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Vamos ao concerto, porquê?
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Vamos ao concerto, porquê?
Susana Jaulino

A concert is not a live rendition of our album. It's a theatrical event.
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Nos tempos que correm é fácil ir a um concerto. Há concertos de todos os géneros, desde os festivais mais badalados e patrocinados como o Rock in Rio , até aos mais pequenos que dão os seus primeiros passos e que aos poucos conquistam os seus seguidores, como o Vagos Open Air . Há bandas que esgotam estádios, outras que deixam bares pela metade. E no meio de todas estas desigualdades, há a experiência única de assistir a um concerto, um espírito solidário e de reconhecimento mútuo que une o público num espectáculo, um pouco como o espírito que une um grupo de adeptos numa ida ao estádio em dia de jogo grande.

Quando a nossa adolescência está no ponto alto e somos atrevidos e patetas como jamais voltaremos a ser, temos uma facilidade enorme em ritualizar os acontecimentos dos quais fazemos parte com maior frequência. Com os concertos, os anos passam e parte do ritual mantém-se, mas vai-se reduzindo lentamente ao momento do espectáculo. Deixámos de lado a gazeta na escola, as horas de espera à porta do Coliseu e a corrida para segurar o melhor lugar na primeira fila, colados às grades, mesmo que para isso tivéssemos que sujeitar os joelhos a nódoas negras e possíveis esfoladelas. Hoje, consultamos os nossos horários de trabalho com semanas (às vezes meses) de antecedência, trocamos folgas, fazemos manhãs quando devíamos estar a fazer noites, sacrificamos o sono. Fazemos isto pela música. E as horas que antecedem o espectáculo são passadas nos transportes, no carro, presos no trânsito. Este é  o ritual e ele muda naturalmente com os anos. Insistimos e acreditamos que, por outro lado, a experiência da música ao vivo é imutável. Mas a música mudou. Antes íamos aos concertos como complemento dos álbuns que comprávamos, ou que nos chegavam às mãos pelos amigos e que gravávamos em cassetes ou em CD, suportes que hoje sabemos que estão absolutamente ultrapassados. Hoje, através da utilização simples das ferramentas necessárias (um computador razoável, um bom acesso à Internet), assistimos aos concertos a partir de casa (alguns até em live streaming ), conhecemos bandas que noutras circunstâncias jamais chegariam aos nossos ouvidos. Se tudo isto são facilidades, se consideramos esta mudança benéfica, o que é que faz com que a lotação do estádio de Coimbra tenha esgotado em poucas horas para os concertos dos U2 no próximo mês de Outubro; ou que em poucas semanas a primeira data agendada para os Metallica (que até se tornaram visitantes regulares desde 2004) estivesse totalmente vendida, levando a promotora a agendar um segundo espectáculo? A explicação é bastante simples. Recorreremos a nova analogia futebolística: a emoção de assistir a uma final através da transmissão televisiva é incomparável à de vivê-la no estádio. Tal como no futebol, nos concertos as emoções elevam-se e passamos a fazer parte de qualquer coisa especial. Tomamos aquele momento como “nosso”. Depois, há novamente a dupla futebol-música e a sensação de “barriga cheia”, o sentimento de retorno do investimento; a correspondência perfeita com as nossas expectativas: a vitória da nossa equipa – o concerto ser tudo o que nós esperávamos, ou mais ainda (é o querer ganhar três a zero e terminar oito a um).

No caso do futebol, sabemos o que é bom – são os três pontos no fim, marcar muitos golos e jogar bonito. E na música? Os concertos dependem da personalidade de cada banda/artista, e o que esperamos deles está sempre intimamente ligado ao que já conhecemos das bandas, quer por concertos (ou imagens de concertos) passados, quer pelo que os artistas revelam nos seus registos. A imagem das bandas, a atitude deste ou daquele músico, a infra-estrutura do próprio espectáculo e a qualidade desta (que pode não depender exclusivamente da banda) – tudo isto são factores extra-musicais que sabemos preponderantes para a nossa experiência do concerto e que vão ajudar a determinar se esta é ou não satisfatória. Se o nosso currículo (no que toca a concertos) se torna muito vasto, transformamo-nos naquele género de espectador difícil de agradar, para o qual já não basta a visão endeusada dos artistas/bandas ali tão perto, satisfação própria dos fanáticos que acabam por ficar alheios ao concerto na sua plenitude, tal é o poder hipnótico que os absorve. A chamada à realidade não quer dizer que não entremos na redoma que nos é proporcionada durante aquelas horas, ou que não desfrutemos do espectáculo, mas mantém-nos em estado de alerta, apura-nos o sentido crítico e obriga-nos a reconhecer as imperfeições e encarar a desilusão como uma possibilidade.

