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A Cultura da Crise
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"Partamos da seguinte constatação: parece ser indiscutível, desde o fim do Renascimento, ou pelo menos desde o século XVIII, que é amplamente sentida uma ruptura na história ocidental, que há uma percepção de catástrofe - aquilo a que Hoderlin chamava "cesura". Esta situação em que a negatividade parece dominar, pode ser denominada por crise, o que aconteceu frequentemente. Mas reconhecer isso é ainda insuficiente. Convém acrescentar a este um segundo fenómeno, o facto de o discurso da crise se inscrever numa 'dialéctica' da reconciliação (redenção), da resolução, cujo palco é a história."[1] - José Bragança de Miranda

Deveríamos dedicar algum do nosso tempo a tentar perceber o funcionamento actual deste dispositivo, a crise, aparentemente não ideológico, na verdade, carregado de ideologia. E devíamos tentar fazê-lo porque ele é manhoso, já que a sua eficácia reside, em grande parte, no facto da sua acção tender para a sua desaparição, para o apagar dos rastos deste movimento que, ciclicamente, o traz à experiência humana. Se imaginarmos o mundo contemporâneo como uma imensa fábrica de produção ideológica, trabalhando por turnos, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, só quando na linha de montagem surge um novo produto - e a crise financeira, como o foi a crise do petróleo, ou a guerra contra o terrorismo, por exemplo, é também um produto ideológico - é que podemos ter a ambição de sentir, de perceber, no reaquecer dos motores, no rolar das roldanas, das rodas dentadas, que a máquina existe. E o quanto o seu trabalho é devastador para aquilo que, ainda há meia dúzia de anos, chamávamos pensamento.

Não podemos entender o trabalho ideológico que o conceito de crise faz senão começarmos por reconhecer que a nossa vida está toda subordinada, acriticamente, à ideia de estabilidade. Bem podem alguns modelos pedagógicos, científicos e artísticos perspectivarem alternativas através do culto da incerteza, da dúvida, da mudança, da instabilidade, da própria crise : é indiscutível a supremacia ideológica da ideia de estabilidade como se ela fosse a natural tendência da vida humana. E é indiscutível não porque os seus pressupostos argumentativos sejam de tal forma evidentes e categóricos que inibam qualquer tentativa de refutação, sim porque foi muito bem sucedido o trabalho ideológico de a empurrar para aquela zona - o natural, o que é próprio da condição humana - em que os nossos dispositivos críticos têm tendência a deixar-se adormecer. Esta ideia de estabilidade surge associada a alguns parâmetros, entre os quais o do equilíbrio, o da regularidade, o da repetição. Também já incluiu o da normalidade , mas este ficou muito fragilizado pela forma deficiente como conseguiu responder à circunstância do desenvolvimento da diversidade dos comportamentos sociais não implicar, à partida, uma perda de coesão social (em A Loucura da Normalidade[2] Arno Gruen é impiedoso com essa trave ideológica da nossa vida social).

Talvez a primeira coisa que devamos fazer, para além de reconhecermos estes padrões de comportamento do conceito de crise, é percebermos que poderemos estar diante de uma nova estirpe comunicacional da teoria da crise e que a devemos repensar à luz do seu funcionamento na sociedade dos nossos dias. Não se trata assim de uma mera compreensão de que a nossa vida se organiza entre o caos e a ordem, entre o equilíbrio e o desequilíbrio, entre a instabilidade e a estabilidade, e que, aí a crise é um dispositivo que tende a criar uma situação de reorganização, de procura de um equilíbrio perdido. Tal já nós conhecemos, vamos conhecendo, já que se tornou numa condição indissociável da vida contemporânea. Em 1957 Hannah Arendt ao reflectir sobre a crise na educação no sistema de ensino norte-americano, escrevia que a crise força-nos a regressar às próprias questões e exige de nós respostas, novas ou antigas, mas em qualquer caso, respostas sob a forma de juízos directos. Uma crise só se torna desastrosa quando lhe pretendemos responder com ideias feitas, quer dizer, com preconceitos. Atitude que não apenas agudiza a crise como faz perder a experiência da realidade e a oportunidade de reflexão que a crise proporciona.[3]

