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Uma defesa crítica do mais ordinário contra alguns
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Uma defesa crítica do mais ordinário contra alguns esquecimentos do quotidiano
Alexandre Pólvora

Habitamos mundos tecnicamente preenchidos de formas imensas. Mas por demasiadas vezes esquecemos tais preenchimentos na realidade onde correm e ocorrem as nossas vidas de todos os dias. A realidade quotidiana. Aquela que um dia Berger e Luckmann[1] nos ensinaram ser a primeira entre todas. Aquela em que tudo passa e se passa antes de passar aos outros níveis. Onde nunca devem deixar de ter início os conhecimentos sobre o que entendemos entender como o social. Onde nos rodeamos e somos rodeados por inúmeras materialidades enquanto elas nos marcam nossas vivências do mais comum.

Ao acordarmos, um qualquer relógio-rádio-despertador, um candeeiro ou a almofada em que nos defendemos do que está lá fora. Na casa de banho, torneiras, um espelho, uma escova de dentes e toalhas. Ao passar para a cozinha, a taça dos cereais, mais a faca para a manteiga ou ainda todos os pequenos e grandes electrodomésticos que detemos. No resto do dia, outros tantos aparentes restos. De máquinas de bilhetes e chaves aos papéis e colheres que provamos entre as várias fatias de que são compostas as vidas práticas.

Estes objectos correspondem às existências materiais com que lidamos mais vezes. Por norma interagimos com eles em execuções funcionais de objectivos exactos, para depois os largarmos em ambientes que nos habituámos a neutralizar. Pegamos numa caixa de fósforos para os usarmos e voltamos a colocá-la num certo lugar. Ou o mesmo com um jogo de dominó. Realizamos com ele as operações pretendidas e não voltamos a elas por tempos. Mas entre tais relações ocasionais e limitadas surgem padrões recorrentes. E esquecimentos ganham lugar entre as invisibilidades (in)consequentes destes padrões.

Tal como poucos de nós interrompemos conversas para reflectir sobre etimologias ou nós semióticos, tendências semelhantes ocorrem num partilhar de espaços e tempos comuns com os objectos mais banais. Para além do reconhecer inicial das suas funções, modos de operação, ou mesmo possibilidades de concretização não apresentadas, raras vezes pensamos sobre estes objectos após a sua integração em contextos e ritos de interacção.

No entanto, entre as existências ainda hoje estruturais de coisas ordinárias tais, podemos sempre descobrir mais do que os fenómenos (i)mediatos de percepções práticas. Como o desenvolve o fenomenólogo da tecnologia Don Ihde[2] , só porque estas materialidades nos são familiares, e por vezes tão ou mais que algumas das partes orgânicas dos nossos corpos ou ambientes, a partir desta base nunca poderemos abdicar de reflectir sobre elas, e sobretudo, de reflectir sobre as suas conexões ao que é maior ou mais complexo.

Muitos recorrem à concepção de que as coisas triviais da vida comum se tornam mais significantes ao entendermos como envolvem as condições sociais das nossas vivências. Mas entre racionalismos de procedimentos, prosseguimentos e seguimentos positivos, onde o quotidiano acaba por ser meramente o que passa quando não se passa nada, raras são as circunstâncias onde assistimos ao insistir em possibilidades analíticas capazes de (a)firmar tal entender. E assim, mais raras se tornam as legitimações destas coisas em si mesmas, entre os grandes cursos científicos que norteiam o pensar do social. É nesta ordem de ideias que Langdon Winner se interroga de forma brilhante em Technologies as Forms of Life[3], começando por perguntar: porque é que uma cultura tão fortemente ancorada em tais artefactos, mostra tão grande relutância em estudar as suas bases?

As coisas do mais ordinário, quando, e se pensadas, surgem sobretudo em complemento ao sujeito. Signos acrescentados onde constam já outros signos. E talvez como o som na estória da árvore que cai na floresta sem ninguém para ouvir, sem sujeitos para atribuir significados, poucos se tornam os objectos passíveis de abordagem. Serem produtos de fabricação nunca as pode desqualificar, não serem sociais é que poderia. E neste caso, tais coisas da vida, enquanto objectos técnicos, são por vezes, tão ou mais sociais que o próprio sujeito. A sua radicação começa efectivamente um pouco além do biológico.

