Sociedade e Mundo

#A Pólis que somos
Pedro Cordeiro

A Mnemónica Colectiva
Vítor Miguel de Freitas

Ciências Sociais

# Comunidades Virtuais na Internet:
O canal #Angola no IRC da PT-Net

André Correia

Processamento da Linguagem Natural
João Ricardo Silva

Arquitectura e Design

A Cidade do Rio de Janeiro
Rita Braga Alves

NewKarma
Nuno Campos

Arte e Entretenimento

#Pólis, Comunidade e Museus:
(Re)clamar um Espaço Nosso

Lia Jorge

Desertos de Almas
Pedro Alves

Espaço Criação

#Manifesto A
Anónimo

Mindscapes
João Leal Lamy


Comunidades Virtuais na Internet:
O canal #Angola no IRC da PT-Net
André Correia

Numa edição da revista Projecto10 dedicada ao tema da Polis, importa questionar em que medida a inteligência colectiva das comunidades virtuais da Web participativa não se converteu numa Ágora da pós-modernidade, e veio alterar o significado e configuração do espaço urbano e identidade cultural das comunidades.

Considerar a Internet como uma realidade virtual e alienígena, marginalizada do espaço físico e social parece-me, neste sentido, uma ideia datada.

A dicotomia da fronteira on-line e off-line tende a ser cada vez mais ténue e funde ou confunde dois lugares que acabam por interagir. Com efeito, a realidade à frente do ecrã, de que fala a psiquiatra Sherry Turkle (TURKLE, 1994), tornou-se uma prática social quotidiana do indivíduo onde a construção social de significados e símbolos partilhados por grupos e comunidades vêm redefinir os seus modos de pensar, sentir e agir. É, hoje, consensual considerar que surgiram novas formas de literacia digital que modificaram o meio de comunicar a mensagem. E se o meio é, de facto, a mensagem, como afirmou Marshall McLuhan, não é de todo erróneo considerar que a Internet se está a converter no meio de comunicação privilegiado de afirmação da identidade do indivíduo e das suas comunidades de pertença.

Do ponto de vista institucional e político, iniciativas de e-government desempenham um papel fundamental no estabelecimento formal da identidade local e representação do espaço urbano através de conteúdos e serviços de apoio ao cidadão.

É, no entanto, com a emergência espontânea e informal de comunidades virtuais que o indivíduo afirma a sua identidade e cultura num novo território. As comunidades imaginadas, conceito de Benedict Anderson (ANDERSON, 1983), representam uma invenção cultural de símbolos partilhados por indivíduos que comungam de um mesmo espaço mental. O território das comunidades deixou de ser o lugar antropológico de uma população homogénea confinada a uma fronteira física e estável para passar a ser um lugar simbólico, virtual.

No presente artigo, é apresentado um estudo de caso, o canal #Angola do IRC da PT--Net . O estudo sobre a comunidade virtual do canal #Angola resulta da elaboração de um seminário de investigação de Antropologia apresentado em 2004. Tinha por principal objectivo entender de que modo um indivíduo ou um grupo formam uma comunidade virtual e manifestam uma etnicidade no contexto da comunicação mediada por computador.

O convite on-line de MalconX e o encontro com a comunidade virtual do canal #Angola no deck do Vasco da Gama

O primeiro contacto com a comunidade virtual do canal #Angola aconteceu, em Agosto de 2003, quando falei com MalconX, um angolano de vinte e cinco anos de idade que viria mais tarde a entrevistar.

MalconX era um dos operadores que frequentava há mais tempo o canal. Viveu até aos dezasseis anos de idade em Angola onde nasceu e a ligação com a terra natal é para ele uma necessidade vital. Tem vontade de voltar para Angola todos os dias, e no canal #Angola sente-se em família, como se estivesse de alguma forma em casa.

Depois de uma conversa sobre o intuito da minha pesquisa, MalconX disse-me que alguns elementos do canal se iriam encontrar no Centro Comercial Vasco da Gama. Sugeriu que por lá aparecesse para conhecer os membros da comunidade. Deu-me o número de telemóvel, e combinámos às três da tarde. Eram três e um quarto, corri pelas escadas rolantes até às bilheteiras do cinema e nada. Não estava lá ninguém. Esperei mais um pouco e fui tirar fotocópias do questionário ao piso de baixo, na esperança de quando voltasse lá estivesse o MalconX. Instantes depois de tomar café, vejo um rapaz negro a sair das escadas rolantes. Trazia umas calças e casaco de ganga, ténis desportivos e uma t-shirt que, reparei depois, dizia “canal #Angola”. Fui ter com ele, e apresentei-me. MalconX revelou-me, finalmente, o seu nome de bilhete de identidade. Conversámos um pouco sobre o canal e banalidades, enquanto esperávamos pelos restantes membros que acabariam por aparecer.

A comunidade começou, finalmente e aos meus olhos, a migrar do on-line para off-line . À medida que chegavam, identificava-me e explicava a razão da minha presença. Verifiquei que alguns dos membros do canal presentes ainda não se conheciam fora do canal, e que era a primeira vez que se encontravam off-line . O nickname era, naquela situação de reconhecimento, um passaporte para o mundo real, e evocava as relações virtuais que haviam sido mantidas no canal. Outros membros do canal não tinham tido qualquer tipo de contacto, e estavam lá porque esta ou aquela pessoa conhecia um membro do canal. O encontro servia, no fundo, para que as pessoas privassem fora do canal e que, à semelhança de tantos outros grupos, se encontrassem num espaço de lazer e consumo. As apresentações estavam feitas e pensei no meu papel no meio de um grupo de jovens que pretendiam gozar uma tarde, provavelmente sem a presença de um intruso que, a determinada altura, lhes iria impingir um questionário. Teria que ser oportuno, até porque a mobilidade da comunidade já tinha começado e o grupo fragmentava-se por entre as lojas do centro comercial. Falei com MalconX, que concordou em que eu fizesse os questionários antes de o grupo ir à sua vida. E assim, aconteceu. Num banco do centro comercial, conseguiria entrevistar seis dos membros do canal #Angola. Começou a intromissão, as perguntas pessoais sobre a idade, nacionalidade, naturalidade, país de origem dos pais, que por vezes originavam silêncios incómodos quando a pessoa demorava tempo a responder ou não parecia à vontade. Aconteceu, também, um episódio em que as supostas etnicidades do investigador e dos informantes estiveram em jogo. Depois de terem respondido ao questionário, alguns membros do canal conversavam entre si, e perguntaram-me depois porque razão lhes tinha feito questões sobre a nacionalidade e naturalidade. Um deles conseguiu mesmo associar as minhas características fenotípicas com as de um taliban.

Realizados os questionários, estava na altura de agradecer o tempo e a atenção dispendidos e deixá-los livres de olhares e juízos. Conversei ainda um pouco com MalconX que se mostrou disponível para o que fosse preciso para a elaboração do meu trabalho e me convidou para outras ocasiões em que o grupo se encontrasse. Despedi-me do grupo e caminhei pelo deck do centro comercial a pensar na simbólica do espaço. Angolanos, africanos e portugueses de 1ª ou 2ª geração num centro comercial em forma de nave que lembrava uma figura histórica do “império colonial, pluricontinental e pluriracial” que deu mundos ao mundo. A nau pós-moderna de Vasco do Gama servia agora de ponto de encontro dos nativos do canal #Angola que procuravam viver e imaginar uma comunidade virtual com elementos de uma etnicidade simbólica.

As relações sociais do canal #Angola

À frente do computador e num programa de chat , tem-se de facto a sensação que estamos próximos da pessoa que está do outro lado. Conseguimos, como refere Howard Rheingold, fazer tudo o que as pessoas fazem na vida real, pondo apenas o nosso corpo de parte (RHEINGOLD, 1993). É uma cultura de simulação que nos dá, por vezes, a ilusão que estamos a ter relações de vizinhança face-to-face .

Os membros da comunidade virtual do canal #Angola representam, neste sentido, o caso de um grupo de pessoas que, segundo a definição de comunidade imaginada de Anderson, conseguiu construir uma imagem simbólica de comunhão nas suas mentes (ANDERSON, 1983). Existe, de facto, e como podemos ver pelas respostas dos entrevistados, a ideia de que o canal formou uma rede de relações sociais primárias muito fortes. Na sua entrevista, MalconX diz o seguinte sobre a sua ideia de comunidade no canal:

“Antes era mais para navegar na net. Depois de conhecer melhor as pessoas, uns ficaram como grandes amigos, outros como conhecidos. Criou-se ali uma família on-line.”

O termo família identifica, assim, um grupo de pessoas que se reuniram em torno de objectivos comuns, e que partilham um conjunto de experiências em contextos on-line e off-line . MalconX, como indivíduo natural de Angola, tende no entanto a acentuar a ideia de que o país, a cultura e identidades angolanas são o ponto de contacto entre os membros do canal:

“É assim, eu acho que a maioria que frequenta o canal Angola, muitos sentem-se bastante angolanos embora não tenham nascido lá… e outros é por curiosidade, por se sentirem à vontade com as pessoas que lá estão, conviverem com pessoas angolanas, ou talvez por terem ligações próximas.”

Sp0rts, como todos os outros entrevistados, também transmitiu a ideia de que o contacto diário com os membros da comunidade do canal #Angola fez com que encarasse o grupo como uma família:

“Sim, há pessoas que estão ali todos os dias, e isso é que faz aquela sensação de família, ‘tás a ver? Estão ali todos os dias, às vezes não são do mesmo bairro, mas falam todos os dias, ao fim-de-semana encontram-se na noite.”

