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O teatromosca, companhia de teatro fundada em Sintra, em 1999, apresenta-se como estrutura sem elementos fixos, aberta a projectos e criadores exteriores à companhia, procurando divulgar o trabalho de artistas cujas propostas correspondam a uma actividade com características inovadoras, pertinentes e exigentes, privilegiando a constituição de uma dramaturgia de língua portuguesa actual, com redacção de textos originais, e/ou a procura de um repertório contemporâneo internacional, na e de uma expressividade que confira ao teatro contemporaneidade temática e formal.

Originária do concelho de Sintra, a companhia inscreve-se numa sociologia a que podemos chamar avançada e que constitui um observatório privilegiado dos novos impasses, desafios e tensões que se colocam à experiência urbana contemporânea. Cremos que esta realidade não foi ainda satisfatoriamente assimilada pela expressão artística. Enquanto criadores, pretendemos exprimir e problematizar novas conflitualidades que ponham em jogo questões de identidade social, norma/ transgressão, tradição/ violência, lei/ valor, procurando a afirmação da companhia como estrutura de referência no domínio da experimentação artística, programando actividades em diversos domínios da arte contemporânea (privilegiando a forma teatral) e promovendo o encontro de diversas formas de expressão artística (Teatro, Dança, Música, Literatura etc.), numa perspectiva transversal das artes do espectáculo.

Depois de em 2002 termos produzido Dog Art , a partir de King – A Street Story do aclamado escritor inglês John Berger, damos início em 2010 a uma nova colaboração com este autor, com a produção do primeiro espectáculo de uma trilogia que se prolongará até ao final de 2011. Para tal, apropriamo-nos de três das suas obras ( Pig Earth , de 1979; Once in Europa , de 1983; e Lilac and Flag , de 1990), em que o autor documenta, num estilo literário que mistura ficção e não-ficção, a vida dos camponeses na pequena aldeia dos Alpes franceses para onde acabaria por mudar-se na década de 70 do século passado.

Berger assume-se aqui, mais do que em qualquer outra obra sua, como contador de histórias, e esta trilogia parece-se mais com uma colecção de histórias e contos de origem popular interligados entre si. É feito o retrato de um conjunto de personagens que pertence a um sector social praticamente extinto (os camponeses) ou personagens que têm as suas raízes no mundo rural (por vezes, na cidade resta-lhes apenas uma memória longínqua desse modo de vida). Estas personagens aparecem como actores e testemunhas de um mundo em mutação, onde o modo de vida do camponês, seguindo os seus costumes e tradições, desaparece rapidamente. A perda desses valores, associada à diáspora forçada em direcção aos grandes centros urbanos, tem levado ao apagamento dessa milenar relação com a “terra”, à quebra de laços com a tradição e a comunidade, conduzindo a uma progressiva perda de identidade.

Através de um conjunto de histórias, poemas e ensaios de autoria de John Berger e partindo também de outros materiais criados pela equipa do projecto, o primeiro espectáculo, intitulado As Três Vidas de Lucie Cabrol (que estreará em Novembro de 2010), fala do quotidiano de uma pequena comunidade rural nas montanhas, onde os camponeses, dedicados ao seu trabalho, vivem isolados do mundo exterior e temem um futuro ainda mais incerto baseado no progresso. O segundo espectáculo, Europa (estreia em Julho de 2011), aprofunda ainda mais a questão da modernização deste mundo rural. Uma colecção de histórias, mostra como o mundo rural retratado no primeiro romance da trilogia de John Berger tende a desenvolver-se e a modernizar-se, criando cada vez mais injustiças. A última produção, Tróia (estreia em Novembro de 2011), apresenta estas e outras personagens num local completamente diferente, a metrópole. Aí, os camponeses perdem-se num meio cujos costumes lhes são estranhos, explorados pelos patrões, lutando para manter/ encontrar a sua identidade e ansiando constantemente por um regresso à vida rural que abandonaram.

Aqui, os próprios lugares são mais do que meras paisagens lisas sobre as quais se projectam as personagens destas histórias. A cidade assume-se também como personagem, destituída de identidade própria, uma amálgama de outras cidades (Londres, Nova Iorque, Barcelona, Lisboa), também ela contaminada por esta força demolidora que apaga tudo (imagem acompanhada pelo som de uma estranha máquina de nome delicado, Liebherr ). Tomamos de empréstimo as palavras do humanista Giambattista Vico, quando este vaticinava que os homens “encerrar-se-ão nas cidades, verdadeiros desertos de almas, desconhecendo as pessoas e os lugares, e, no começo e recomeço da história cíclica do homem, regressarão à condição bestial da barbárie primitiva”.

Numa sociedade governada pelo capital, que valoriza o descartável, de maneira a gerar um contínuo desejo de consumo, exalta-se o novo em detrimento daquilo que se rotula como obsoleto. Dá-se prioridade à mercadoria, valoriza-se o mundo das coisas e, em proporção directa, tal como anunciava Marx, acaba por desvalorizar-se o mundo dos homens. Tudo o que é novo é mais interessante do que o antigo e o esquecimento transforma-se em algo socialmente aceite e generalizado.

Os próprios espaços urbanos são um reflexo desse conflito entre o novo e o velho, entre a tradição e a modernidade, entre a agricultura e a indústria. Bastará ter em conta, a título de exemplo, as inúmeras hortas que ocupam as rotundas ou as bermas das grandes auto-estradas. Essas mesmas auto-estradas que nos conduzem para longe das cidades e onde estão instalados painéis publicitários que apelam ao turismo rural ou à descoberta de sítios e monumentos históricos, “como se a alusão ao tempo e aos lugares antigos, hoje, não fosse senão uma maneira de dizer o espaço presente”, segundo Marc Augé. Numa ode ao imediatismo, às soluções rápidas e à novidade, numa clara atitude de constante ruptura com a tradição, a memória é desvalorizada e o passado é apagado pelo esquecimento.

Atravessa todo este nosso projecto a crença de que, na contemporaneidade, as palavras de indivíduos (as personagens/ os actores) que tentam contar as suas histórias e partilhar as suas experiências pessoais, seja através das vozes escolhidas pelo autor inglês seja pelas outras vozes pessoais e íntimas da equipa artística deste projecto, poderão constituir-se como uma poderosa alternativa às versões mediatizadas daquilo que possamos entender como realidade que, constantemente, reclamam para si uma certa legitimidade. Cada vez mais, a História é vista para além dos apertados limites da memória glorificadora dos governantes e dos seus actos políticos, contrariando a ideia de Thomas Carlyle de que “a História não é mais do que o conjunto das biografias de grandes homens”.

Embora possamos admitir que o teatro não produzirá grandes mudanças na sociedade, devemos, ao mesmo tempo, reconhecer o poder das artes performativas contemporâneas de desafiar as grandes narrativas e os discursos oficiais da História. Será a partir destes relatos pessoais e acontecimentos não glorificados pela história oficial, que se pretende agregar, à memória social, vozes muitas vezes dissonantes em relação à ordem vigente. Vozes que se encontram perdidas no meio destes “desertos”. Vozes que precisamos de ouvir com mais atenção. Se são vozes proféticas da desgraça, isso não sabemos. E, de qualquer modo, também não nos interessa encontrar as respostas definitivas. Pretendemos colocar questões e deixá-las expostas, como feridas abertas. Procuramos desestabilizar certezas e lugares-comuns, recordando e narrando, perpetuando memórias do passado, de modo a que possamos questionar ainda mais fortemente as problemáticas do presente.
 

 

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