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A Pólis que somos
Pedro Cordeiro

É pela pólis que a cidade se distingue do Estado. E que o indivíduo se torna protagonista da coisa pública e agente da sua governação. Conceito que cresceu na velha Grécia, mais velho que a cristandade, é da pólis que vem a política, a cidade, os cidadãos, a cidadania, o que é civil e o que é cívico. A comunidade, mais do que o espaço físico. As pessoas, mais do que as estruturas de poder e dinheiro. Aquilo que somos, mais do que aquilo que temos.

Na pólis nasce, também, a ideia de os seres humanos serem iguais em direitos e condições. No início não passava disso mesmo, de uma ideia longe da concretização, porquanto havia classes para todos os gostos com enorme diferença de direitos cívicos e políticos. As mulheres não faziam parte da anedota, tão-pouco os que viessem de fora, ditos metecos, para já não falar dos escravos. E se é certeira a reiterada observação de que os antigos gregos se faziam chamar atenienses, espartanos ou outra variante, em vez de dizerem que eram daqui ou dacolá – frisando dessa forma a prioridade que davam à comunidade sobre a cidade propriamente dita –, não é menos verdade que já então um tal de Sócrates sentiu necessidade de afirmar que não era “ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo”. Quantos assim se qualificam hoje julgando, talvez, tratar-se de uma originalidade? Quantos, pelo contrário, reforçam o apego a fronteiras, quando não a bairrismos?

Três mil anos passaram desde que o conceito apareceu no nosso mundo. Creio que vivemos melhor, por mais que haja a aperfeiçoar. Fará sentido pensar nas nossas cidades como na pólis original? Não faltam pontos em comum, cidadãos, ágoras, acrópoles e areópagos. Já não os identificamos por frontões, colunatas e cariátides – que os há! –, mas estão mais presentes do que nunca e assumem os mais diversos formatos. Entram-nos pela casa adentro ou exortam-nos a entrar, via TV e Internet, sem precisarmos de subir ao monte que domina a cidade ou de descer às praças. Não quer isto dizer que deixemos de fazê-lo; uns e outras aí estão, e ainda bem, convidando a desfrutá-las nas horas livres ou a percorrê-las à pressa num quotidiano acelerado.

Um amigo que foi autarca numa cidade dizia-me sempre, por sinal, que aquele era o nível da administração que mais se prestava a que um político fizesse coisas para melhorar de forma palpável a vida dos seus concidadãos. Será, se o titular andar no terreno, palmilhar de lés a lés as ruas da urbe, reparar nos pormenores que podem, de facto, melhorá-la e tornar mais doce e justo o dia-a-dia dos que nela habitam. E mais se souber ouvi-los, não só quando (raras vezes e é pena, mas já lá vamos) tomam a iniciativa de se pronunciar, quase sempre em protesto ou exigência, mas tendo a coragem de lhes pedir uma posição, uma opinião, uma atitude. Responsabilizando-os, enfim, que de outro modo a coisa pública deixa de o ser.

Se deixar de o ser ou se a tal tender, a culpa não deve ser assacada apenas aos que estão lá em cima e se desligam do que é lhano. Que é como quem diz que a qualidade de cidadão não dá só direitos, impõe deveres e responsabilidades. A pólis , pese embora ter dirigentes democraticamente eleitos, ou por esse mesmo motivo, é de todos e a todos compete cuidar dela. A tentação de mais não cumprir do que o ritual de ir às urnas cada x anos (e mesmo esse…) e reclamar do incumprimento das promessas em conversa de café ou nos táxis devia dar lugar a uma maior iniciativa. Esta pode passar pelo envolvimento em organizações, não necessariamente partidárias, ou pela participação em movimentos mais efémeros, suscitados por uma causa concreta. Mas pode também alcançar-se, para quem é menos atreito a tais ativismos, com uma cidadania atenta e enérgica.

Sem grande currículo na matéria, tenho – e iniciei-a tarde, devo dizer – uma grata experiência com cartas a vereadores ou juntas de freguesia, para dar conta de pequenas irritações (um buraco numa rua, um candeeiro fundido há demasiado tempo, um abate de árvores que me parece inexplicável), algumas das quais deixam de o ser quando resolvidas ou esclarecidas por quem de direito. Se a governação local é mais tangível, os níveis mais abrangentes não são por isso menos importantes. A ideia de que todos os poderosos são necessariamente aldrabões ou incompetentes é, a meu ver, fácil de comprar (e muitas vezes difícil de contrariar), mas só favorece a cobiça dos primeiros e a permanência dos segundos. Em nada ajuda a pólis e os que a formamos.

A primeira vez que a palavra Pólis me surgiu à frente terá sido nas revistas de banda desenhada da Disney. Patópolis era a cidade onde se passavam as histórias aos quadradinhos que devorávamos, com a caixa-forte do Tio Patinhas no local cimeiro. Só depois viria a desde então omnipresente política e muito depois o politicamente correcto , de que não sou especial fã. A maior lição sobre o conceito, porém, deu-ma uma obra que poucos conhecem: Megalopolis , duplo álbum em vinil do malogrado Herbert Pagani, que em 1972 cantou, cheio de ironia, uns Estados da Europa Unida governados por um PDG (sigla francesa para CEO) que chama aos eleitores “consumidores” e quer fazer da Lua uma lixeira.

Movemo-nos num mundo cheio de pólis e pólos. Há uma cidade Pólis na ilha de Chipre e dezenas de outras que retêm o termo como sufixo. De Nápoles a Indianápolis, de Trípoli a Sebastopol, de Florianópolis a Constantinopla, aí estão combinações de três a cinco letras a tornar ilegítimo o esquecimento deste pilar da nossa civilização. A pólis somos nós e o que dela fizermos. Sejamo-la, pois.
 

 

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