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A Cidade do Rio de Janeiro
Rita Braga Alves

Abertura: Cidade Maravilhosa

A Cidade do Rio de Janeiro, a segunda maior metrópole brasileira, foi capital do território desde a época colonial (1763) até à transferência para Brasília (1960). Conhecida como “Cidade maravilhosa” quando estava no auge do seu esplendor e glamour carioca nos anos 20 e 30, o Rio de Janeiro ainda hoje recebe esse elogio.

Contudo, o processo de urbanização que se fez sentir na cidade transformou o Rio de Janeiro. A corrida da população para a grande cidade em busca de uma vida melhor num curto espaço de tempo, leva a um crescimento desmesurado de edificações que possam responder às necessidades de habitação e serviços. Este crescimento implica mais vias de transporte e estradas que acompanhem o aumento deste fluxo migratório diário. Ora, sendo o Rio de Janeiro uma cidade que se desenvolve ao longo de uma marginal com bastantes acidentes naturais, este crescimento obrigou a um aperfeiçoamento dos profissionais das áreas de construção e imobiliária de modo a lidar com essas irregularidades. Paralelamente a este crescimento formal planeado, aumenta consideravelmente o crescimento informal nos bairros pobres conhecidos como “favelas”.

Deste modo, quando falamos do Rio de Janeiro, falamos de uma cidade caracterizada por um contexto geográfico único e belo e, simultaneamente de uma metrópole massacrada por um crescimento rápido e desmedido, formal e informal. Este crescimento realiza-se desde o centro até a Copacabana, Ipanema e Leblon prolongando-se ainda para São Conrado, Barra da Tijuca e Recreio.

Centro: História da Cinelândia

Onde o Rio não dormia
“Não há lugar onde o Rio seja mais carioca que a Cinelândia. Agitação, diversidade de tipos, mistura de gente de tantas procedências, comércio, cinema, teatro, música para todos os gostos, política de todas as tendências, boêmia de todas as horas, arte, cultura, arquitetura. O mundo. Talvez esse cosmopolitismo pleno explique o fato de que, quando íamos ao encontro de todas essas luzes, dizíamos que íamos à Cidade.

Luiz Paulo Conde

Proclamada a República, o Rio de Janeiro era o símbolo da nação. O centro da capital precisava representar a ideia de civilização que os teóricos da república vislumbravam. A reforma de Pereira Passos veio responder às necessidades de modernização da região que ainda mantinha seus aspectos coloniais praticamente intactos. Além disso, a cidade era tomada pela peste e coube a Oswaldo Cruz combater os males que infestavam a cidade. Esses dois aspectos precisavam ser combatidos para que a cidade pudesse personificar o lema positivista de "ordem e progresso”. Para tal, o Presidente Rodrigues Alves nomeou o experiente engenheiro Francisco Pereira Passos como Prefeito da Capital. Pereira Passos era parte da Comissão de Melhoramento da Cidade do Rio de Janeiro, pela sua participação activa no debate sobre a necessidade de reforma urbana. O melhoramento da insalubridade das casas, o alargamento das ruas, a abertura de parques e praças foram algumas das intervenções mais importantes em que participou. Estas reformulações urbanísticas tornam a cidade o principal foco de atenção.

No início do século XX, O Prefeito apresenta o Plano de Melhoramentos, o chamado “bota-abaixo”, através do qual se abre a Avenida Central que mais tarde viria a chamar-se “Avenida Rio Branco”. Uma avenida que nasceu rasgando a cidade colonial, desde a “Praça Mauá” (região portuária que anos antes havia sido reformada) até a “Avenida da Beira Mar”, com 33 metros de largura e 1800 metros de comprimento que exigiu a demolição de 590 prédios. O seu projecto era mais do que uma reforma urbana, era um projecto de vida moderna. À custa de muitas demolições, Pereira Passos mudou a cara da cidade. Enquanto a parte norte da avenida, próximo à Praça Mauá, estava voltada ao trabalho, a outra ponta, onde seria erguido um obelisco, Pereira Passos dedicou à cultura e é onde surge a “Praça Marechal Floriano Peixoto”. Foram feitos vários trabalhos de estudo, demolição, nivelamento, iluminação, arborização, calçamento e dos prédios que surgiram ao longo da avenida, poucos edifícios restam, à excepção da Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes, o Teatro Municipal, (que seriam concluídas na administração seguinte, de Francisco Marcelino de Sousa Aguiar) ou o Supremo Tribunal Federal e o Clube Naval.

A “Avenida Rio Branco”, cujo nome se estabeleceu a 12 de Fevereiro de 1912, sofreu algumas alterações de estilos arquitectónicos: Estilo Colonial, nos edifícios existentes anteriores à construção da Avenida; mais tarde passou a predominar o Estilo Eclético, nos prédios monumentais que foram construídos junto à abertura da avenida e nos que foram construídos até à década de 30. Este aspecto arquitectónico prevaleceu durante 40 anos e ainda hoje se tenta manter o seu aspecto inicial. A imensa praça que se encontra no final desta avenida, a “Praça Marechal Floriano Peixoto” ficou conhecida como Cinelândia , porque a partir da década de 20 concentrou as melhores salas de cinema do Rio, por idealização de Francisco Serrador. A Cinelândia foi foco do Ecletismo Carioca. Nas décadas de 50 e 60 grande parte dos edifícios desta zona foram demolidos para dar origem a edifícios mais modernos e arrojados, com mais de 20 andares. O Rio civiliza-se era o que se ouvia na época. Prédios importantes foram construídos, edifícios que seriam símbolos de um novo tempo, de um novo país, marcos de uma nação republicana voltada para o progresso com inspiração na arquitectura e exuberância francesas.