Esta abordagem racional perante uma situação que nos afecta emocionalmente nem sempre é atingida com sucesso (é como lidar com a derrota, quando a nossa equipa fez tudo para ganhar, mas faltou aquele remate certeiro). No caso específico da música ao vivo, somos confrontados com a noção de quão efémero é o momento que estamos a viver e a probabilidade reduzida de podermos voltar a ver aquela banda/artista, o que de imediato condiciona e canaliza as nossas emoções para a experiência do concerto. Estamos perante uma circunstância onde o carpe diem faz todo o sentido. É principalmente por isto que vamos a concertos. Em primeiro lugar, temos que ter em conta que só uma percentagem muitíssimo reduzida do público frequenta concertos indiscriminadamente, ou seja, existe logo à partida uma motivação comum, algo que une o público na sua totalidade, que funde cada presente numa massa humana homogénea e que a prepara, nos momentos que antecedem o espectáculo, para empenhar coordenadamente os seus sentidos na direcção da música. Isto a menos que estejamos a referir-nos ao conceito de festival, onde a tendência é (cada vez mais) reunir no mesmo dia públicos de quadrantes musicais distintos, o que nem sempre é positivo para a experiência do concerto a que nos propomos assistir – recordemos os Nickleback no Festival da Ilha do Ermal em 2002 ou, ainda no ano transacto, os My Bloody Valentine no Festival Rock One ; ambas foram vaiadas até à exaustão (a primeira, como sabem, abandonou o palco após agressão do público) por serem consideradas erros de casting e estarem aparentemente desenquadradas do estilo musical do cartaz dos festivais em questão, acabando por sofrer na pele a intolerância de um público que, motivado pela ansiedade de ver a “sua” banda, pode ir de bestial a besta em poucos segundos.

Em tempos onde tudo corre em banda larga continuamos a ir a concertos. Muitas vezes, insistimos na repetição, vemos a mesma banda duas e três vezes. Quando nunca estivemos tão perto da era do sofá como hoje, a questão que fica é: o que é que nos motiva a sair de casa, a fazer centenas de quilómetros e sacrificar o nosso conforto em prol de poucas horas capazes de abalar irreversivelmente a nossa audição? Hoje, e como consequência do aumento da oferta de concertos pop/rock nos últimos quinze anos, sabemos que uma percentagem significativa do público com idades entre os 24 e os 30 anos frequenta eventos de música com regularidade. Sabemos também que o fazem por se identificarem com as bandas/artistas e pelo carácter único do concerto, que lhes concede a oportunidade de apreciarem ao vivo as competências dos músicos, aliado por vezes a experiências audiovisuais muito fortes, como o caso dos concertos dos Sunn O))) , por exemplo, onde a densidade sonora pode ultrapassar o que se considera tolerável para o ouvido humano; ou os concertos dos Tool , onde projecções de imagens acompanham cada tema, tornando o espectáculo mais intenso, obrigando o público a manter os sentidos mais despertos, tornando possível a apreensão máxima do espectáculo nas suas duas frentes. O nível médio dos rendimentos já não permite tão facilmente idas a concertos e festivais pelo ambiente, o convívio, ou a simples vontade de conhecer mais bandas. O investimento é feito cada vez mais a pensar na música e nos artistas que compõem cada cartaz.

A expansão da Internet operou mudanças irreversíveis na música, na promoção de artistas e trabalhos, mas a experiência da música ao vivo, essa, mantém-se imutável desde Woodstock (que só conhecemos por imagens). Quando vemos imagens de concertos dos Beatles rodeados de adolescentes em êxtase, não é difícil pensar que já vimos imagens semelhantes há poucos meses atrás. A música é-nos oferecida a uma velocidade tão rápida quanto a do próprio som e a oferta, que começa a tornar-se excessiva (é impossível ouvir todas as bandas e artistas que são falados como promessas ou geniais), leva o público a apostar mais nos eventos ao vivo, como exame final da competência e qualidade das bandas. As mudanças que a tecnologia operou na música acabarão por transformar os concertos na principal bandeira de cada artista. Damos primazia aos eventos ao vivo pela impossibilidade do disfarce, pelo inevitável recurso ao improviso, por permitir a espontaneidade de emoções quer a artistas, quer ao público.

Continuamos e continuaremos a ir a concertos pelo sentimento de pertença com que ficamos dos momentos que vivemos no decurso do espectáculo, pela sensação de inscrevermos o nosso próprio nome na história, por fazer parte de um momento irrepetível, que fará parte da memória colectiva de todos os presentes. E pela presença de algo que não encontramos em mais nenhum suporte a não ser num momento sem possibilidade de corte e repetição: a sua genuinidade.

 

 

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