Editorial

Sociedade e Mundo

# Cabo Verde: Ilhas Afortunadas?
Suzano Costa

O Discurso dos Outros
Sandra Coelho

Ciências Sociais

# O Corpo como Mediador da Relação
Ricardo Rodrigues

A Cultura da Crise
Joaquim Paulo Nogueira

Arquitectura e Design

# Arquitetura do Medo
André Gardenberg

De Inovações Disruptivas
a Experiências Sustentáveis

José Alves

Arte e Entretenimento

# Arquipélago Mecânico
Alexandra Antunes

O Libreto de Ópera ou as Metamorfoses
do Texto Literário

Luís Pimenta Gonçalves

Espaço Criação

# O Adeus às Ilhas
José Agostinho Baptista

Liese & Kufalt
Benjamin Brodbeck

O Discurso dos Outros
Sandra Coelho

- Quando uso uma palavra – disse Humpty Dumpty em tom escarninho – ela significa exactamente aquilo que eu quero que ela signifique… nem mais nem menos.
- A questão - ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes.
- A questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem manda aqui. É só isso.
Lewis Carrol

A Avenida Brasil foi feita para ligar a cidade do Rio de Janeiro ao resto do país. Abandona a cidade rumo ao norte e inicia um trajecto pouco apetecível a turistas, cosendo interessantes reflexões sobre o conceito de urbanidade. O autocarro em que sigo apresenta-me uma paisagem bem diferente daquela que deixei para trás: as avenidas largas são substituídas por vielas sufocadas, onde a construção é abarracada e toda a paisagem é trancada à chave pelas fachadas cinzentas e vermelhas do latão e do tijolo. Desço e estou instantaneamente no meio de uma grande confusão de pessoas e de umas poucas bancas de venda – pilhas, peixe, sumos, fritos e ferramentas - mesmo no início da rua Teixeira Ribeiro, o ponto privilegiado de entrada na favela Nova Holanda.

Esta favela faz parte do Bairro Maré – o mais extenso complexo de favelas do Rio de Janeiro. Este bairro é composto por 32 favelas diferentes e é habitado por cerca de 134 mil pessoas. A sua população é geralmente pobre e constitui uma considerável parte das mãos de trabalho da cidade. Todos os dias, milhares de homens e mulheres percorrem a Avenida Brasil de autocarro para construir ou limpar os edifícios cintilantes de Copacabana e Ipanema. Abandonam um território fora do qual são anónimos voluntários, para não carregar consigo o estigma da favela. No final do dia, iniciam o percurso inverso para dentro da sua bolha, um lugar onde não existe um cinema, um teatro ou sequer qualquer marca visível de um Estado. Voltam para a simples mas preenchida agitação humana dos vendedores de queijo grelhado, dos concertos de pagode, dos bailes funk, das mesas de jogo na rua, da conversa das vizinhas e da correria dos miúdos lançadores de papagaios.

A mítica linha física que desenha um cerco em torno deste território – e que sustenta a ideia de que não se pode entrar numa favela – acompanha uma linha simbólica que atira todos os seus habitantes para um isolamento silencioso por fora e barulhento por dentro. A favela é indispensável à cidade do ponto de vista relacional, tal como realça o geógrafo Jailson de Souza e Silva, ao afirmar que n ão existe cidade sem favela, uma vez que ela é fundamental para garantir a própria identidade do Rio . No entanto, ela está caricatamente silenciada. O seu discurso é o discurso dos outros – dos media , do Estado, da polícia militar.

Quando Eduardo Granja Coutinho cita Humpty Dumpty, ele fá-lo porque não importa (...) a verdade contida na fala histórica de um grupo social subalterno, mas sim quem tem o «monopólio da fala» ou, em termos gramscianos, quem dispõe dos aparelhos de hegemonia . