proibido?
«Só a morte traz o verdadeiro reconhecimento», uma ideia dita e repetida exponencialmente tende a tornar-se uma certeza inquestionável, mas terá ela algum ponto de verdade? Niemeyer, Oliveira, Obama, Messi, entre muitos outros, foram e continuam a ser reconhecidos em vida. A obra de cada um deles é valorizada no presente e, por isso mesmo, repetida, discutida e trabalhada por estudiosos, admiradores ou apenas curiosos. Parece certo que o reconhecimento chega em vida para alguns e apenas após a morte para outros, pelo que fica a questão: haverá um padrão?

Talvez não haja, mas há certamente algo que se pode fazer, pelo menos no mundo das artes, para que o reconhecimento ocorra mais cedo, para tal e como Sílvia Chicó defende, no seu artigo, é obrigação dos críticos realizar um trabalho competente e apurado, peneirando os artistas que são realmente inovadores e de qualidade, em relação aos que apenas seguem a moda e os ritmos artísticos comerciais. Ana Paz segue no mesmo sentido ao criticar a falta de reconhecimento do mérito no mundo da música, analisando para tal a história do ensino da música, em Portugal, e os seus resultados efectivos.
Tal como os prémios são uma forma de reconhecimento - provavelmente a mais visível -, também a escolha dos convidados do PROJECTO10 foi ao longo dos dez números um gestus de reconhecimento, exemplo disso o convite ao fotógrafo Manuel Duarte para este último espaço-criação. Os seus retratos poderosos são espelhos de uma visão singular do presente, uma elegia visual ao quotidiano, um invulgar pause no VCR da contemporaneidade. Também o designer Sérgio França alude ao reconhecimento no seu trabalho. Uma imagem. Algumas palavras. Uma certeza: a obra será sempre o essencial. Uma obra que pode ser artística, técnica, ou apenas uma decisão. A de fugir, a de ficar, a de fugir ficando, a de ficar fugindo. Clara Tehrani explora no seu artigo o mundo dos que estão por esse mundo fora, dos que fogem porque não dá mais para ficar. Aqui, neste canto à beira-mar plantado, onde o reconhecimento parecer tardar em chegar.
Em Portugal, o reconhecimento pode tardar ou nem chegar, mas não deixam de existir iniciativas louváveis como a OPO'Lab, um espaço de referência no mundo do design, criado por José Barata Feyo e José Pedro Sousa, na cidade do Porto, para estimular a investigação, a produção e os eventos nesta área. Realce ainda para o trabalho apresentado neste número do PROJECTO10 da artista plástica Ariana Couvinha, a provar uma vez mais que Portugal continua a crescer enquanto referência no mundo da ilustração. Adreyna Caires expõe brilhantemente, no artigo Construindo pontes para a «Lusofonia», a história recente da cooperação portuguesa e avança algumas pistas para o seu futuro. Também Pedro Lisboa analisa de uma forma inesperada a geoestratégia internacional e a balança de poder entre países ou ideologias. Como? Através da análise da história dos jogos de tabuleiro, porque afinal, e como dizia Giampolo Dossena «Digam-me vocês (olhos nos olhos) porque é que, antropologicamente, a história dos jogos há-de ser qualquer coisa menos do que a história da literatura ou da música.» Finalmente, o último artigo, do último número do PROJECTO10 apresenta a entrevista completa ao escritor José Eduardo Agualusa. Apresentada parcialmente no número de Dezembro da agenda cultural Migalhas – nosso importante parceiro - é agora editada na sua totalidade. Uma conversa franca e aberta sobre o passado, presente e futuro de Angola, da língua portuguesa e do próprio autor.

O ano de 2011 está já aí ao virar da esquina. Faltam tão poucos dias para chegar ao fim de 2010, para chegar ao fim do PROJECTO10. E porque «o PROJECTO10 é apenas isso, um projecto para 2010», nesta hora de adeus socorro-me daquelas últimas palavras do primeiro editorial - que parecem agora escritas há mil anos -, e relembro-me que «A identidade do PROJECTO10 não se resume a palavras. A estas palavras. Nem às próximas que aqui escreverei. Nem às imagens que o povoam. Nem às músicas que nele ecoam. PROJECTO10 constrói-se, como qualquer sonho, com o trabalho incansável e extraordinário de muitos. De muitos amigos. De amigos que acreditaram que era possível criar este projecto. E foi. A todos eles, um grande obrigado. Este é o vosso/nosso PROJECTO10.» Acrescento ainda estes dois últimos agradecimentos: a todos os autores que partilharam o seu trabalho de uma forma tão generosa e altruísta, e obviamente a toda a equipa que passou por esta revista – Aires Gouveia, Ana Virtuoso, Armanda Claro, Carolina Pacheco, Hugo Guerreiro, João Manso, Márcio Barcelos, Mariana Vilela, M. Tiago Paixão, Rita Daniel, Rúben Nobre, Susana Chicó, Zé Pedro Alfaiate -, e que tornou possível o PROJECTO10.

O PROJECTO10 fechará o seu ciclo com uma festa de encerramento no próximo dia 5 de Fevereiro de 2011, exactamente um ano depois do lançamento, na Ler Devagar, no LX Factory, às 22 horas. Esperamos por todos vocês para um último encontro com o PROJECTO10.

 

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