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Nevermind dos Nirvana chegou poucas semanas após a sua saída (24 de Setembro de 1991) ao topo da Billboard, ocupando o lugar que pertencia a Michael Jackson. Na altura a jornalista Gina Arnold proclamou: “ganhámos”. A vitória consagra um agrupamento abstracto e por tudo o que se sucedeu nos anos seguintes não se pode considerar verdadeiramente uma vitória. Mas naquele momento, Gina Arnold via anos e anos de trabalho da música independente norte-americana a serem finalmente reconhecidos. Não pela malta que ajudou e foi contribuindo para a cena, mas um agrupamento maior, uma massa de gente anónima, a quem aquela música significou alguma coisa. Ingenuidade, ou não, a sua afirmação tem algum significado.
Ainda o tem hoje, e é algo que constantemente repetimos sempre que alguma “cena” atinge as massas. É um processo gradual, aquilo que vem das margens e progressivamente chega ao grande público. Antes demorava anos, o labor e os meios para lá chegar tinham um significado diferente, hoje ainda demora anos, talvez menos, mas há tantas proclamações falsas dessa vitória que acabamo-nos por nos dispersar na oferta e na rapidez com que a consumimos.
Toda a gente viu Sopranos e Six Feet Under , porque nos convencemos que eram as únicas séries de jeito naquele momento. Não eram. Quantos viam Oz ? Há uns anos atrás Popular e O.C. eram uma espécie de guilty pleasures que muitos assumiam em negação, hoje quem é que não resiste a Gossip Girl ? Só por teimosia. Hoje, dificilmente se diz que não a séries como Mad Men ou 30 Rock , há cinco anos quem via The Wire e Arrested Development ? E quem conhecia Mr. Show ou The Larry Sanders Show , estas ainda dos anos noventa?
Não se trata de medir tamanhos de pilinhas, mas é sintomático coisas destas acontecerem. Como também o é voltarmos atrás e revermos, vermos ou vermos com outros olhos coisas que anos antes rejeitámos. Não se trata de se estar à frente do seu tempo, ou até de estar atrás, mas há momentos que abrem portas entre uma cultura de minorias e uma de massas. Nevermind foi um deles, numa escala global. Nas nossas vidas pessoais não é complicado imaginarmos um objecto cultural que nos abriu portas para o passado e facilitou o conhecimento de tantas coisas que nos passaram ao lado. No ano passado houve um desses momentos no cinema de humor norte-americano, que pode ter passado despercebido a muitos, ter sido ignorado por muitos mais, mas é uma realidade que marcou um género de comédia que há anos suspirava por um sucesso assim. The Hangover , de Todd Phillips, beneficiou de um bom marketing, mas poucos esperariam que esta produção de 35 milhões de dólares atingisse resultados de quase 470 milhões de dólares no mundo inteiro. Portugal não foi excepção, com cerca de 240 mil espectadores e mais de 1 milhão de euros de bilheteira. Não interessa a sequela já anunciada, o fracasso de inspiração que pode vir a ser a exploração deste filão. The Hangover , o primeiro, fez o que tinha a fazer.
A comédia é um género menor – não sou eu que o digo – que baralha ainda mais a cabeça das pessoas com a banalidade e o excesso de comédias românticas e produtos que não se envergonham de apontar a sua mira para os adolescentes. O cinema norte-americano está cheio de óptimas comédias que passam despercebidas graças ao cepticismo do público. Quase que nem é preciso fugir ao produtor, argumentista e realizador Judd Apatow, um dos muitos responsáveis pelo que de bom se fez no género nos últimos quinze anos. É verdade que muitas das coisas onde põe o dedo sofrem com as péssimas traduções dos títulos feitas em Portugal, mas a crítica, salvo raras excepções, também não soube olhar para o que Apatow faz como algo de excepcional, longe da restante manada pouco inspirada. Facto curioso, os filmes que realizou chegaram sempre a Portugal com um atraso maior do que a maioria das suas produções. Funny People , o seu último filme, um belíssimo tratado sobre a comédia e uma geração de actores foi lançado directamente para DVD.
Apatow não tem o dedo em The Hangover , mas poderia ter. Faz parte de um legado de humor que deve muito a um universo obsceno, sem ser gratuito. Talvez tenha sido o cenário de Las Vegas que aproximou o público do filme. Esse lugar tantas vezes visitado por Hollywood, que há muito tempo não sabia a uma coisa tão fresca, mesmo nascendo de um universo de ressaca. Talvez tenha sido a própria ressaca, o apagão do dia seguinte pelo qual todos nós um dia passámos. Não sei, honestamente não sei. O que sei é que milhões de pessoas viram, respeitaram e aceitaram o humor de um dos meus heróis: Zach Galifianakis. Eu próprio fiquei parvo quando me apercebi que tinha quarenta anos, outros menos de carreira para finalmente ser reconhecido, apesar de estar há anos a fazer aquilo que faz em The Hangover. Homem que viu a sua carreira regredir ao longo dos anos a nível de oportunidades, para quem o sucesso em 2009 surgiu de forma inesperada.
The Hangover é uma espécie de Nevermind para uma geração. Tal como o disco dos Nirvana, não trará continuidade da cena mais marginal para as massas, originará uma série de subprodutos, alguns bons, outros maus, a maioria muito maus. Mas é aquele momento em que se atinge o pico inesperado, em que se junta qualidade e (bons) números, com a sensação de continuidade de qualquer coisa. Foi o filme ideal para tal? Não. Mas Nevermind também não o foi, nem merecedor para tal estatuto.

 

 

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