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O princípio combinatório é, na verdade, a base linguística da criação poética.
Herberto Helder

Em 1963, Herberto Helder compõe «A Máquina de Emaranhar Paisagens», texto de grande complexidade poética e cuja construção/montagem se baseia numa série de citações, a saber: uma passagem do Génesis, outra do Apocalipse, uma citação de François Villon, outra de Dante e ainda outra de Camões. Por fim, Herberto Helder integra uma citação de sua autoria perfazendo assim o total de seis citações que são, digamos, os seus materiais, as diversas tintas feitas com palavras através das quais comporá essa paisagem-tela que se vai movimentando, metamorfoseando, à medida que o tempo avança, isto é, o processo de escrita e, consequentemente, o processo de leitura.

No posfácio do seu livro Electronicolírica[1] (Helder, 1964, p. 49), o autor refere uma experiência feita em Milão, por Nanni Balestrini, no ano de 1961. Esta experiência consistiu na escolha de fragmentos de textos antigos e modernos que foram fornecidos a uma calculadora electrónica, e, segundo certas regras combinatórias previamente estabelecidas, a calculadora organizou 3002 combinações que depois foram seleccionadas.

Herberto Helder baseia a composição de «A Máquina de Emaranhar Paisagens» no princípio combinatório geral implícito nesta experiência, muito embora não tenha recorrido a qualquer tipo de máquina (calculadora e/ou computador), tanto quanto se sabe, para a elaboração deste texto.

Diz-nos ainda Helder, no já citado posfácio, que “assim, utilizando um limitado número de expressões e palavras mestras, [Nanni Balestrini] promoveu a sua transferência ao longo de cada poema, sem no entanto se cingir a qualquer regra. Sempre que lhe apeteceu, recusou os núcleos vocabulares iniciais e introduziu outros novos, que passavam a combinar-se com os primeiros ou simplesmente entre si” (Helder, 1964, p. 49). É de lembrar que Herberto Helder privilegia na sua poesia a liberdade poética ( liberdade, liberdades[2]) e muitos são os críticos e estudiosos que a apelidam de «poesia alquímica» ou «alquimia da linguagem» – processo de transformação constante com o intuito de criar o ouro a partir do chumbo. Aqui, este processo alquímico parte de algo incompleto (fragmentos de outros textos) que o autor-alquimista, servindo-se dessa liberdade, mistura e combina procurando dessa forma atingir a perfeição – perfeição essa nunca alcançada uma vez que a sua própria obra encontra-se, também ela, em permanente mutação.

Assim, baseando-se na experiência de Balestrini, «A Máquina de Emaranhar Paisagens» é igualmente composta por um “restrito número de palavras” (Helder, 1964, p. 49), neste caso, citações. Desta forma, “as composições assemelham-se a certos textos mágicos primitivos, a certa poesia popular, a certo lirismo medieval” (Helder, 1964, p. 49).

Helder aplica, de facto, e “de forma obsessiva os mesmos vocábulos gerando assim uma linguagem encantatória, espécie de ritual mágico, de que o refrão popular é um vestígio e de que é vestígio também o paralelismo medieval, exemplificável com as cantigas dos Cancioneiros” (Helder, 1964, p. 49). É de notar que «A Máquina de Emaranhar Paisagens» foi construída, não só usando um processo combinatório de palavras, fragmentos (antigos e modernos) mas recorrendo a este paralelismo de que fala Helder. O texto produzido pelo autor tem realmente um refrão[3] que se vai repetindo ao longo do texto, à medida que a paisagem vai sofrendo uma série de mutações. Aliás, este refrão é a única expressão que se mantém inalterável até ao final do texto.

Deste modo, e de acordo com Manuel Portela, “o autor reescreve o Génesis a partir da recombinação de palavras, sugerindo, assim, a co-extensibilidade entre a criação do texto e a criação do mundo no texto, mostrando a atracção metafórica como forma de criação do mundo enquanto linguagem.” Um mundo, aliás, também ele em constante mudança e mutação à semelhança daquilo que acontece na realidade. No entanto, e apesar da sua bem sucedida experiência com «A Máquina de Emaranhar Paisagens», o autor teve de fixar o texto, quer isto dizer, não obstante o facto de este se ir transmutando à medida que vai sendo escrito e lido, não deixa de ser um texto estático, isto é, fixo em suporte de papel (sem movimentação real ou virtual). Os adventos da informática e da ciberliteratura estavam, em 1963, um pouco distantes do autor para que este pudesse pôr em prática as suas ideias geniais de poesia combinatória nas quais houvesse, não só a intervenção do homem – enquanto criador poético – mas também a intervenção e ajuda da máquina – para todo o trabalho de combinatória e aleatoriedade.

Assim sendo, volvidos cerca de dez anos, e com o avanço das novas tecnologias, Pedro Barbosa – pioneiro da literatura gerada por computador em Portugal – concebe a primeira recriação digital de «A Máquina de Emaranhar Paisagens» “propondo uma renovação do experimentalismo literário na Literatura Gerada por Computador (LGC), prevendo os processos de transformação e transposição implicados na transição do meio impresso para o meio digital” [tradução nossa] (Block e Torres, 2001).

Ao mesmo tempo, dizem os autores acima citados, o resultado do texto virtual de Pedro Barbosa é uma obra aberta por se tratar de uma obra em movimento, incompleta e indeterminada. Como acontece com toda a literatura generativa, a literatura virtual representa a possibilidade de obter bastantes resultados diferentes do mesmo código. E há também um lugar para o leitor interagir com o texto do programa, através de um público activo (Block e Torres, 2001), embora a recriação de «A Máquina de Emaranhar Paisagens» de Pedro Barbosa gere apenas texto automático, através do Sintex[4], sem que o leitor possa interagir com este através da máquina (computador).