É talvez verdade que entre mundos modernos e urbanizados, para a maior parte de nós basta saber que as coisas funcionam. Saber por exemplo que um botão são 90 minutos, ou que dois botões resultam um programa com mais 50 para completar a secagem. E segundo as sabedorias mais convencionais, saber muito mais sobre tais coisas não pode ser que não coisa de técnicos ou entusiastas de culturas técnicas em formato popular. No entanto, ao nosso dispor estes objectos resultam sempre como interligação a algo maior. E o problema surge no existir e insistir de esquecimentos sobre esta tal interligação.

Ao querermos compreender os nossos contextos sociais não podemos negligenciar parte tão grande, dando primazia a outras que se julgam maiores. Não podemos esquartejar deste modo a realidade. Como (d)escrito por Ivan Illich[4] ou até Gunther Anders[5] , uma compreensão dos nossos mundos técnicos deve começar sempre nas estruturas mais directas destes artifícios, destes produtos, e não nas outras. Ou ainda, como o (d)escreve mais perto Alain Gras[6] , estes objectos podem ser sempre observados como visibilidade da mise en place de macro sistemas técnicos que, desde as suas potências energéticas às suas potências políticas e morais, nos acabam por configurar (n)as existências sociais.

Muito além dos fantasmas passados de determinismos tecnológicos, estes objectos não existem apenas como instrumentalidades ou algo semelhante. Eles contêm valores em si mesmos como entidades sociais, espelham diferentes escolhas em processos de desenho e uso, e sobretudo, cristalizam não neutralidades nos materiais de que são compostos. Construir analíticas para o descobrir entre agregados de plástico, borracha ou madeira, entre químicos, metais, transístores ou engrenagens, nunca serve apenas para místicas do artificial. Serve para renovar na realidade as antigas visões essencialistas em que a técnica não se subjugava sempre a outros sistemas como o económico ou o jurídico. Hannah Arendt[7] já nos tinha avisado que se os mundos onde a nossa vita activa decorre consistem em coisas produzidas pelas actividades humanas, tais coisas nunca deixam de condicionar também essas actividades, e os seus construtores individuais ou colectivos.

Os nossos objectos comuns são parte, de facto, maior ou menor, de dinâmicas mais ou menos duradouras de acção e estruturação. Esquecer esta concepção na conjugação do conhecimento social é insistir numa perpetuação de esquecimentos que são nocivos. É carregar o peso de dinâmicas há já muito vistas por Heidegger[8] , ou mais recentemente revistas por Stiegler[9] ou Guchet[10] . Dinâmicas sobre esquecimentos do funcionamento pleno dos objectos, que invisíveis apagam muito do seu carácter técnico. Esquecimentos das ligações que os sustentam quando tudo funciona, pois quando não funciona este esquecer acaba por enfrentar mil reversões. Ou ainda esquecimentos das radicações nos sistemas sociais que nunca podem ser tidas como estruturalmente ausentes ou neutrais.

Neste sentido, Henri Lefebvre[11] é que tinha razão ao dizer que a busca das estruturas falha em muito, quando procura nas nuvens mais altas, mistérios maiores ou caminhos mais fundos. E tinha razão ao acreditar que esta busca falha sobretudo quando não as encontra nas coisas familiares. As grandes formas institucionais do pensamento sobre a técnica permanecem ainda presas ao macroscópio. Ignoram as grandezas contidas nestas coisas pequenas. Perseguem ainda muitas das ambições igualmente criticadas através de quadros epistemológicos como os formismos (re)produzidos por Michel Maffesolli[12].

Com suficiente ironia, posso até declarar que para discutir os modos de existência do candeeiro que me ilumina a escrita, ou do micro-ondas que me aquece a água do café, é sempre mais simples ir à oficina no fundo da minha rua, do que esperar por discussões alargadas e informadas entre círculos científicos. Na sua grande maioria, os debates de engenheiros, cientistas, ou pensadores sociais nos campos da tecnologia, apenas ganham destaque à luz de grandes eventos, como as conquistas do progresso, ou infelizmente, os seus desastres. Contudo, não são as coisas mais ordinárias que nos transformam a vida no imediato? Não são elas que no mais pequeno tempo nos alteram os ritmos biológicos e profissionais? Que estruturam hábitos simples ou complexos? Como nos ensinou um dia Merleau-Ponty[13], é imperativo garantir que o pensamento de sobrevoo, do objecto em geral, se coloque aí, in locus, de vez, de todo, sobre os solos dos mundos sensíveis.

