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Pólis, Comunidade e Museus: (Re)clamar um Espaço Nosso
Lia Jorge

Um museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberto ao público, e que adquire, conserva, estuda, comunica e expõe testemunhos materiais do homem e do seu meio ambiente, tendo em vista o estudo, a educação e a fruição .
In International Council of Museums (ICOM)

Fala-se de Pólis.

O conceito é vasto, porém poder-se-ia dizer que tratamos aqui de cidade - enquanto espaço físico e urbano, é certo, mas também enquanto espaço humano. Pólis define sobretudo a comunidade dos cidadãos, aqueles que habitam a cidade, que a constroem diariamente através do seu trabalho, das suas relações interpessoais, do seu movimento. Pólis definirá também um conjunto de valores cívicos, de deveres e direitos, teoricamente partilhados por todos em comum acordo, e que permitem o funcionamento e desenvolvimento da comunidade.

Digo “teoricamente” porque vivemos tempos de dispersão. Nunca como hoje as cidades cresceram tanto, nunca receberam tanta gente de tantas origens diferentes, com distintos valores e objectivos. A cidade que está a renascer deste impulso é tremendamente diversa, e mais rica por isso. A Comunidade é hoje constituída por centenas ou milhares de pequenas comunidades.

O paradoxo reside neste ponto: a qualidade não parece acompanhar a quantidade. A comunicação entre as várias comunidades é ainda pouca ou mesmo nula. Começa a acontecer nas ruas da cidade, nas pequenas coisas, que são na realidade grandes: um reformado que aprende as primeiras frases em russo na paragem do autocarro, uma adolescente loira que enche o cabelo de tranças afro num salão do Martim Moniz.

Contactos e trocas superficiais: seriam necessários espaços mais largos e igualmente informais onde o encontro ou o confronto se pudesse dar. São raros esses palcos nas nossas cidades dispersas – a internet é um deles[1], e importante, mas creio que é preciso dar o próximo passo, o mais assustador, e encetar um contacto directo.

Nesse sentido, nenhum espaço me parece mais apropriado que o museu. Não o museu no seu carácter tradicional de depósito ou repositório de objectos, templo do saber académico, perceptível apenas a um grupo de iluminados e a eles reservado – mas o museu enquanto espaço público.

Os museus dispõem geralmente de condições (melhores ou piores) para esse efeito: um espaço físico que pode e deve funcionar como ponto de encontro; uma acervo material e imaterial que funciona como salvaguarda de um certo património das comunidades, permitindo a sua identificação e fortalecendo a sua coesão. Um acervo, quando bem pesquisado e interpretado, permite contar histórias através de exposições. Estas podem visar tanto o passado quanto o presente ou até mesmo o futuro da comunidade, e esta pode ser chamada a participar na sua construção e debate.

Um bom exemplo foi-nos dado pelo Museu da Luz, na Aldeia da Luz, no concelho de Mourão, distrito de Évora. A construção da barragem do Alqueva implicou, em 2002, a submersão de uma ampla área territorial, incluindo a da Aldeia da Luz. Após um longo debate com os habitantes, propôs-se a construção de uma nova aldeia, mimetizando dentro do possível a que seria submersa. Com a velha aldeia, contudo, desaparece-riam os principais marcos do seu património edificado – Igreja de Nossa Senhora da Luz, cemitério, praça de touros. Mais importante ainda, desapareceriam habitações, ruas, praças e espaços (o café Alicrau , o barbeiro, quintais e hortas, etc.) a que os luzenses se encontravam naturalmente muito ligados emocionalmente. Estes lugares, em volta dos quais todos nós estruturamos as nossas memórias, em torno dos quais construímos a nossa vida diária e (porque não?) a nossa identidade individual e comunitária estavam, agora em risco de ser apagados da face da terra. Mais, o desaparecimento destes espaços poderia produzir o próprio desmembramento da comunidade, perdida sem espaços comuns de referência, e a dispersão da sua cultura e identidade.

Uma das primeiras condições impostas pela comunidade no processo de decisão foi a de que a nova aldeia fosse dotada de um museu. Este deveria funcionar como um testemunho[2] da aldeia desaparecida, um repositório da sua memória material e imaterial. Deveria também servir como espaço de debate do processo de desaparecimento da velha Luz e ocupação da nova aldeia. Finalmente, poderia ser útil enquanto palco da (re)construção da identidade de uma comunidade desenraizada, e da representação do seu futuro.

