Editorial

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Um-Xis-Dois
Clara Tehrani

O mundo é tão grande e a vida tão pequena.
Tantas experiências, tantas profissões, tantas terras. Infinitas combinações.
Para onde ir?

Parecia mais fácil quando o mundo era mais pequeno e, no entanto, a alma já aí ambicionava ir mais além. Quem diria que este povo, hoje em dia tão mesquinho de espírito, iria dar início à globalização construindo barcarolas para atravessar oceanos imensos e deixar o seu gene teimoso em Malaca, o seu cavaquinho choroso no Havaí ou o seu Obe-ri-ga-do no Japão?

Ficou o espírito nómada, bendita herança. Quem está mal que se mude, troça o ditado, mas é isso mesmo que os portugueses têm feito ao longo dos tempos. E é isso que deviam fazer cada vez mais. É a hora da debandada geral, meus irmãos. Que temos dado o corpinho ao manifesto e a classe política, gananciosa e corrompida, tem-nos ficado com o suor, sangue e lágrimas. Muitas lágrimas.

Eu vou. Sem medo.

Aqui, a mais de 13 mil quilómetros de distância, 15 penosas horas de vôo, com escala em Paris ou Amesterdão ou Londres - que a Portela é demasiado insignificante -, com 8 horas de diferença horária, e agora com 20ºC de amplitude térmica. Aqui onde não há estações e o tempo é um contínuo esquizofrénico que nos enlouquece lentamente, sem que percebamos porquê. Aqui onde se come caril ao pequeno-almoço, ao almoço, ao lanche e ao jantar. Aqui, em Singapura, a vida é, na sua essência, igual. Aqui há mais verde mas há menos genuinidade. Há mais dinheiro mas menos amigos. Há mais oportunidades mas menos descontração.

Singapura não é o paraíso - esse fica para quando morrermos, para quem quiser acreditar nisso. Mas também não é o inferno da luta pela sobrevivência que se tornou a sociedade portuguesa. Depressão em todo o lado, e de que serve haver mais vida se não há dinheiro para a aproveitar? De que vale termos o maravilhoso Alentejo se não o posso visitar porque a gasolina e as portagens estão tão caras. Meu Deus, como é que vou chegar ao fim de cada mês do ano que vem, se este salário já é tão curto? Parem o tempo. Tirem as pilhas aos relógios todos, porque pela primeira vez a passagem de ano vai ser um velório, serão 365 novos dias de sacrifício, e mais valia estarmos presos porque ao menos teriamos tecto e comida no prato, todos os dias. Voltámos aos anos 50, com os feudos económicos e nós, camponeses com cursos – de que nos valem? - não podemos fazer nada para abocanhar um bocadinho mais do que temos direito.

É um trade-off. Tudo é um trade-off na verdade. Que perfeito seria ter tudo ao mesmo tempo, mas a perfeição não existe.

Que escolher?

Se o mundo é tão pequeno e a vida tão grande.

Porque, no fundo, as pessoas, das caras-pálidas, às de olhos em bico ou mesmo de mamilos escuros, são todas iguais, em todo o lado. Toda a gente se sente sozinha, toda a gente tem medo e coragem, desejos e desilusões, toda a gente tem sede de vida e fome de dinheiro, toda a gente quer pertencer, amar e aproveitar a vida da melhor maneira possível.

Nós, os nómadas, eventualmente percebemos que o problema não está apenas na escassez de oportunidades de Portugal ou na plasticidade da vida em Singapura, mas no mundo em geral e na humanidade em particular, que evoluiu de uma maneira diferente da nossa. Praga. Nós, os nómadas, os estrangeiros de Sartre, percebemos que em todo o lado as pessoas se riem de coisas a que não achamos graça, se embebedam quando saem à noite, e gostam de coisas que não nos tocam. Somos os niilistas sociais. Rejeitamos a sociedade que se nos apresenta mas não somos nada sem ela. Por isso acreditamos que há sempre uma vida melhor à espera de ser começada noutro sítio.

Abrir as portas à emigração é arriscado. Uma espécie de blue or red pill do «Matrix», a dureza da realidade ou a felicidade da ignorância?

Agora não há volta a dar. É a eterna comparação desta vida com a passada, é a antecipação da próxima, onde é que a relva estará mais verde? Se calhar vou ali ver...

O mérito está em escolhermos uma vida que nos faça felizes.

Ou estará em escolher ser feliz, independentemente do que fizermos com a vida?

 

 

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