Sistemas como o económico ou o jurídico animam discussões sobre os seus elementos de base, e entre ritmos frenéticos temos acesso a informações sobre as mais reduzidas subidas ou descidas de capitais financeiros, ou alterações aos mais diminutos decretos ministeriais. Contudo, para além de recentes mediatizações espectaculares das maiores maquinarias e engenharias dos nossos tempos, é quase impossível assistir a discussões directas sobre estes objectos das nossas vidas práticas. Sobre como as engrenagens das máquinas de lavar se ligam aos mecanicismos maiores da modernidade urbana. A forma à raiz que a informa. A fonte de alimentação à rede que nos liga. O uso à alienação.

É fácil denunciar que às vezes estas questões podem ser redutoras. Ou enunciar até que alguns dos esforços mais recentes no pensamento social marcaram já o seu bom sentido neste caminho. Enunciar por exemplo os nomes de Latour e Woolgar[14] , Pinch, Bijker, Callon e Law[15] , e MacKenzie e Wajcman[16] , ou os seus acrónimos de A's, N's, T's, S's, C's, O's, e mais T's. Mas ao usarem os mais diversos e dispersos objectos comuns em re/conhecimentos de materialidades enquanto processos de interacção, entre teorizações simétricas e empiricismos de rede, eles abusaram destes objectos e anularam muito do seu potencial epistemológico como coisas nunca neutrais. Em si, os objectos comuns passaram a pouco mais do que conjuntos de materiais e intenções relativas, ou algo que, além dos instantes de construção, se revela estruturalmente invisível entre caixas negras e flexibilidades interpretativas. Isto resultou em anulações consequenciais do que é o social no técnico, tal como estabelecido por Marcuse[17] e Ellul[18] , ou até Jaspers[19] .

Um sem número de outros caminhos merecem maior relevância na tomada dos mundos quotidianos como espaços de quebra dos esquecimentos que os limitam e nos marcam. E sem mais, o que deve ser a tarefa essencial numa defesa desta ordem, é a necessidade radical de construir uma cultura técnica partilhada, como defendia Gilbert Simondon[20] . Uma cultura que simultaneamente se preste a entender os objectos ordinários como coisas marcadas que marcam, e dialogicamente elimine muitas das resistências à relevância heurística das coisas técnicas comuns que (pre)enchem os nossos mundos quotidianos.

Assim como François Dagognet[21] o fez de forma tão directa, também nós nos devemos perguntar: se estas coisas nos oferecem caminhos em si, porque hesitar e não embarcar em aproximações mais frontais ao que elas são? É certo que tal tarefa será sempre mais simples em relação a uns objectos do que outros. Mas as intenções aqui descritas nunca deverão implicar aglutinações indiferenciadas de materialidades ordinárias no colectivo. E no particular, há inúmeras materiologias com as quais aprender, das novas etnografias de Daniel Miller[22] , às arqueologias contemporâneas de Gould e Schiffer[23] , passando pelas revisitações das intencionalidades materiais de alguém como Peter-Paul Verbeek[24] , e sobretudo, atentando às revisões de Mitcham[25] sobre as práticas e ciências técnicas.

Quanto mais completa e integrada for a nossa percepção destas coisas de tipo técnico, melhores poderão ser as nossas escolhas individuais ou colectivas em relação às suas interpretações e usos. E assim, ganharão até mais sentido propostas como a subversão racionalista desenvolvida por Andrew Feenberg[26] , ou ainda as culturas de resistência técnica expostas e dispostas por Michel de Certeau[27] . Como Debord[28] nos deixou escrito: estudar a vida quotidiana seria um empreendimento perfeitamente ridículo, e desde logo condenado a nada discernir do seu objecto, se explicitamente nós não nos propuséssemos a estudar esta mesma vida quotidiana com vista à sua transformação.

.....

[1] Peter Berger e Thomas Luckmann. A Construção Social da Realidade ([1966] 1998). Petrópolis, RJ: Vozes, p.38.

[2] Don Ihde. Technology and the Lifeworld: F rom Garden to Earth ([1990]). Bloomington, IN: Indiana University Press, p. 3.

[3] Langdon Winner. “Technologies as Forms of Life” [1983]. in: Langdon Winner. The Whale and the Reactor: A Search for Limits in an Age of High Technology (1986). Chicago, IL e London: The University of Chicago Press, p. 5. 

[4] Ivan Illich. Tools For Conviviality ([1973]). Londres: Marion Boyars, p.25.

[5] Günther Anders. L'Obsolescence de l'homme: Sur l 'âme à l'é poque de la deuxième révolution industrielle ([1956] 2002). Paris: Ivrea, p. 21.