A opinião de Sp0rts parece querer dizer que, mesmo não sendo do mesmo bairro, a comunidade formou um bairro on-line com uma família virtual.

Pensar apenas no espaço geral dos membros do canal, ignorando o espaço privado seria, contudo, esquecer um tipo de relação privilegiado pelos membros do canal. Importa, neste sentido, fazer a distinção entre o espaço geral e o espaço privado que determina o tipo de relações existentes no canal. Se, por um lado, o espaço geral traduz o clima do grupo, a sua face visível em determinado momento, é todavia no espaço privado que mergulhamos abaixo da ponta do icebergue da comunicação mediada por computador e passamos a conhecer melhor as relações que os membros da comunidade privilegiam.

A comunicação mediada por computador veio, em certa medida, transpor as relações de vizinhança de face-to-face para o espaço virtual. O canal #Angola não foge à regra, e vive muito do seu espaço privado em que dois indivíduos aprofundam a sua relação virtual. Podemos, assim, considerar que no espaço geral do canal #Angola encontramos as conversas lideradas pelos habitués que são, em regra, operadores e utilizadores com voice . No espaço privado, estão os membros do canal que estão a interagir com outra pessoa. E aí, a intimidade virtual acaba por vezes numa relação amorosa que se transfere depois por vezes para o off-line .

No canal #Angola as relações amorosas são, como em todo o lado, o que dá vida às pessoas da comunidade e faz com que os membros permaneçam no canal. Embora a etnicidade esteja como pano de fundo, associada a um identidade estética fundada em elementos culturais como a música africana e as origens culturais das etnicidades dos membros do canal, o romance continua a ser a essência que gere as relações do grupo. PRETOFOFO é exemplo disso. Quando lhe perguntei se já conhecia as pessoas off-line antes de privar com elas on-line:

“N'cre Bu Amor pa iternidadi says:
nada

N'cre Bu Amor pa iternidadi says:
primeiro foi virtual

N'cre Bu Amor pa iternidadi says:
até pk eu ja namoro a 2 anos

N'cre Bu Amor pa iternidadi says:
e conheci a minha namorada na net

N'cre Bu Amor pa iternidadi says:
heheheh “

A intensidade das relações on-line é descrita por PRETOFOFO de uma forma bastante sincera e emotiva.

“N'cre Bu Amor pa iternidadi says:
no canal é como que se fosse

N'cre Bu Amor pa iternidadi says:
conviver com pessoas nao no mundo virtual

N'cre Bu Amor pa iternidadi says:
mas ja real

N'cre Bu Amor pa iternidadi says:
visto que ja sao amizades

N'cre Bu Amor pa iternidadi says:
tao fortes que por vezes emociono


N'cre Bu Amor pa iternidadi says:
xoro

N'cre Bu Amor pa iternidadi says:
e tb dou aquelas gargalhadas “

MalconX, ao referir-se às relações amorosas virtuais, realça a importância da passagem do on-line para o off-line que nem sempre tem as mesmas consequências:

“Quando estamos em privado, cada um passa uma imagem, falamos com uma amiga, com uma rapariga, falamos com essa pessoa para transmitir uma imagem para ela vir à realidade. Só que pronto, muitas vezes quando há encontros, as pessoas reagem bem, a amizade continua, outras vezes não reagem bem, quando voltam a estar on-line a conversa já não é a mesma. Se estavam on-line duas horas, agora passam a estar dez minutos porque já se conhecem e já não interessa.”

Sp0rts opina da mesma forma que MalconX sobre a dicotomia on-line off-line das relações virtuais que pode entrar em conflito quando se trata de relações amorosas:

“E até já vi pessoas que falam anos, encontram-se e estão caladas, voltam a encontrar-se na net e falam do encontro e tal e demora mais tempo a crescer aquela relação pessoal fora da net.”

A fronteira das relações on-line e off-line , que é no fundo o mecanismo que rege a organização da comunidade, vai para além das questões do coração. Num dos tópicos da entrevista, perguntou-se aos entrevistados se tinham conhecido as pessoas do canal antes de privarem on-line. Foi, neste sentido, curioso verificar que o canal #Angola foi uma forma dos seus membros estabelecerem relações sociais que, tal como na vida real, deram origem a relações superficiais e a amizades duradouras que transitaram para a vida off-line . Sp0rts é bastante claro relativamente a essa questão:

“A maioria. Sim, a maioria das pessoas com quem falo, conheço pessoalmente. Conheci pelo canal a maioria delas, mas agora já não tenho muita paciência para conhecer pessoas novas, se vêm ter comigo não tenho grande vontade de conhecer pessoas novas.”

“E pronto, comecei por frequentar esse canal, tenho amigos que conheci aí, com quem ainda costumo estar hoje, e tenho por exemplo um amigo com quem estive ontem que eu conheci basicamente no canal e é dos meus melhores amigos. Estive a morar com ele três anos em Inglaterra, fizemos o curso juntos e conheci-o pela net. Se não fosse a Internet nunca o teria conhecido. Também foi por causa da música, mas foi no canal #Angola e por sermos angolanos embora hoje não nos lembremos que foi pelo canal que nos conhecemos.”

Ao conhecer um dos melhores amigos com quem, naturalmente, privou depois na vida real, Sp0rts dá também a entender que, mesmo que o ponto de partida da amizade tenha sido o canal, a vida real conseguiu apagar a memória on-line do início da relação entre os dois amigos.

BlackPhantere ao referir-se sobre a proximidade on-line e off-line refere o seguinte:

“Depende, primeiro a proximidade ganha-se on-line e depois vamos transportar isso para o off-line.”

Sobre as relações virtuais do canal, BlackPanthere opõe-se à ideia de que a vida do canal esteja sobretudo centrada nas relações de intimidade do espaço privado, e realça a importância do espaço geral para o espírito colectivo do grupo.

“Achas que o canal vive mais das conversas do espaço geral ou do privado?”

“No geral. É mais no geral que nos conhecemos, porque no geral podemos participar todos, no privado só algumas pessoas.”

A transposição do on-line para o off-line é uma constante nas comunidades virtuais como o caso do canal #Angola e é importante não olhar para os dois mundos como realidades estanques. No canal #Angola o on-line e o off-line sobrepõem-se, embora o espaço on-line seja o território de partida que junta a comunidade para pensar e construir diariamente a comunidade imaginada.

Para finalizar convém esclarecer que o interesse pelo estudo do canal #Angola resulta dos membros desta comunidade serem em grande parte indivíduos a residir em Portugal, na sua maioria na área metropolitana de Lisboa, mas que partilham etnicidades deslocadas do seu território de origem. O canal #Angola do IRC afigurou-se, assim, como o lugar mental onde os seus membros vivem a nostalgia da etnicidade. Lá encontramos indivíduos de nacionalidade angolana, imigrantes de segunda geração, portugueses de origem cabo-verdiana, moçambicana, são-tomense ou indivíduos de nacionalidade portuguesa. À semelhança de outros canais do IRC , o canal #Angola não foge à regra e vive das conversas que originam amizades, relações amorosas, troca de informação como ficheiros de música africana ou ficheiros de imagem. A diferença do ponto de vista identitário reside no facto de o canal ter como pano de fundo um conjunto de etnicidades instrumentalizadas. Ao nível da dicotomia da fronteira online e offline foi interessante verificar com o trabalho de campo que os membros viviam a comunidade em simultâneo nos dois mundos. O canal não constituía uma unidade isolada em sim mesma, mas servia sim de ponto de partida para a organização de jantares, festas em contexto urbano. Foi, igualmente, interessante registar que os membros frequentavam outros canais como o canal #Cabo-verde, canal #Kizomba ou canal #Africa. Podemos, embora o canal #Angola fosse o mais participado, falar numa malha de comunidades virtuais que formam uma panidentidade.

Na altura em que o estudo foi redigido, o canal ainda era povoado por um número considerável de membros que lhe davam vida. Contudo, o MSN Messenger começava a tornar-se o principal modo de comunicação síncrona de instant messaging e a comunidade viria progressivamente a ser abandonada. Actualmente, seria interessante dar continuidade ao estudo e recolher dados com a finalidade de determinar qual a expressão identitária dos membros do canal em redes sociais que dominam a Internet como o Hi5 , Facebook ou Twitter.

Referências Bibliográficas

ANDERSON, B., Immagined Communities: reflections on the
origin and spread of nationalism
, London, Verso, 1983

CASTELLS, M., A Galáxia Internet, Reflexões sobre
a Internet, Negócios e Sociedade
,
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian (2001).

COHEN, A., The symbolic construction of community,
New York, Tavistock, 1985

CONTADOR, A. C., Cultura Juvenil Negra em Portugal,
Oeiras , Celta Editora, 2001

LÉVY, P., A Inteligência Colectiva, Para uma Antropologia
do Ciberespaço
, Lisboa, Colecção Epistemologia e
Sociedade, Edições Instituto Piaget, 1994

RHEINGOLD, H., The Virtual Community,
http://www.rheingold.com/vc/book/ (consultado, Maio 2010)

TURKLE, S., Life on The Screen, Identity in the Age of the
Internet,
NewYork, Touchstone Book, 1994

 

Share |


© PROJECTO10 - 2010 . PROJECTO10 - Revista Digital Temática - 10 Números 10 Temas.