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MUDE Museu do Design e da Moda
Ricardo Carvalho + Joana Vilhena Arquitectos

O projecto do Museu do Design e da Moda consiste numa intervenção no edifício do antigo Banco Nacional Ultramarino, em plena Baixa Pombalina de Lisboa. O edifício não é pombalino e o que chegou até nós é da autoria do arquitecto Cristino da Silva (iniciado em 1952) e caracterizava-se pelo piso térreo inteiramente dedicado ao atendimento dos clientes do banco, com uma forte relação urbana com as quatro ruas que envolvem o quarteirão. A sua porta monumental em aço na Rua Augusta demonstrava o desejo de afirmação do banco.

O antigo BNU possuía um ambiente marcado pelos materiais de grande solidez e sofisticação construtiva. O seu desenho era ecléctico e já na década de cinquenta muito distante da Arquitectura mais radical do Movimento Moderno. O BNU falava de outro tempo. Era o mais vienense dos bancos lisboetas, com um balcão em pedra capaz de desenhar por si só todo o espaço e marcar o quarteirão pelo interior.

O Museu do Design e da Moda faz-se com a surpresa de um encontro com uma RUÍNA do Século XX, uma ruína moderna. Uma ruína de um banco colonial com uma Arquitectura ecléctica. No início desta década o banco mudou de proprietário e foi profundamente adulterado, tendo sido o projecto de transformação interrompido abruptamente por motivos patrimoniais. Desde então o edifício ficou sem os revestimentos originais e com a estrutura de betão à vista. O edifício ficou em espera numa Baixa Pombalina também em espera, numa cidade que durante muito tempo se desinteressou do seu centro simbólico.

O MUDE baseia-se numa primeira leitura que fizemos do edifício em ruína, bem como numa estratégia de projecto de baixo custo. Uma afirmação da reciclagem e da possibilidade de construir um museu com premissas diferentes das habitualmente instituídas. Trata-se do único quarteirão na Baixa Pombalina passível de ser visto no interior sem obstruções significativas, um quarteirão como um espaço interior uma sala em ruína com predomínio sobre quatro ruas da Baixa Pombalina. O projecto partiu desta singular possibilidade perceptiva e propôs a instalação do novo programa sem recurso à construção de paredes. Foram necessárias demolições pontuais nos dois pisos para clarificar a matriz da intervenção.

O projecto do MUDE faz-se com LUZ. A iluminação artificial apodera-se de alguns elementos construídos e investe na imaterialidade da luz para reforçar a presença da estrutura em betão armado e, principalmente, das peças da colecção. A luz artificial apodera-se dos elementos construídos, das caixas de elevadores e do antigo balcão de atendimento dos clientes do banco. A luz natural nunca deixa de entrar no museu. É o equilíbrio e a variação entre uma e outra fonte de iluminação que permitem que o ambiente do museu seja sempre distinto ao longo do dia.

Para além da presença expressionista da estrutura em betão à vista, o projecto faz-se também pelos materiais provenientes do universo da construção civil. Estes materiais não estão habitualmente presentes nos museus. Estão presentes no processo de construção da Arquitectura e da Arte e por isso foram convocados para o nosso projecto.

As TELAS, utilizadas no cobrimento de estaleiros, serviram para envolver a relação com a rua. As telas brancas velam o exterior mas permitem ver as pessoas que passam, como silhuetas, que permanentemente percorrem os enquadramentos visuais entre as peças da colecção. As PALETES, material em madeira de empilhamento, que se utilizaram na museografia querem valorizar, por oposição, as peças que acolhem. O pavimento foi parcialmente coberto onde foi necessário reconstruir as lajes - com uma pintura industrial branca de TINTA REFLECTANTE, utilizada nas estradas e que à noite cintilam com os faróis dos automóveis. Também no MUDE o pavimento branco cintila com as paletes brancas que recebem as peças.

As peças da colecção ocupam o espaço de modo informal e estabelecem uma relação de proximidade com o visitante. O MUDE foi pensado como uma alternativa ao cubo branco, procurando um ambiente que se posiciona no antípoda da qualquer neutralidade. A cafetaria, com a sua mesa única em cortiça negra, acusa a presença do museu com uma janela que o avista, mas também a das ruas da Baixa Pombalina. O MUDE está mais próximo, conceptualmente, da galeria e da acção temporária, mas com a adesão intensa das pessoas ao museu a estratégia mostrou poder passar de provisória a fundacional.

Projecto: Museu do Design e da Moda

Localização: Rua Augusta, Lisboa, Portugal

Data: 2009

Arquitectura: Ricardo Carvalho + Joana Vilhena Arquitectos

Equipa: Joana Vilhena, Ricardo Carvalho, José Maria Rhodes Sérgio, José Roque, Francisco Costa e Sebastião Taquenho.

Especialidades:
Estrutura: ARA/ Fernando Rodrigues
Instalações e Equipamentos Hidráulicos, Redes de Fluídos: AFA Consult
Instalações e Equipamentos Eléctricos: AFA Consult
Design Gráfico: Atelier Pedro Falcão
Cliente: Museu do Design e da Moda/ Câmara Municipal de Lisboa
Fotografia: Fernando Guerra/ FG + SG

 

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