Nesse sentido, procurando recriar esse mesmo texto mas com a possibilidade de o leitor poder interagir com ele em ambiente virtual, recorreu-se ao software O Poemário[5] concebido por Rui Torres em parceria com Nuno F. Ferreira. Aliás, o presente projecto baseia-se e inspira-se no trabalho já desenvolvido por Rui Torres em «Húmus – poema contínuo», pois à semelhança deste, após definido o corpus do presente trabalho, procedeu-se à sua divisão e programação de forma a conceber um texto virtual, utilizando o método de combinatória e aleatoriedade implícitas no referido programa. Seguidamente, passar-se-á a explicar todo o processo de reconstrução de «A Máquina de Emaranhar Paisagens».

Escolher um texto de Herberto Helder e, justamente o texto em questão, foi uma ideia que pareceu bastante adequada para trabalhar com o Poemário, ou dentro deste, se se preferir.

Depois de determinado o corpus textual do projecto que aqui se apresenta, procedeu-se à divisão do texto de Herberto Helder em onze paisagens e sua respectiva programação em XML. O número onze resultante dessa divisão foi mero acaso, uma vez que o mais importante nessa separação foi que cada passagem pudesse ter sentido ao ser lida separadamente.

O segundo passo consistiu em seleccionar no texto as palavras adequadas para animar (no já referido processo de combinatória e aleatoriedade) e com elas criar categorias (dentro do XML). É de indicar que o número de categorias varia em cada paisagem, perfazendo, no entanto, um total de 262 categorias, isto é, palavras seleccionadas no texto “completo” para animar. Depois, procedeu-se ao levantamento de léxico herbertiano[6] para poder, a partir dele, criar listagens que irão substituir as palavras seleccionadas nas categorias acima referenciadas. Essas listas também são variáveis, conforme o número de categorias correspondentes a cada paisagem. Porém, cabe referir que foram levantadas, dentro desse léxico, um total de 2620 palavras e que é a partir destas que o leitor poderá escolher aquela que melhor se adequar ao texto que pretender construir. Esta animação e combinatória são feitas de modo aleatório e o leitor, dentro deste ambiente virtual, entra num processo denominado de escrita-pela-leitura ou de leitura-pela-escrita, transformando-se, então, em “escrileitor” - expressão utilizada pela primeira vez por Pedro Barbosa.

O software Poemário oferece igualmente a possibilidade de combinar sons (vozes e texturas sonoras) que vão sendo geradas de modo aleatório, em cada paisagem, e à medida que o texto for lido e alterado (ou reescrito) pelo leitor. Perante esta vantagem, decidiu-se incluir neste projecto, e em cada paisagem, um conjunto de vozes e texturas sonoras. No que respeita à voz, procedeu-se, mais uma vez, à divisão, leitura e gravação sonora do texto original em unidades mínimas, mas que fizessem sentido conjugadas com as texturas sonoras dentro deste processo aleatório. Foram gravadas, no total, 93 vozes, incluindo o “refrão” que se repete ao longo do texto mas que foi retirado da divisão (para a combinatória) feita ao original. Para a concepção das texturas, foram seleccionados excertos de músicas do compositor turco Mercan Dede (um total de 15), uma vez que essa musicalidade contém algum exotismo, por assim dizer, fazendo lembrar certas harmonias ancestrais que se adequam ao texto de Herberto Helder – texto esse que se baseia, como se viu, em passagens de textos remotos, e que fala na Criação e na destruição ou na Criação e renovação do mundo. O mundo enquanto paisagem em constante movimento.

Além da utilização de O Poemário, foi também utilizado o programa Flash, sendo que ambos funcionam em conjunto. E tendo esse benefício, optou-se por incluir em cada paisagem uma série de imagens (que são também elas paisagens reais, trabalhadas e sobrepostas, ou fundidas, em transparência) servindo de tela estática a essa paisagem em movimento que é o texto herbertiano combinatório.

Deste modo, pretende-se oferecer ao leitor a oportunidade de viajar pelo texto[7], conforme a sua vontade, observando, lendo, ouvindo mas, fundamentalmente, transformar-se em “escrileitor”.

 

 

[1] O autor alterou este título, mais tarde, para A Máquina Lírica que
surge, pela primeira vez em Poesia Toda , 1.ª ed., Plátano Editora,
1973.

[2] Regra de composição do Húmus de Herberto Helder a partir de
palavras, frases, fragmentos, imagens, metáforas
do Húmus de Raul
Brandão.

[3] E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a
tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro.

[4] O Sintext é um gerador automático de textos virtuais criado por
Pedro Barbosa em parceria com Abílio Cavalheiro.

[5] Trata-se de um editor de poesia combinatória, ou seja, é um
software para criação de poemas combinatórios, com possibilidade
de estes serem gravados numa galeria de poemas do telepoesis.net,
também da autoria de Rui Torres.

[6] A obra utilizada para o levantamento lexical herbertiano foi Ou o
Poema Contínuo
, 2.ª ed., Lisboa, Assírio e Alvim, Setembro, 2004. O
mesmo se aplica ao texto «A Máquina de Emaranhar Paisagens» que
foi retirado da mesma edição.

[7] [link]

 

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