Trata-se de uma situação cuja maior novidade poderá ser a forma como ela, por surgir no domínio da palavra, da ideia, da linguagem, se adapta ao modo espectral como hoje vivemos na sociedade da comunicação. Há hoje um excesso de palavras no mundo e esse excesso não será só porque há palavras a mais, mas porque há muito mais palavras sem coisas, sem referente, do que palavras agarradas às coisas. Ora as palavras sem coisas parece estarem muito mais disponíveis à manipulação. Depois do mundo finito da matéria ter deixado de valer o seu peso em ouro , aquilo que valoriza as coisas (que deixaram de ser coisas e passaram a ser principalmente acções, ideias, comportamentos) é a sua maior ou menor adaptabilidade ao dispositivo de reprodução espectral. Uma coisa vale quanto mais tem a possibilidade de não ser apenas uma coisa, uma coisa vale principalmente pela sua capacidade em apagar a marca da sua existência de coisa.

Lembremo-nos do que aconteceu há uns meses quando a crise do capitalismo financeiro chegou às nossas vidas: um dos slogans mais usados no combate aos seus efeitos nefastos foi de que ela criava um perigo sistémico. E porquê? Porque era altamente pandémica já que se realizava através de factores de natureza emocional, materiais altamente inflamáveis, um rastilho que, de Nova Yorque a Tóquio, passando por Londres, viajava à velocidade da luz entre as principais bolsas mundiais do planeta. Ela não vinha de fora, do exterior. Vinha de dentro, dos alicerces do sistema, era, como a previu Jean Braudillard, uma violência implosiva " que resulta já não da extensão de um sistema mas da saturação e da retracção, como acontece com os sistemas físicos estelares."[4]

A aventura racionalista trouxe-nos longe, mas conduziu-nos a uma encruzilhada. É difícil explicá-lo, até porque nós estamos permanentemente a ser empurrados para a armadilha que o espectáculo da comunicação montou à razão. E que nos coloca numa grande angústia. Temos de tomar partido diante de uma sucessão de casos de diferente complexidade que quase fazem de nós uns especialistas generalistas . Parece que a nossa existência se dilui na mais profunda indigência comunicacional se no dia seguinte à revelação de um caso bombástico sairmos à rua e não soubermos qual o lado da barricada comunicacional onde nos devamos abrigar. Essa angústia predispõe-nos para a armadilha, para a urdidura. A comunicação global encontra-se fortemente dominada pela angústia da informação, angústia que contamina tanto os que têm como missão produzi-la, como aqueles que a recebem. Estamos todos os dias disponíveis para aqueles que, sem metafísica nenhuma, nos apresentam a extraordinária, indescritível, insondável causa das coisas. Poderíamos ser levados a pensar que se há uma armadilha, há uma presa e há um predador. Grande parte dos que sucumbem a essa tentação encontram no mercado um bode expiatório para esse comportamento. E se o mercado tem, naturalmente, grandes responsabilidades, pela sua necessidade vital de elaborar o material informativo em pacotes, em casos prontos a consumir, uma breve mas incisiva passagem pela blogosfera, rapidamente mostra que também individualmente, longe de uma lógica de mercado - ela continua ainda a ser, inquietantemente, gratuita - na singularidade dos nossos diferentes projectos editoriais, vivemos e reproduzimos esta tensão, esta angústia.

Dizia há tempos, meio a brincar meio a sério, que esta máquina de (não) pensamento nos recoloca num pensamento mitológico . Não é, nem mesmo no exagero da metáfora, o pensamento mágico do tempo das cavernas. Mas exageros à parte, verificamos um comportamento da era tecno-mítica: a criação de um pathos que suspende o pensamento . E esse pathos tem uma palavra-chave : crise. Qualquer cidadão da www.terra.com sabe como reagir ao ouvir esta palavra: espera pelas instruções dos especialistas, dos líderes e fazedores de opinião, do que corre por aí e, porque vivemos numa sociedade democrática, há sempre um por que sim e um por que não , a favor ou contra. Mesmo que isso vá contra aquilo que são as nossas intuições, as nossas aprendizagens de vida, a específica localidade do nosso existir .