A comunidade esteve envolvida desde o início na constituição do acervo do museu, composto sobretudo por objectos doados pelos moradores da Luz (alfaias agrícolas; ferramentas de trabalho; utensílios domésticos; etc). Para além desta participação inicial, o museu promove actividades nas quais os luzenses são chamados a integrar. Entre outras, realço as Conversas à Mesa da Memória, onde habitantes aldeia da Luz de idade mais avançada falam na primeira pessoa sobre as práticas e tradições locais (sendo os seus testemunhos filmados, integrando os vídeos produzidos um arquivo oral) ou as Férias no Museu, que oferecem um conjunto de actividades em que os jovens da aldeia podem ocupar os tempos livres no Verão.

É de notar que falamos de um museu numa localidade relativamente isolada e desertificada, assente numa população de cerca de 350 habitantes. Frise-se também que sempre que visitámos este museu, ele se encontrava cheio (diríamos melhor habitado) por visitantes de fora e de dentro da aldeia. Em muitos casos, era nítido que os luzenses utilizavam o museu e o seu espaço envolvente como ponto de encontro para uma amena cavaqueira entre amigos e que muitos abordavam os visitantes mostrando e explicando com orgulho o seu museu.

E seria este cenário possível numa grande cidade?

Poder-se-á (e correctamente) argumentar que, tal como referido acima, há nas novas grandes cidades uma maior dispersão de gentes e interesses. Os habitantes não se conhecem entre si como numa pequena aldeia, e os seus espaços, os seus valores e objectivos são bem mais diversificados.

Penso que é precisamente nestes contextos – e precisamente por essa maior desagregação – que os museus mais podem e devem intervir. Dou como exemplo o Cuming Museum[3], no sul de Londres, um pequeno museu local. O museu teve a sua origem numa colecção muito heterogénea (etnografia, arqueologia pintura, gravura, livros) constituída pelo vitoriano Henry Cuming e pela sua família. É de notar, porém, que o fio condutor do seu coleccionismo era o da representação material da localidade e comunidade de Southwark, onde se localiza ainda hoje o museu, e que era então uma pequena aldeia suburbana de Londres.

Southwark sofreu desde então grandes modificações, através de um enorme influxo de emigrantes provenientes primeiro das Caraíbas, e mais tarde do Kénia e Nigéria, bem como (e mais recentemente) do Paquistão, Turquia, Grécia, China e Tailândia. Hoje já pouco resta da pequena aldeia de carácter rural – Southwark é uma das freguesias mais populosas, urbanizadas e diversas da Grande Londres. Mas, é também uma das mais pobres, e onde se verificam maiores problemas de violência urbana e tensão racial.

Com pouquíssimos meios financeiros, um staff muito limitado e ocupando durante décadas uma pequena ala do edifício da autarquia, a equipa do Cuming Museum pegou numa colecção aparentemente inconciliável com qualquer discurso expositivo mais linear e iniciou um trabalho de intensa comunicação com a(s) comunidade(s) envolventes, de forma a saber que tipo de museu estas desejavam. Consultou escolas, cooperativas culturais, associações cívicas, congregações religiosas, comerciantes e habitantes. Chamou-as ao museu para analisarem objectos referentes às suas culturas de origem e aconselhou-se sobre como estes deviam ser expostos e interpretados – por vezes, até mesmo se deviam ser expostos. A cada exposição, estas eram chamados para participar na montagem das mesmas, para falar sobre as suas experiências ou participar nas actividades associadas. Estabeleceu protocolos com as universidades locais para que um fluxo constante de estagiários em museologia, arqueologia, antropologia e conservação e restauro trabalhassem nas colecções do museu, beneficiando todos os envolvidos. Finalmente, apercebendo-se de que a área em que se situa o museu é uma das mais vibrantes comunidades artísticas de Londres, contactou vários artistas para que participassem no design e marketing associados às exposições, em troca de espaço para divulgação do seu trabalho.