Barra da Tijuca e Recreio: Modernismo e Contemporaneidade

O arquitecto Lúcio Costa foi contratado no final da década de 60 para a elaboração do Plano Piloto, destinado a ordenar a ocupação urbana da Barra da Tijuca e Jacarépagua. Esta região constitui cerca de 10% da superfície de toda a cidade do Rio de Janeiro. A intenção era definir critérios de ocupação da área que permitissem evitar o intenso processo de construção e adensamento que se verificava noutros pontos da cidade. Lúcio Costa apresenta assim, novas configurações na relação área livre e área construída, espaço verde e massa edificada, respondendo a questões de preservação ambiental e baseadas em ideias modernistas que começavam a ter expressão nesta cidade desde a década de 30. A nova arquitectura modernista era considerada ferramenta fundamental para dar resposta às novas demandas da sociedade, onde os arquitectos acreditavam que através da manipulação do espaço arquitectónico e urbano seria possível alterar e modelar as relações sociais e os modos de vida. Os princípios racionais e espaciais próprios do ideário modernista conduzem o traçado do plano piloto da Barra da Tijuca. A ausência da rua existente na cidade tradicional, margeada por lotes e edificações, a abolição do lote e a verticalização utilizada como estratégia para as áreas edificadas, deixa o máximo de solo livre. Um dos princípios do arquitecto para o plano da Barra era o de preservação ambiental e paisagística. Mas, se por um lado existia esta preocupação, por outro, Lúcio Costa pretendia criar um novo Central Business District (CBD) nesta nova área de expansão da cidade do Rio de Janeiro, que constituísse um contraponto ao CBD original, situado no centro da cidade.

Nos últimos anos de intervenção urbana assistiu-se a realizações que ultrapassam as intenções do plano piloto. Ainda que o Estado tivesse um papel estruturante, investindo na construção do sistema viário a fim de facilitar os acessos, e investindo na infra-estrutura urbana necessária, o capital imobiliário encontraria, nesta área de expansão, um espaço privilegiado de acção. Os interesses do sector imobiliário promovem alterações ao plano original de Lúcio Costa, nas alturas e utilizações dos edifícios, assim como as condições de parcelamento do sol. A Barra transforma-se assim, na nova grande área residencial dos segmentos de maior renda da sociedade. Logo a partir dos anos 70, os empreendimentos imobiliários que aliavam residência, serviços e lazer (seguindo os ideais modernistas) dão origem a condomínios privados. Esta nova forma de ocupação torna-se modelo para a consolidação da Barra. Nos anos 80, começam a aparecer os empreendimentos destinados a actividades comerciais, de lazer e serviços fora dos condomínios, começando a surgir posteriormente, nos anos 90, os edifícios comerciais de grande porte. É nesta década que começam a ocorrer as maiores disparidades quanto à forma e função dos empreendimentos implantados no plano piloto. Hoje, podem observar-se os grandes empreendimentos residenciais e hoteleiros erigidos, edifícios comerciais e de serviços. Estes novos empreendimentos criam necessidades inexistentes e transportam-nas para o espaço através de diferentes especialidades e ambientes. Através da recriação cenográfica, cada um destes empreendimentos pretende transportar o seu público para um determinado espaço e tempo, oferecendo sensações únicas que só eles podem fornecer.

Resumo: Rio de Janeiro

Estes dois exemplos específicos representam um conjunto de tantos outros exemplos que se poderiam ter explorado. A cidade carioca sofre ao longo do tempo transformações urbanas significativas que dependem de situações políticas e económicas. O Parque do Flamengo (1965), que transformou a orla ao criar um aterro para permitir a construção do Parque, os Jogos Pan-Americanos (2007) que levou à construção da Vila Pan-Americana, hoje esquecida e cujos erros construtivos ainda não foram resolvidos, são dois exemplos marcantes e antagónicos deste tipo de intervenção. Actualmente, com o título dos Jogos Olímpicos 2016, a cidade do Rio de Janeiro vai sofrer outras modificações que ainda não estão totalmente esclarecidas para os arquitectos cariocas. À parte das emblemáticas intervenções do centenário Oscar Niemeyer e a orla cuidada e protegida pelos seus habitantes, um grupo restrito da classe de Arquitectos do Rio de Janeiro mantém-se atento às situações da cidade. A evidente falta participação activa dos arquitectos, relativamente às transformações territoriais, reflecte-se em elementos urbanos construídos consecutivamente de modo incoerente, como são exemplos o desabamento de terras na cidade, a dificuldade de escoamento de águas pluviais que levam à paralisação do trânsito urbano ou ainda a existência de viadutos construídos a escassos centímetros de edifícios coloniais.

O Rio de Janeiro tem claramente potencial apesar das dificuldades de natureza geográfica evidentes. Só com empenho e interesse permanente de arquitectos e urbanistas se poderá prolongar a ideia de “Cidade Maravilhosa”, que ao longo do tempo já começou a distanciar-se do que é a realidade.

Cinelândia

Leblon

 

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