Capa de Danny Ivan

Editorial

Sociedade e Mundo

# Cabo Verde: Ilhas Afortunadas?
Suzano Costa

O Discurso dos Outros
Sandra Coelho

Ciências Sociais

# O Corpo como Mediador da Relação
Ricardo Rodrigues

A Cultura da Crise
Joaquim Paulo Nogueira

Arquitectura e Design

# Arquitetura do Medo
André Gardenberg

De Inovações Disruptivas
a Experiências Sustentáveis

José Alves

Arte e Entretenimento

# Arquipélago Mecânico
Alexandra Antunes

O Libreto de Ópera ou as Metamorfoses
do Texto Literário

Luís Pimenta Gonçalves

Espaço Criação

# O Adeus às Ilhas
José Agostinho Baptista

Liese & Kufalt
Benjamin Brodbeck


EDITORIAL
João Tibério

Nenhum homem é uma ilha.
Teilhard de Chardin

Ilha. Por detrás desta pequena palavra há todo um conceito que não se encerra na ideia de pedaço de terra rodeado de água. Porque até esta definição não é indiscutível e inquestionável. Formigas ou Austrália serão ambas ilhas apesar da diferença abismal de superfície? E um pequeno banco de areia aquando duma maré baixa? E o sentimento de insularidade será semelhante em diferentes ilhas?

Ilha. Etimologicamente remonta ao latim ínsula e está na origem de palavras como insularidade, transmitindo sempre essa ideia de isolamento e retiro. Um refúgio ou asilo que pode evidentemente ser forçado ou voluntário, quer falemos do Tarrafal, Alcatraz, ou das ilhas de Elba e Santa Helena. Esta alteração de visão da ideia de isolamento é evidente, e será naturalmente um dos aspectos fundamentais a apontar, pois onde antes se via desterro, vê-se na actualidade descanso, refúgio e até uma “fuga” de sonho. Mas, a que se deve então esta alteração conceptual?

Na literatura com o “Mito do bom selvagem” de J.J Rousseau e “A vida e as estranhas aventuras de Robinson Crusoé” de D. Defoe, a apologia do isolamento é feita ao mesmo tempo que é posta em causa a evolução da civilização humana. Na pintura, Paul Gauguin, com as suas viagens para o Taiti e outras ilhas da Polinésia, é outro exemplo da procura duma fuga do mundo ocidental e da defesa dum regresso às origens. Mas, a mutação da forma de pensar a ilha não se resumiu naturalmente às artes, porque mais do que isso ela foi resultado das melhorias tecnológicas da civilização ocidental que permitiram mais rápidas viagens e transpor mordomias para qualquer ponto distante no mundo.

Ilha. E, contudo o teólogo francês até parece estar equivocado porque os homens até são ilhas… ilhas que fazem parte de arquipélagos onde a comunicação entre pessoas continua a ser a essência, e o corpo um agente indispensável, como explica Ricardo Rodrigues no seu artigo sobre o corpo enquanto mediador da relação entre indivíduos. E os homens até são ilhas porque vivem em sociedade e são obrigados a tomar decisões para o bem do arquipélago, como Suzano Costa expõe no pormenorizado artigo sobre a história recente de Cabo Verde. E os homens também são ilhas quando cortam com o mundo que os rodeia, como Herberto Helder é exemplo paradigmático. Nessa linha, Alexandra Antunes apresenta neste número uma proposta de exercício combinatório a partir da “Máquina de emaranhar paisagens” do poeta madeirense, uma experiência interactiva que se recomenda vivamente. “Quem está enjaulado? Sou eu do lado de cá de uma cidade solitária ou são vocês do lado de lá de todas as cidades juntas?” – pergunta o curador Diógenes Moura com base nas fotos de André Gardenberg. As ínsulas romanas, no passado, tal como as casas e pessoas fotografadas na actualidade pelo arquitecto brasileiro põem igualmente em causa a evolução das condições de vida nas grandes cidades, onde se vive cada vez mais isolado mesmo que rodeado de pessoas. Sandra Coelho com a descrição da entrada na favela Nova Holanda, no Rio de Janeiro, aponta no mesmo sentido. E, contudo ainda temos harmoniosas cidades que são excepções neste cenário negro do urbanismo como o Funchal, que o aclamado e premiado poeta José Agostinho Baptista apresenta no sublime conto “O adeus às ilhas”.

O dramaturgo Joaquim Paulo Nogueira explora no seu artigo “A cultura da crise” a forma como este conceito foi evoluindo e ganhando papel de relevo nas percepções da realidade de políticos, economistas, e da sociedade em geral. À dicotomia crise-estabilidade não é estranha a resposta: investimento, desenvolvimento e estratégia. José Alves discorre sobre a evolução de inovações tecnológicas como o Kaaza e Skype, e a importância do design por detrás destas. Para terminar este número temos duas estreias no PROJECTO10: ópera e música. O professor universitário Luís Pimenta Gonçalves apresenta no seu artigo uma muito interessante análise do libreto enquanto exemplo de metamorfose literária, e suscita uma reflexão sobre o género operático como caso singular dentro da música. Finalmente, e depois de termos apresentado fotografia, ilustração, contos, vídeo-arte, receitas culinárias, no espaço criação, Benjamin Brodbeck promove neste sexto número uma experiência sensorial cativante com Liese & Kufalt .

Ilha. Homem. Arquipélago. Podem dizer que “nenhum homem é uma ilha”, mas como se vê neste número há múltiplas interpretações e sentidos da mesma. Do “Arquipélago Gulag”, de Alexander Soljenítsin, às insolas romanas e brasileiras do passado e no presente, passando pelas viagens de Ulisses na “Odisseia “ ou pelos estranhos mundos nos “Perdidos”, Ilha e Homem vivem há muito uma íntima história que não se conhece nem vislumbra o fim.

 

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