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O Adeus às Ilhas
José Agostinho Baptista

Nascia-se assim, devagar, devorado pelas orquídeas. E, devagar, as orquídeas respiravam, as jarras esperavam, as toalhas eram brancas de repente. Havia o outono e eu podia amar o outono sem a morte que o outono trazia. Eu amava as pequenas casas à deriva, os campos de vinhas e cana-de-açúcar. Entre maio e setembro ouvia-se a agitação dos remos, um alvoroço de peixes à deriva e nas redes a agonia. Havia o verão e o verão era dos garotos e o mar cantava sobre as suas vidas.
Amei as encostas, as fajãs, os poios de elevada angústia, Machico entre os seios de Ana d'Arfert. Diziam: eis a tua cidade, a de Zarco e Colombo, as ruas estreitas, inclinadas como as buganvílias. O palácio, as ameias, uma sentinela aturdida, voltada para o sono das ilhas. A avenida corre ao lado do mar com os azulejos quebrados. Vês os plátanos. Atravessas a ponte. Entrelaças os dedos, furtivamente, no parque de Santa Catarina. Eis a lota, a capela do Corpo Santo, o meu corpo rasgado em Santa Maria. Ao largo, pela noite, os archotes dan ­ çavam no silêncio. Sobre a linha do calhau uma gaivota morta, tudo o que descia pelo inverno das ribeiras, ou era a nostalgia?
Séculos antes deram-te um nome e era Funchal. Depois, queimaram as árvores e todos os incêndios foram uma ilha. Escravos errantes ou sonhadores da erva e do céu? uniram o verde e o azul para que fossem dois amantes eternos a erva e o céu. Nos seus olhos ardiam o sal, o sol e a pedra antiga.
Deus era uma escarpa, uma luz muito alta com o medo por cima. Envolto nas lendas, ele chegava sem se ouvir e, como estrelas fecundas, as sementes das suas mãos encontravam a terra. As pitangas, os araçás, os mangos de perfumada magia são os meus frutos. Tu és o meu filho, sonhando sobre a água.
Do longínquo canal aprendia-se o idioma, os rapazes mergulhavam junto aos cascos transatlânticos money, money para os pais esquecidos numa taberna do litoral. No Mercado dos Lavradores esperei a manhã entre o grogue e as tangerinas.
Na placidez das salas havia uma hora tão mortal, um veneno doce e fino regendo o ofício das intrigas: crónicas de imperatrizes, amores desfeitos à vista de sanatórios e ravinas.
Que estonteada fonte nasceu para a sede das solidões? Que flor arrancarei da tua melancolia, que rosa de Inglaterra? Oh, breve coração de ave que bates atrás dos quintais, dá-me uma asa, um sentido. Anoitece sempre que me sepultam as tuas pás, a saudade. Que não cesse a respiração das aldeias onde me visitaram os anjos da embria-guez e o lobo-marinho.
Uma espada era um dorso negro, uma lâmina viva das frotas profundas. Na verde lenha dos loureiros começavam fomes, voracida des. As vacas eram lentas, com os olhos loucos, trespassados. Acabavam no Estreito, suspensas das traves, sangrando para as mesas, sobre o pão. O asfalto subia para a Encumeada, os carros de cesto despenhavam-se pelo Monte. Distante está a Ponta do Pargo. No Loreto entristeci.
Fomos príncipes e servos, trabalhámos os socalcos, a seda e o linho. Que espero ainda? Era a infância quando sorria, o norte tinha um feitiço e uma lua, uma casa em ruínas. Coisas cultivadas, lentas, ao acaso. Chamavas-te Faial, e as ervas cresciam à volta de tudo e dos abismos. As portas e as janelas fechadas davam para o sul onde, em acentuado declive, se despenhavam os figos. Sinistros pareciam os caminhos à luz das fogueiras na estação dos grandes frios. Não havia regresso uma Penha d'Águia contemplava a igreja e os rostos anoitecidos. Na Furna, o pai bebia.
A memória tropeça, vacilante, ao longo dos doces vinhos. Quem partia, partia assim, de frente para o cais, nas lágrimas de um lenço que as mães bordaram. Foram belas também as mães de luto, com as suas agulhas incandescentes. E elas passavam ao lado dos gladíolos, desatavam os cabelos, debruçavam-se nos alpendres. Foram belas também essas mães das ilhas, aprisionando os filhos.
Adensa-se o crepúsculo sobre o fim de um século e de amor só morrem os cães. Quem escreve, escreve só, no ocaso das cidades. Quem matou em mim os pássaros da tua fronte? Chamavas-te Portela, São Jorge, Madalena do Mar. Uma terra de paixão é uma terra assassina, entoando a sua canção estranha. Os fios de água envelhecem nas serras, ou são os meus cabelos debaixo do céu?
O nevoeiro veste os picos, os teus astros não desvendarão o segredo do mundo. Recolhe-te nas pousadas de deus e, nos Vinháticos, diz ao caminhante como nasce o sol sobre os ombros, como se bate três vezes à casa dos avós.
Nenhuma porta se abre, de par em par, à chegada destes dias. Não, tu não viste os suicidas do Pináculo, o Garajau sobre a euforia dos cardumes. Bebeste, algures, a destilação das canas. Pensaste nos limoeiros, no mel, na amada. Encostado às palmeiras, bebeste uma palavra de amargura e com ela escreveste a última vontade dos condenados pelo destino. Ninguém saberá o que isto foi um dia, quando os veleiros traziam a exaltada voz dos países.
Tão desamparadamente passavam as horas do meu jardim. Um terraço recorda ainda as cadeiras, os mastros parados. Tudo vi.
De prata era sempre o mar quando olhava para o mar iluminado por uma lua fria. Os barcos partiam. A cambraia era húmida, agarrada aos dedos. De oeste para leste, afastavam-se as luzes, uma a uma, da Vargem a São Lourenço. Como cicatrizes, as cordas pendiam do convés, as hélices empurravam um homem para a lonjura dos sinos.
Para trás ficavas, São Tiago, São Gonçalo, Ponta da Oliveira com as garoupas coloridas e os tabaibos. No tronco da anoneira jamais verei o teu nome, o coração desenhado. Pela treva de uma ilha prosseguia o destino dos órfãos.
Soube então que vos perdia, vilas e cidade. Pouca água retornará aos lábios secos de Machim. Esquecei, senhores de agora, o rosto de uma terra com as suas flores desordenadas. Sepultai, na inquietude dos guindastes, essa música desaparecida no tempo dos navios.
O que se passa, passa-se hoje no ardil dos salões rugem os condo-res de aço à beira de uma Santa Cruz. Não haverá paz para os meus olhos quando as levadas calarem o rumor das águas e o meu canto acabar num pátio destruído.
Ferro e asfalto rasgam tremendamente a tua morada. Vives, ilha, no interior de uma beleza aflita. Nada semearão os novos escravos. Nada retomará o saber das tuas aves.

 

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