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Livros sem Costuras
Nuno Seabra Lopes

Durante os últimos cinquenta anos o tema do fim do livro tem estado aberto na página dos livros impressos. O receio não é recente, vindo já dos tempos longínquos do Index Librorum Prohibitorum , e acentuou-se com o advento de novas tecnologias de comunicação ao longo de todo o século XX. Actualmente, o discurso habitual do fim do livro mantém o seu valor e interesse face à temática do advento dos e-books , e é constante a analogia com a experiência disruptiva do download gratuito, que ocorreu na indústria discográfica. Estaremos de facto perante o fim do livro, tal e qual o conhecemos?

Ian McEwan, no seu mais recente livro, Solar , reflecte que o Homem sempre tendeu para a visão apocalíptica do mundo e que, em todas as fases da História, preferimos ter à nossa frente uma visão de destruição por culpa própria do muito que entretanto alcançámos. Colocando de lado os referenciais judaico-cristãos patentes nesta cosmologia, a vida do livro ao longo dos séculos tem sido acompanhada pela visão apocalíptica do seu desaparecimento. Todos nos recordamos de ter lido ou de ter ouvido falar de biblioclasmos nos regimes políticos como o nazismo e outros extremismos, e de que Fahrenheit 451 (Ray Bradbury, 1953) é uma excelente reflexão.

Da mesma forma, fomos escutando ao longo dos tempos os mais díspares receios em torno do fim do livro e da cultura livresca, como o do abandono da cultura escrita em benefício de formatos de consumo mais passivos, tal como era referido aquando do surgimento da rádio e da televisão. Actualmente, vivemos à sombra de um novo receio que tem o mercado como principal vilão; este, de mãos dadas com as tecnologias vigentes e suas utilizações, tenderá a destituir o objecto-livro impresso do seu carácter utilitário, tal e qual o conhecemos. Para além disso, muitos já adivinham um futuro digital sujeito às práticas de pirataria global, tal como no mundo da música, com a destruição da cadeia de valor actual e a alteração do modo de financiamento dos criadores.

Subjacente a tudo isto permanece o possível e eminente final do livro impresso, objecto primordial na História da evolução humana e pilar de toda a sociedade ocidental. No entanto, e como já várias vezes tem sido dito e comprovado, o livro impresso subsiste após quase quinhentos anos das mais díspares ameaças e continua a crescer em termos de dimensão e valor, apesar de já não ser um objecto único e sustentáculo da civilização.

De facto, o livro foi mudando com o passar dos anos. O livro impresso passou, no último século, a conviver com outros meios de comunicação e plataformas de transmissão de informação mais pertinentes para certo tipo de usos, que integram o som, a imagem ou dispõem da interactividade no rol dos instrumentos utilizados para transmitir essa informação aos receptores. O livro foi obrigado a adaptar-se e encontrou não só uma forma de se diferenciar desses concorrentes, como também de se tornar complementar e de os utilizar para fomentar o seu crescimento e o seu papel social.

Actualmente o livro impresso já tem de lidar com um novo concorrente mais próximo, o livro digital, que se situa algures entre o livro impresso e os meios multimédia e interactivos, predispondo-se a criar uma nova pressão no mercado e uma maior necessidade de adaptação do livro impresso.

Entre aqueles que gostam de esmiuçar um pouco mais os motivos da permanência do livro, são vulgarmente referidos argumentos relativamente pessoais como o do amor ao livro e a relação com o objecto físico que será variável de pessoa para pessoa e dependerá da relação que um indivíduo, grupo ou geração criam com esse objecto. Além disso, fala-se da invencibilidade de algumas das suas características mais práticas, como a portabilidade ou a capacidade de se tomarem notas barreiras essas que anualmente vão sendo vencidas pelas tecnologias emergentes - ou da incapacidade de se observar o livro impresso reequacionado enquanto objecto de consumo digital, por nunca ter havido necessidade de o fazer.

À parte das considerações pessoais, as tecnologias vão integrando o dia-a-dia dos leitores e do mundo dos livros, ganhando espaço em bibliotecas, editoras e no próprio mercado, com o consumo tecnológico a ser progressivamente maior tanto em termos de leitores como de livros digitais.

Só nos últimos cinco anos vimos surgir dezenas de novos equipamentos de leitura digital. Proliferam iniciativas paralelas e complementares como, por exemplo, a possibilidade de se disponibilizarem todos os conteúdos em todos os formatos ( cloud publishing , anunciado pela Google) ou de se digitalizar e disponibilizar uma quantidade elevadíssima de conteúdos, em particular os que já se encontram em domínio público. O investimento neste caminho de crescimento não pára e irá provocar uma pressão cada vez mais elevada no desenvolvimento e na adopção dessas tecnologias, acelerando o processo de penetração no mercado.

Segundo estudos promovidos e anunciados na última Feira do Livro de Frankfurt (em Outubro de 2009), em 2018 as vendas de livros digitais irão suplantar as de livros impressos. Ainda no último Natal a Amazon.com anunciou ter vendido mais livros digitais do que impressos - não tendo havido uma quebra forte nas vendas de livros impressos, revela-se assim o potencial de crescimento deste mercado. Se esses elementos comprovam que o e-book irá crescer e instalar-se, no entanto pouco revelam acerca do futuro do livro impresso.