[6] Alain Gras. Grandeur et dépendance: Sociologie des macro-systèmes techniques ([1993]). Paris: Presses Universitaires de France, p. 208.

[7] Hannah Arendt. A Condição Humana ([1958] 2001). Lisboa: Relógio d'Água, p. 22.

[8] Para uma introdução ao tema do esquecimento neste autor v: Martin Heidegger. “A questão da técnica” [1949]. in: Martin Heidegger. Ensaios e Conferências (2002). Petrópolis, RJ: Vozes.

[9] v: Bernard Stiegler. La technique et le temps, Vol. I ([1994] 1996) Paris: Galilée, pp.9-38.

[10] v: Xavier Guchet. Les sens de l'évolution technique ([2005]). Paris: Léo Scheer, pp. 9-22. 

[11] Henri Lefebvre. Critique of Everyday Life, Vol. 1 ([1947] 2008). London e New York, NY : Verso, p.132.

[12] v: Michel Maffesoli. O Conhecimento do Quotidiano ([1996]). Lisboa: Vega.

[13] Maurice Merleau-Ponty. O Olho e o Espírito ([1961] 2000). Lisboa: Vega, p. 15.

[14] Para uma perspectiva base sobre esta temática v: Bruno Latour. Nous n'avons jamais été modernes: essai d'anthropologie symétrique ([1991] 1997). Paris: La Découverte. Mas para um maior aprofundamento particular dos argumentos em causa cf: Bruno Latour e Steve Woolgar. Laboratory Life: The Social Construction of Scientific Facts ([1979]) Beverly Hills, CA: Sage.

[15] Em detrimento de obras individualizadas, e como referencial numa introdução aos trabalhos deste grupo de autores v: Wiebe Bijker, Th omas Hughes e Trevor Pinch (eds ). The Social Construction of Technological Systems: New Directions in the Sociology and History of Technology ([1989]). Cambridge, MA: MIT Press.

[16] Na lógica da referência anterior, v: Judith Wajcman e Adrian MacKenzie (ed s ). The Social Shaping of Technology ([1989]). London: Open University Press.

[17] v: Herbert Marcuse. One-Dimensional Man: Studies In The Ideology of Advanced Industrial Society ([1964] 2002). London e New York, NY: Routledge. 

[18] v: Jacques Ellul. La technique ou l'enjeu du siècle ([1954] 1990). Paris: Economica. E para actualizações do seu pensamento cf: Jacques Ellul. Le système technicien ([1977] 2004). Paris: Le cherche midi.

[19] v: Karl Jaspers. Man In The Modern Age ([1931] 1957). New York, NY: Anchor Books.

[20] v: Gilbert Simondon. Du mode d'existence des objets techniques ([1958] 2001). Paris: Aubier. 

[21] François Dagognet. Eloge de l'objet: Pour une philosophie de la marchandise ([1989]). Paris: Vrin, p. 12.

[22] v: Daniel Miller. “ Afterword” [2005]. in: L ynn Meskell (ed ) . Archaeologies of Materiality (2005) Oxford: Blackwell Publishers, pp. 212-219. E para um exemplo de referência entre os seus múltiplos estudos de caso cf: Daniel Miller. “ Behind Closed Doors” [2001] in: Daniel Miller (ed ) . Home Possessions: Material Culture Behind Closed Doors (2001). Oxford: Berg, pp. 1-19. 

[23] v: Richard A. G ould e Michael B. Schiffer (eds ). Modern Material Culture: The Archaeology of Us ([1981]). London: Academic Press Inc.

[24] v: Peter-Paul Verbeek. What Things Do: Philosophical Reflections on Technology, Agency, And Design ([2005]) Philadelphia, PI: Pennsylvania State University Press.

[25] v: Carl Mitcham. Thinkin g Through Technology: The Path B etween Engineering and Philosophy ([1994]) Chicago, IL: The University of Chicago Press.

[26] v: Andrew Feenberg. “Subversive Rationalization: Technology, Power and Democracy” [1992]. in: Andrew Feenberg e Alastair Hannay (eds.). Technology and the Politics of Knowledge (1995). Bloomington, IN: Indiana University Press. pp. 3-22.

[27] v: Michel de Certeau. L' invention du quotidien, Vol.1: A rts de faire. ([1990]). Paris: Gallimard.

[28] Guy Debord. “Perspectivas de modificação consciente da vida quotidiana” [1961]. in: Júlio Henriques (ed.) Internacional Situacionista: Antologia ([1997]) . Lisboa: Antígona, p. 72.

 

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