Assim, por exemplo, quando em 2005 o museu abriu a exposição Mana: Ornament and Adornement from the Pacific[4], foram consultados representantes locais da comunidade Maori da Nova Zelândia na identificação de objectos e materiais; desenvolvidas actividades para crianças com artistas locais; um grupo de dança neo-zelandês fez as honras de abertura do evento e um sacerdote/chefe local procedeu à autorização pública de exposição dos objectos, que são considerados sagrados e portanto sujeitos a várias restrições e prescrições rituais

Outra acção importante deste museu é a preocupação em representar todas as comunidades da Comunidade de Southwark, dando-lhes alternadamente voz e reconhecendo a sua contribuição para o desenvolvimento local. Foi o caso da exposição Keep Smiling Through: Black Londoners on The Home Front 1939 to 1945[5], inaugurada em 2008, que reflectia num assunto muito específico e pouco abordado: a participação da comunidade negra (incluindo a emigrada) na defesa do Reino Unido durante a 2ª Guerra Mundial. A importância desta exposição numa área com as características de Southwark é nítida, tanto mais que o projecto foi elaborado com a colaboração de membros da comunidade local e contou com vários testemunhos na primeira pessoa sobre o assunto. O museu e a sua exposição funcionaram aqui como ferramenta de integração de grupos que em muitas instâncias da vida diária são e se sentem excluídos dos seus direitos e, dentro desses direitos, do seu papel na história e sobrevivência da Comunidade.

Atendendo ao nosso considerável passado colonialista dispomos de extensas colecções recolhidas em vários países de África, Ásia e Oceânia, até mesmo da América do Sul, e contudo podemos perguntar-nos porque são tão raras este tipo de iniciativas em Portugal. As excepções resumem-se ao Museu Nacional de Etnologia[6] (que apresenta excelentes exposições e actividades, embora pouco divulgadas), à Sociedade de Geografia de Lisboa[7], à Academia de Ciências de Lisboa[8], e poucas mais.

Na maioria dos casos, estes acervos têm pouca visibilidade e talvez por isso pouco investimento. Há uma clara prioridade – que revela talvez uma parcialidade cultural – no tratamento das colecções de pintura, escultura e artes decorativas. No entanto, parece-nos que as colecções etnográficas e de história local têm uma potencialidade muito maior em termos comunitários e que é actualmente pouco explorada. Se tivermos em conta, por exemplo, as extensas comunidades Angolana, Cabo-Verdiana e Guineense presentes no nosso país (e sobretudo em Lisboa), e se pensarmos que elas fazem em maior ou menor número parte do tecido da cidade nos últimos quinhentos anos (em finais do século XVI 10% da população de Lisboa era constituída por negros e pardos ) não faz sentido que esses grupos sejam tão pouco representados e que tenham tão pouco acesso ao seu património cultural. Mais do que isso, não faz sentido que continuemos a ignorar uma parte essencial da nossa história e património colectivos. Há que assumir o passado sob todos os seus prismas, e construir um novo presente e futuro através da comunicação, chamando todos - incluindo comunidades tradicionalmente excluídas dos espaços de cultura, como a Africana e Afro-descendentes - para em conjunto trabalharmos os acervos, contarmos as suas histórias e debatermos a situação e papéis actuais destes grupos na nossa sociedade. O mesmo se deverá aplicar a outras comunidades, como a Asiática, a Brasileira, a da Europa de Leste, a Cigana, etc.

(Re)clamemos, portanto, os museus como espaços públicos, que o são. A sociedade civil deve consciencializar-se de que dispõe destes espaços, que eles lhe pertencem e que estes devem ser utilizados. Os museus, por seu lado, devem abrir-se mais e mais à sociedade que os envolve e apostar na proximidade, que lhes permitirá suprir a falta de apoios, meios e públicos de que tantas vezes se ouvem as queixas. Seja-se criativo com o que existe, publicite-se os eventos através da internet (redes sociais e blogs incluídos), crie-se redes de amigos de museus, de voluntários. Acima de tudo, ouçamo-
-nos mais, para que os museus estejam mais próximos das aspirações das pessoas, e para que para além de meros expositores, sejam espaços de debate cívico, de integração, de combate ao isolamento social e de construção e consolidação de identidade(s). Espaços nossos. Espaços de pólis.

 

[1] Sítio do grupo de divulgação de cultura africana
contemporânea BUALA: http://www.buala.org/

[2] Sítio do Museu da Luz:
http://www.museudaluz.org.pt/

[3] Sítio do Cuming Museum:
http://www.southwark.gov.uk/cumingmuseum

[4] Mais informação sobre a exposição
Mana: Ornament and Adornment from the Pacific
: link

[5] Mais informação sobre a exposição Keep Smiling Through:
Black Londoners on The Home Front 1939 to 1945:
link

[6] Blog do Museu Nacional de Etnologia:
http://mnetnologia.blogspot.com/

[7] Sítio da Sociedade de Geografia de Lisboa:
http://www.socgeografialisboa.pt/

[8] Sítio da Academia das Ciências de Lisboa:
http://www.acad-ciencias.pt/

 

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