Contrariamente à visão apocalíptica da destruição do objecto livro e não dos seus conteúdos criativos -, e como já atrás vimos, o que se observa é a sua difusão na sociedade e a capacidade de encontrar o seu próprio espaço entre os objectos de consumo; apesar de perder alguns dos segmentos habituais (referência/enciclopédias), logo encontra outras formas de crescer (associado à televisão ou à Internet, como a publicação do star system e de bloguers). Para além disso, a tecnologia integrada no processo vai-se desenvolvendo e transformando o livro impresso num objecto mais barato, mais bonito, mais actual, mais resistente e atractivo.

Será natural que o maior investimento no livro digital acarrete um desinvestimento no livro impresso e, dessa forma, que haja a certa altura quebras no mercado do livro impresso. Mas a realidade indica-nos que o livro digital será um reforço na captação de novos leitores públicos que actualmente não dedicam tempo algum ao livro -, e que os leitores que adoptarem o livro digital estarão um passo mais próximos de quererem ler ou ter o livro em outros formatos como o impresso, trazendo-se assim novos leitores ao mundo do livro.

Também é notório que a primeira década do século XXI continua a ser uma década da cultura escrita. Com o advento da Internet e dos meios simples de comunicação escrita como o SMS, as taxas de leitura e de escrita passaram a ser elevadíssimas, dando aos seus utilizadores competências superiores aos das gerações anteriores. Assim, e apesar de se manter o vaticínio da morte do livro, o número de autores, livros e editores ainda não parou de crescer, nem nunca se fizeram nem venderam tantos livros como nestes tempos modernos. As ligações entre os meios estreitaram-se e complementaram-se, tendo sido criados novos segmentos e públicos para o mercado editorial. Por outras palavras, o livro permanece no centro deste novo mundo digital.

Neste processo de desenvolvimento do livro ao longo da História, muitas têm sido as rupturas. Começando pelas rupturas tecnológicas que aumentaram ou aperfeiçoaram o produto, como a invenção da imprensa levando ao descalabro de todo o modelo anterior -, e passando pelas rupturas em termos de distribuição e de consumo, como a criação do livro de bolso ou a venda em quiosques, ou em termos do papel social e relevância do livro para as sociedades, o livro é um produto que consegue evoluir e manter a sua pertinência. Este novo desenvolvimento na história do livro seguirá o mesmo princípio, transformá-lo-á e adaptá-lo-á a uma sociedade diferente daquela onde o livro impresso nasceu. O livro passará a habitar uma sociedade que tem de lidar com a massificação do uso tecnológico, que tem que lidar com as novas formas de criação, distribuição e consumo de cultura. Mais do que uma ruptura, é uma adaptação do livro face à sociedade em mudança, a garantia de que irá persistir enquanto objecto de consumo para muitos de nós.

Com a criação de livros em formato digital nasce, no entanto, um novo risco. O risco da pirataria que acarreta questões de sustentabilidade dos projectos editoriais (que passarão a estar apoiados em dois mercados: impresso e digital) e dos criadores. Se, apesar de todo o desenvolvimento de sistemas de protecção de cópias, tem sido difícil manter a pirataria longe destes produtos, como já se viu no mundo da música, pode-se também antecipar os fenómenos de perda de valor do livro enquanto objecto de consumo. Pois se se torna possível aceder aos conteúdos de determinado livro de forma ilegalmente gratuita, como se fará com que as pessoas reconheçam ao livro o seu preço devido? Apesar de se criarem produtos de maior valor para o público (com valências nunca antes pensadas), a verdade é que a possibilidade de acesso e de consumo ilegal irá criar uma pressão elevada no preço a cobrar por este produto, logo, na sua sustentabilidade. A oferta pirateada de produtos irá reduzir a curva da procura a um valor inferior, pois quanto estamos dispostos a pagar por algo que quase todos obtêm de uma forma gratuita?

Com a vulgarização da tecnologia torna-se impossível impedir que um fenómeno desses ocorra. Desde que haja interesse no consumo desse produto (neste caso, livros digitais), haverá quem o consiga piratear e disponibilizar a milhões de pessoas de uma forma gratuita. Como, e contrariamente ao mundo da música, um escritor não consegue vender a sua «performance» artística, a sustentabilidade do autor é colocada em causa, levando-o a reequacionar novas formas de rentabilização do seu potencial criativo, seja através de conferências, artigos de opinião, ou explorando os conteúdos de forma totalmente diferente da actual. Para fazer face a isto será necessário reequacionar muitos dos princípios tidos actualmente como válidos, como a noção de propriedade e domínio público, ou de uso de propriedade intelectual.

De uma coisa podemos ter a certeza. No futuro haverá livros, e presumimos que haja mais gente a ler e a gostar daquilo que os criadores escrevem. Haverá mais e melhores formas de aceder a esses conteúdos e possibilidades que ainda hoje estão a ser inventadas de nos relacionarmos com os livros. No futuro haverá livros, mais livros, e com o livro digital iremos viajar para um novo tempo. Um mundo onde livros digitais e impressos podem conviver e lutar por objectivos comuns: os escritores e os leitores.

 

 

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