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“To feel much for others and little for ourselves; to restrain our selfishness and exercise our benevolent
affection; constitute the perfection of human nature.”

Adam Smith
[1]

O ser humano procura sempre um sentido para a sua existência, seja numa rejeição do seu próprio eu, quer vivendo numa capa do que deve ser. Somos o produto de uma sociedade que molda as nossas expectativas, os nossos sonhos. A própria sociedade rejeita os princípios básicos do ser. A robotização do ser não é uma visão futurista, é algo presente. A linha de montagem começou com a recusa da nossa essência natural. Mas na nossa procura pelo conforto, esquecemo-nos do que é viver! Numa perspectiva do mundo natural, as situações de stress também são comuns.

Do ponto de vista ético, são postos em causa todos os pressupostos da génese do bom selvagem de Rosseau. Moral e ética também são construções de uma modernidade, numa tentativa de apaziguar o Homem. O que move o Homem que sabe que perdeu tudo? Resta aguentar o sofrimento na esperança de algo melhor surgir.

“(…)Portanto, será inevitável perguntar: para que serve deixar o Estado de natureza para escapar à miséria em que nos lança as nossas lutas e as nossas paixões, se é para viver num Estado que esbanja todos os seus recursos na preparação das guerras, nas próprias guerras e nas reparações subsequentes, que subordinam inevitalmente a justiça interior dos indivíduos aos imperativos militares? Ara que serve escapar às lutas dos indivíduos para, depois, ser triturado nas lutas mais devastadoras ainda entre as nações e tornar-se prisioneiro de novas penas que o Estado impõe ao seu povo, mesmo em tempo de paz, a fim de adquirir de uma maneira ou outra, mais poder que os seus vizinhos?(…)” Kant[2]

Sobre o gelo de Estalinegrado, russos e alemães, soldados e civis, mulheres e homens, velhos e crianças, viveram e morreram nesse princípio. No fim houve uma reconstrução física e mental, bem como castigos e louvores, homens que aguardavam o fim e viram o prolongar do sofrimento, os verdugos tornaram-se castigados, os presos viraram carrascos, as lágrimas converteram-se em sangue e o sangue tornou-se em lágrimas, pois o sofrimento esteve presente e sempre estará no coração e alma daqueles que viveram e pereceram nos sonhos de “um outro”.

O sofrimento do ser humano tem uma multiplicidade de origens. Escondemo-nos dentro da multidão, procurando a segurança de sermos absorvidos pela memória colectiva .

Durante os conflitos, a alteração do eu surge ligada à mudança dos paradigmas éticos. Esta desculpabilização serve para manter a aparência social. Existe um sistema de permissão quanto aos tabus comuns da vida em sociedade, o homicídio e o roubo como delito social, transformando-se semanticamente na guerra, na morte por legítima defesa e no saque . O sistema hierárquico militar está construído de forma a diluir o sentimento de culpa, a inocência está garantida pela formatação do eu pelo nós , no um pelo todo. Tal como emergidos numa multidão, o crime fica sem rosto. Existe esta capacidade hierárquica de justificação do uso da violência necessária, o bem comum é utilizado para a expansão do ideal de uns poucos. A política funciona nesta duplicidade de mensagens. Aquela que o povo espera e a mensagem interna dos grupos dirigentes, quer a nível político, quer a nível militar, estando assim garantida a tolerância do eticamente reprovável. Na criação de qualquer Estado, o sistema militar apresenta-se como um dos princípios basilares para a sua sobrevivência. Historicamente líderes viveram sem instituições públicas, numa primeira fase, mas nunca sem o apoio de uma estrutura militarizada. No próprio ideal romano republicano, é delimitada a fronteira entre estes dois poderes: o público e o militar, com a proibição da travessia do rio Rubicão, qual analogia de delimitação da fronteira entre o espaço civil e militar.

“Vis pacem para bellum”[3]

O poder público esteve então sempre consciente dos crimes do exercício da força. Na antiguidade clássica, a derrota está ligada à destruição global da sociedade vencida. Cartago esteve consciente do seu fim, pois quanto mais encarnecida a resistência às forças externas, maior é o grau de violência final. Daí a normalidade da destruição total.

Sobre as ruínas, o novo Estado estabelece os parâmetros da nova sociedade, a dor e a humilhação servem para envergonhar o que os outros foram e legitimar o novo poder. A guerra e a violência não são mais que uma gestão emocional e uma procura do controlo interior de uma comunidade. Daquilo que são e daquilo que deverão ser.

Ambicionamos viver na solidão e ao mesmo tempo envoltos na turba. Sempre no limes entre objectivos pessoais e os propósitos colectivos da comunidade. Divagamos, pois, pelos nossos sentidos, deixamo-nos absorver pelo poder mental dos outros, embarcando na sua ascensão e crimes. Somos cúmplices do extinguir de normas culturais dos outros em benefício de nós próprios. A violência na guerra não é mais que esse caminho facilitado pelo eu imobilizado, permitindo toda essa transfiguração social. No fim, resta pouco mais do que a despersonalização do eu , pois o ser humano nunca esquece, sendo a memória a nossa maior e pesada herança.

Notas introduzidas pelo editor com o conhecimento do autor.

[1] Tony Judt cit. Adam Smith - Judt, Tony (2010) Ill Fares the Land,
Penguin Press pp.63

[2] Kant (1999) Ideia de uma História Universal do ponto de vista Cosmopolítico, Didáctica Editora pp.102

[3] [tradução livre do autor] “Se queres a Paz, prepara a Guerra.”

 

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