É o que se passa com a crise financeira . Todos nós, de uma forma ou de outra, fomos, ao longo dos últimos anos, desenvolvendo uma evidência comum que supera os nossos dispositivos ideológicos de partida: estamos a aproximarmo-nos do ponto do impensável, do inconjecturável. A crise do petróleo levantou um pouco o véu sobre este procedimento. Há uma virtualidade na nossa economia que cria condições diferentes daquelas a que sempre estivemos habituados. Todos nós, mesmo os nossos gurus, fomos formados numa altura em que o valor do dinheiro, a sua materialidade ainda não tinha esta força e dimensão espectral que tem hoje. As grandes instituições financeiras americanas que quase se desmoronaram há poucos meses são o reflexo disso. O castelo de cartas de um capitalismo financeiro que se metamorfoseia e que até com esta mudança de pele quer especular. Provavelmente as grandes instituições financeiras do futuro estão agora a germinar-se em vãos de escada de Nova York, nas garagens, nos subterrâneos, com um mero portátil e uma ligação wireless .

Não sei. O que me preocupa verdadeiramente é que esta tentativa de me meterem dentro de um pathos global me impede, por exemplo, de pensar que em circunstâncias normais não verteria uma lágrima sequer pelo desmoronar de um capitalismo financeiro que tem como pressupostos fundamentais para o seu crescimento a dominação política, a desigualdade social e económica e a manipulação ideológica (principalmente através da persuasão e da sedução, mas também da ameaça) em torno das condições de superação destas desigualdades.

Nesta tentativa de me integrarem dentro de um pathos global vale tudo: há uns tempos ao ler o Correio da Manhã reparei como ele me chamava a atenção para o gigante segurador americano ser o mesmo que tem as apólices do Cristiano Ronaldo. Depois de um banco me ter tentado vender a ideia de que eu podia ter uma conta bancária tão frutuosa como o mago do pontapé na bola, vinha o Correio da Manhã tentar explicar às criancinhas - o espectador global é uma pequena grande criança - que estamos todos no mesmo barco. Ou seja, a crise do capitalismo financeiro é também o resultado da forma espectral como, de simulacro em simulacro, construímos toda a nossa vida social. Não é apenas um problema da ordem da economia. A ciência económica manifesta grandes dificuldades em pensá-lo. Muitas vezes somos tentados a pensar que, por não percebermos a complexidade dos seus fenómenos, não devíamos falar sobre economia. Aliás, sentimo-nos muitas vezes tentados a pensar que devíamos conseguir resistir a falar de economia. O problema maior é que também parece que os economistas puros e duros não são confiáveis. Há meses a maior parte deles falou-nos de Wall Street como se ela fosse uma extensão do eixo do mal.

Nesse sentido a crise financeira, económica, é também uma crise de credibilidade e dizê-lo é terrível porque de repente nos lembra, nos acorda, para o modo como a sociedade do espectáculo substituiu a confiança e a credibilidade, pela verosimilhança e pelo especioso.

A minha insistência na tentativa de pensar a relação entre a ideia de crise e a de estabilidade, tem a ver com este modo muito curioso das nossas sociedades reagirem ao desequilíbrio, à irregularidade, à instabilidade: criando um clima dramático, a que chamamos crise, que introduz novamente estabilidade no sistema. Há semanas que todos nós pronunciamos a palavra crise e estabilizamos aí num cenário contractivo, tensionado, até tendencialmente depressivo. Chamamos um conjunto de especialistas, comentadores, dedicados aos temas das finanças. Depois, mais tarde ou mais cedo, a crise tenderá a metamorfosear-se (o que poderá ser critico para aqueles que se especializarem neste produto ideológico, a crise financeira e não tiverem conseguido a sua reconversão no tipo de especialista rogeiro, que dá cartas num pacote alargado, especializado, que vai da política ao futebol, não deixando de passar pelas frivolidades mundanas).

O conceito de crise tem um trabalho perigoso na sociedade actual: por um lado abre o caminho para a manipulação, para a indução da necessidade absoluta de reagir, e geralmente para uma reacção inscrita num quadro de hipóteses muito restritas (tanto que, por exemplo, numa fase inicial da crise financeira que rebentou nos EUA, em relação ao plano da administração Bush, a diferença entre os democratas e os republicanos só se manifestava na forma como os primeiros exigiram que a intervenção do Estado tivesse como contrapartida a sua entrada no corpo de accionistas das empresas apoiadas. O que, convenhamos, é muito pouco.)

O conceito de crise tem este aspecto perverso, o da criação de um pathos que necessita rapidamente de uma acção para evitar a tragédia quando afinal a tragédia poderá estar essencialmente aí, não só na acção que a pretende evitar, também no modo como ela se constitui como incapacidade para introduzir variáveis no processo de decisão .

