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Literatura e Futebol: Noções de nação e clube em Fado de Landeg White
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Tout ce que je sais de la morale et des obligations
des hommes c'est au football que je le dois.
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Ao longo dos anos, num sentido natural de evolução social e consequentemente literária, os grandes temas da literatura foram-se metamorfoseando, sem perder a sua raiz. Entre eles, podemos destacar o amor - presente em qualquer época, desde a epopeia de Gilgamesh – na sua ampla semântica, a melancolia, tão em voga na poesia contemporânea, e talvez a temática mais tradicionalmente portuguesa, o mar. Destacamos estes três temas pois nos parecem de enorme relevância no objecto aqui proposto.

Em que medida, perguntamos então, terão lugar os grandes fenómenos de massa, ou mitos modernos num sentido barthesiano , na literatura moderna em geral e na poesia em particular? Em Mitologias[1], Roland Barthes fala do Tour de França como uma epopeia da época moderna. Semelhante a esse fenómeno temos um muito actual exemplo do poemário Montanhas Mágicas da autoria de Hugo Milhanas Machado, com o qual venceu o prémio José Luís Peixoto 2008[2] . Contudo, não há maior fenómeno de massas actual que o futebol. E não haverá talvez fenómeno mais próximo da poesia que esse, a nível estético e a nível cerebral. Não será um acaso que um dos gestos esteticamente mais perfeitos do futebol se chame “passe de letra”. Gesto esse que muito recentemente originou uma curiosa crónica de Jacinto Lucas Pires:

Aquilo, aquele passe de letra, aquele gesto simples todo precisão e música, aquilo é de nos silenciar por dentro, puro espanto. Perante tamanha arte, acho que mesmo os poetas mais frios, mais cerimoniosamente cerebrais, não têm outra opção que não seja derreterem-se, líricos de comoção.[3]

Seriam tantos outros os exemplos que poderíamos citar, e obras que falam directa ou indirectamente deste fenómeno. Uma merece especial atenção nestas páginas, o poema Fado[4] de Landeg White.

Numa primeira impressão, Fado será um poema estranho ao leitor por vários motivos. O mais imediato, até antes de uma primeira leitura, será o facto de um livro editado em Inglaterra, de um autor Galês, estar familiarizado com um termo tão português e falar de duas temáticas profundamente enraizadas na cultura portuguesa, distanciados por séculos entre si: os Descobrimentos e o Benfica. Se os Descobrimentos poderão ter mais fácil explicação na construção de um imaginário profundamente português, já o Benfica será uma incógnita maior para muita gente. Clubismos à parte, será indiscutível nomear o Benfica como símbolo tanto de uma mística popular como de identificação com a nação, conceito que nos parece chave no poema de White. Os primeiros versos são dotados logo de uma mistura quer temporal, quer imagética: “When Vasco da Gama captained Benfica,/ those were the glory days.” E apenas estes dois versos poderiam resumir tudo aquilo quanto White pretende neste poema. As representações históricas aqui representadas na figura de Vasco da Gama são actualizadas a um tempo moderno, que o leitor conhecedor de futebol facilmente identifica com a década de 60, os tempos gloriosos do Benfica campeão Europeu. Estes tempos entram em relação directa com o apogeu do Império português, com a sua riqueza e soberania nos séculos XV e XVI. Neste conceito presente desde o início do poema, clube e nação encontram-se interligados numa relação de semelhança histórica, social, económica e, sobretudo, simbólica. Este é um problema que podemos relacionar directamente com a perca do mar, do Ultra-mar simbólico português, do fim de um império, de um auto questionamento que cresce com a posterior entrada na comunidade europeia e com o novo pensamento europeísta. Quem somos nós agora?

Essa relação não é totalmente descabida, no confronto entre nação e clube, neste caso particular, Benfica. Não será por acaso o uso de termos como Nação Benfiquista . Aconteça o que acontecer no país, no mundo, há algo que une e identifica as pessoas espalhadas por ele, lusófonos e não só. Esse “patriotismo”, essa ligação é em tudo semelhante à de nacionalidade. Ser europeu, ser português, ser benfiquista. Outro tema já referido, da melancolia do passado, podemos encontrar na afirmação “all proud to wear red”. Tal como as figuras históricas portuguesas, aqui personificadas em jogadores do Benfica, têm orgulho em vestir a sua camisola, lembra uma época que agora nos parece distante, de um certo orgulho em ser português. A melancolia do passado que contrasta com a depressão actual. Este é um tema que nos conduz, evidentemente, para o maior dos símbolos desse império perdido: D. Sebastião. A figura d´ O Desejado foi adaptada a várias situações e episódios - por Bandarra, António Vieira, Fernando Pessoa, José Régio, Manoel de Oliveira, entre outros – como figura máximo e invocativo de tempos prósperos que se acredita voltarem:

Ao longo dos tempos, o sebastianismo tornou-se um paradigma para a leitura da história de Portugal, capaz de incorporar as mais profundas expectativas do país e do povo em relação a si mesmos. Tem-se prestado a metamorfoses que lhe permitiram atravessar os séculos, sempre associado a uma ou outra forma de patriotismo, revelando-se uma das vias de actualização e estruturação da memória e do imaginário colectivos.[5]

Esta relação leva-nos a acreditar que a noção de patriotismo não está assim tão distante da noção de clubismo. Que os grandes temas e as grandes figuras da História têm lugar e analogia com este fenómeno global de massas que se chama futebol. Que o amor à pátria hoje em dia está quase substituído pelo amor ao clube, ambos sujeitos aos seus fanatismos.

Landeg White, ao qual não é alheio o efeito clubístico benfiquista nem o fado - na sua mais pura etimologia – português, realiza um jogo de espelhos misturando conceitos que numa primeira ideia nos parecem tão distantes. Mais que uma atenção aos fenómenos de massas, revela uma atenção ao comportamento social português. Entre a melancolia e a depressão de um império decadente e a emoção e alegria que o futebol vai dando aos seus seguidores. E enquanto não chega Sebastião, quer seja na noite de nevoeiro, quer seja nas ondas algarvias na sua prancha de Surf como descrito no poema, continuamos divididos entre um tempo que não volta e a interrogação muito presente de quem somos hoje em dia.

 

[1] Roland Barthes, Mitologias, Edições 70, 2007.

[2] Por publicar, sendo possível ler alguns dos poemas em
http://hmmachado.blogspot.com/

[3] Jornal de Notícias, 28 de Abril de 2010, também disponível em
http://chanatas.blogspot.com/2010/04/passe-de-letra.html

[4] Landeg White, Arab Work , Parthian Press, 2006, p.49.

[5] Isabel Pires de Lima, “O Regresso de D. Sebastião – narrativa e
mito na ficção Portuguesa contemporânea”, in Línguas e Literaturas,
Revista da Faculdade de Letras do Porto
, nºXIV, 1997, pp. 251-264.

 

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