Editorial

Sociedade e Mundo

# Precariedade do Trabalho, Precariedade da Vida
Rita Rato

Quando a Riqueza se Transforma em Maldição...
Raquel Duque

Ciências Sociais

# Cartografia do Impasse Presente
Luis Augusto Campos

Colonialismo Português: o Debate no Palco da ONU
Ana Lobato Castanheira

Arquitectura e Design

# MUDE Museu do Design e da Moda
Ricardo Carvalho + Joana Vilhena Arquitectos

Superchase
Vivóeusébio

Arte e Entretenimento

# Livros sem Costuras
Nuno Seabra Lopes

A Ressaca
André Santos

Espaço Criação

# Ruptura com o Passado. O Descanso do Guerreiro.
Augusto Rocha Soares

Work Hard and Be Nice to People
Mariana Fernandes

Cartografia do Impasse Presente
Luis Augusto Campos

Vingt pour cent des jeunes Allemands, lorsqu'on leur demande
ce qu'ils veulent faire plus tard, répondent "artiste.[1]

Uma frase que condensa a situação, somos a primeira geração que viverá pior que a anterior. A crença na economia, aliada inseparável da política, chegou ao fim. Havia até então um certo sentido de continuidade em toda a lógica produtiva que, embora sempre se tenha pautado por se exprimir numa linguagem cifrada cujos guardiões do templo se encarregariam de traduzir, tentou sempre imprimir um cunho de esperança, de evolução, e que encerra agora o seu ciclo. Já foram as máquinas, num sentido geral, e depois em particular os computadores. Agora a internet e com ela a quimera do conhecimento prêt-à-porter . Mas nada disso será uma tábua de salvação. Já foi a fábrica, enquanto reprodução física mais visível da hierarquia do mundo do trabalho, o alvo de todos as reivindicações mas hoje é o trabalho em si que é questionado e rejeitado. Não de uma forma visível como numa manifestação mas de uma forma invisível, como num índice que ninguém consegue explicar, numa deserção que ninguém convocou. Ninguém mais acredita no trabalho, não porque seja bem ou mal pago mas porque deixou de ser natural em nós acreditar numa sociedade em que desde muito novos somos obrigados a competir. Acontece que, pese a suposta ingenuidade desta forma de ver as coisas, sabemos agora as possibilidades que temos nesta ou naquela área de uma forma quase rigorosa, percentual inclusive. São até prodigiosos os esforços feitos pelos governos, nos últimos 20 anos pelo menos, de encaminhar os estudantes para os cursos certos . Ou de pelo menos tentarem, por todos os meios, preencher as quotas de trabalhadores qualificados exigidos pelas empresas. Que o desaparecimento das universidades enquanto produtores e não apenas distribuidores de conhecimento esteja tão perto é apenas o sintoma mais epidérmico de uma doença profunda, algo que podemos tentar desenhar começando nos processos de selecção mas cujo final já não nos atreveremos a tentar adivinhar. Ainda assim, hoje em dia, é tão verdade que a perspectiva de futuro de um qualquer gestor possa parecer mais risonha quanto o facto de já mais ninguém o querer ser. Sabemos que estamos num barco que prefere mandar uns borda fora do que ficar atracado. Decidimos não seguir viagem.

O que se opõe à desolação dominante não é, em definitivo, mais do que outra desolação, pior aprovisionada. Por todo o lado se trata da mesma ideia tola de felicidade. Os mesmos jogos de poder tetanizados. A mesma desarmante superficialidade. O mesmo analfabetismo emocional. O mesmo deserto.[2]

A par com a rejeição da ciência económica, a ruptura com a política. À medida que aumenta a consciência do elemento regulador na política aumenta também o seu descrédito. A regulação dos mercados, a última que caiu, nem sequer era a mais imprevisível. Assim como não tem um tom profético dizer que os dispositivos de vigilância e controlo vão aumentar à medida que a crise e o desemprego se forem alargando. E à esquerda, que sempre teve a palavra solidariedade como arma e a indignação como discurso, nenhuma resposta senão uma arcaica posição de sentido de estado como se esperasse a sua oportunidade para começar algo novo. A derrota da esquerda abriu espaços a aggiornamentos e cisões mas também a este novo fenómeno de movimentos sociais. Contra o racismo, pela liberdade sexual ou em defesa dos rios, toda uma multiplicidade de lutas que de algum modo substituem o papel dos partidos. Não por uma falta de confiança neste ou naquele em particular, mas por uma consciência que há coisas que nenhum parlamento irá mudar e que portanto não são lá que se jogam. Em suma, vender uma tragédia grega tão antiga como um novo paradigma político, um novo modelo de construir a participação. Neste sentido, os partidos correm agora atrás dos cidadãos, por um esforço de controlo mas também para a sua própria legitimação, social e mediática, que lhes começa a fugir. Sendo verdade que não será em mini-parlamentos com os mesmos vícios que se iniciará um caminho para lá desta abstracção a que se convencionou chamar participação cívica, também não será enganoso que romper com essa necessidade e construir a autonomia dos grupos parece ser a única opção que não implique suportar mais os discursos entediantes da política contemporânea.