A crise, enquanto fenómeno da ordem da comunicação, tem também aspectos benignos: cria um clima que favorece globalmente a tomada de consciência dos problemas. Quando a crise do ano passado surgiu foi recorrente nos últimos dias a ideia de que os problemas que estávamos a viver já vinham sendo detectados há anos por inúmeros especialistas em política económica e que toda a gente tinha feito ouvidos de mercador. A afirmação de que ninguém ligou é muito intrigante. De facto a maioria de nós - nem mesmo os que têm blogues e farejam tudo o que é informação para poderem escrever um post - não têm por hábito ouvir os economistas puros e duros nas suas conferências, encontros e reuniões. São apenas outros economistas os que ouvem os economistas puros e duros. Alguns desses economistas estão nas empresas, outros na administração pública, outros nos partidos, outros na academia.

O que quer dizer que o Estado, o mundo empresarial e os partidos não os ouviram.

Mas atenção: este aspecto benigno só o será se ao mesmo tempo fortalecermos as dinâmicas culturais que nos permitam pensar a crise de outro modo do que aquele que nos é servido pelo pathos ideológico dominante. Só se o conseguirmos trazer sempre para o domínio da política, da cidadania, resgatando-o do domínio do tecnicismo cerrado, do alarmismo que necessita de evitar a criação de uma capacidade crítica. Os economistas devem falar entre si, não é disso que se trata. Trata-se de que o discurso económico só entra verdadeiramente na política quando for capaz de ser capaz de fornecer a informação para a tomada de decisão pelo mais impreparado dos nossos concidadãos. Parece um objectivo utópico, impossível de concretizar, bem sei. Mas é também aí que o discurso político poderá reencontrar a sua dignidade.

É que se a primeira coisa que o pathos da crise faz é promover uma ideia de comunidade negativa global, a crise é de todos nós, muito cedo iremos descobrir que não é exactamente para todos nós, ou pelo menos para todos nós da mesma maneira. As fracturas discursivas são já hoje evidentes. Face a uma evidência comum, o desequilíbrio das contas públicas, uns apontam o dedo ao Estado Social, à Administração Pública, indicando que o caminho é pelo seu emagrecimento através da reorganização dos seus serviços e funções, outros àqueles que de uma forma ostensiva enriqueceram desmesuradamente com a especulação do sistema económico e financeiro ou à forma como o Estado se tornou vulnerável à manipulação do grande negócio. Escrevi atrás que só conseguiremos aproveitar o carácter benigno da crise se a conseguirmos trazer para o domínio da política, da cidadania . E deveria ter dito: só se o conseguirmos trazer para o domínio da verdade em política . Porque não há nenhuma coesão social, não há nenhuma solidariedade, que advenha da mentira em política. O grande perigo sistémico é quando, em situações de grande fragilidade social, a política perde a noção de que só falando verdade, mesmo que seja só a verdade de que dispõe, pode mobilizar a comunidade e torná-la forte.

Outro aspecto benigno: é nestes momentos que parece que podemos viver de outro modo em relação ao ter e ao ser . No papel que o consumo pode ter nas nossas estratégias de afirmação identitária. Mau grado o investimento que o capitalismo de mercado fez para nos tentar dizer que só poderíamos viver nos seus modelos, e por muito que ele seja especialista a fornecer-nos quadros de conforto que parecem o céu na terra, a verdade é que tudo isso tem preços sociais elevados e não são o único modo de agir e de ser. Não é uma catástrofe que tenhamos de rever os nossos padrões de conforto, segurança, de modo a que possamos trazer para o seu interior as hordas de deslocados e refugiados da sociedade do bem estar e da abundância em que pensámos que vivíamos. Todas estas coisas podem ser de outra maneira. A exploração do ser humano pelo ser humano, por exemplo . Deveremos repetir lenta e exaustivamente como se acreditássemos piamente no que estamos a dizer: podemos viver de outro modo.

 

[1] José Bragança de Miranda, Politica e Modernidade, pp 111 e 112, Edições Colibri, Lisboa, 1997 (destaques pelo autor).

[2] Arno Gruen, A Loucura da Normalidade, Assírio e Alvim, Lisboa, 1995

[3] Hannah Arendt, Entre o passado e o Futuro, Oito exercícios sobre o pensamento político, p.184, Relógio de Água, Lisboa, 2006

[4] Jean Baudrillard, Simulacros e Simulação, p.94, Relógio de Água, Antropos, Lisboa, 1991

 

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