Notre histoire est celle des colonisations, des migrations, des guerres, des exils, de la destruction de tous les enracinements. C'est l'histoire de tout ce qui a fait de nous des étrangers dans ce monde, des invités dans notre propre famille.[3]

E a sociedade? Que mais dizer dessa palavra senão que é uma pretensão e uma ilusão que mais serve a quem a usa do que a quem compõe? Que o fervor nacionalista se recomponha sobre o formato de uma equipa de futebol apenas deveria suscitar motivo de regozijo e nunca de espanto. Há muito que apenas se define contra , e nunca a partir de. Não houvesse por parte de tantas pessoas a necessidade de transpor todas as barreiras da emigração que o mundo dito desenvolvido erigiu e hoje já quase nem se falaria em sociedade ou mesmo cultura. Nem mesmo nos termos mais simpáticos como os que assumem os recentes esforços de patrimonialização, seja de hábitos e costumes ou de fortalezas em escarpas tão longínquas quanto o passado que as viu nascer. Falam num sentimento de desagregação. Mas a verdade é que atinge apenas quem algum dia necessitou, por medo ou ignorância, e não raras vezes por ambas, de uma identidade para contrapor aos outros . No fundo, uma máscara, embora aqui o termo maquilhagem seja mais exacto já que não tapando todo o verdadeiro rosto trata apenas de apagar as partes menos bonitas. Para esses o espanto, para nós, o riso. E a certeza de que nunca apoiaremos a agregação de espíritos contra um hipotético sentimento de fuga. A metáfora da fuga dos cérebros, aliás, só pode ser uma anedota tendo em conta o crescimento exponencial das multinacionais, os programas internacionais de estágios e intercâmbios e mesmo a orientação para a noção de economia global repetida exaustivamente pela classe governante. Não será de descurar o papel que o liberalismo teve em todo este processo. Se houve um descambar do sentimento de sociedade e solidariedade isso deve-se antes de mais a esta noção de que cada um progride por si e para si. Assim como convém não esquecer o papel que a palavra Ocidente veio preencher neste momento em que parecia estar enterrada toda e qualquer pertença a uma comunidade que não aquela que construímos e escolhemos.

No mundo realmente reinvertido , o verdadeiro é um momento do falso.[4]

Todos estão conscientes de que não existe exterioridade ao sistema. E no entanto, ouve-se ainda essa frase, como sempre vinda de quem menos deseja uma mudança, como sempre em tom acusatório de quem traça uma sentença a partir da qual nenhum debate é possível. Responder a isso com possibilidades de organização que roçam o miserabilismo apenas engrandece a imagem de superioridade daquilo que temos pela frente. À necessidade inegável de uma organização e, dizem-nos, do governo central podemos contrapor dezenas de anos de práticas que o contornam por parte de populações que, por organização geográfica ou social, sempre foram consideradas como comunidades isoladas e onde o longo braço do estado raramente fez parte de alguma solução já para não falar de quando fez parte do problema. Com a mesma facilidade, os ecologistas podem responder a quem diz que Lisboa tem demasiadas colinas para ser uma cidade ciclável com o facto de na Holanda chover durante 10 meses por ano e ninguém parecer preocupar-se muito com isso. A possibilidade de debater mudanças tem muito que ver com a largura do debate que podemos ter. E é exactamente por isso que é preciso antes de mais, uma posição de força. Uma força entre os que se entendem e que se organizam. Até porque a ruptura com os modelos clássicos toma grandeza à medida que se desnudam os vícios do conservadorismo, da propensão destes governos para não ir além de gerir o que existe e assim esconder que pode ainda ser construído. O possível reduzido ao real. Os curtos estados de excepção, as pequenas avarias na engrenagem, os poucos momentos de vida em que as relações sociais estão livres de mediação, são um alvo sério da atenção das camadas dirigentes. Que tudo encaixe como uma luva, desde a saída da escola até ao momento da reforma é já o único objectivo do regime que conhecemos, na Europa pelo menos, nestes últimos anos. Gerir tudo o que existe de modo a funcionar sem interrupções, eliminar os desvios, esconder tudo o resto. E fazer com que ninguém se atreva a contestá-lo através das mais duras medidas repressivas. Que hoje possa pagar mais caro, como aconteceu com as pessoas acusadas de terem escrito L´Insurrection qui vient , quem contesta o estado de coisas de quem, no seu seio, encontra algumas falhas de que se aproveita, diz tudo sobre o carácter imutável de uma organização social em decadência. E daí extrair todas as lições é apenas o começo.



.....

[1] L´Insurrection qui vient , La fabrique éditions, 2007

[2] Appel , Edições Antipáticas, 2008

[3] L´Insurrection qui vient , La fabrique éditions, 2007

[4] DEBORD, Guy, A Sociedade do espectáculo , Edições Antipáticas, 2005

 

Share |


© PROJECTO10 - 2010 . PROJECTO10 - Revista Digital Temática - 10 Números 10 Temas.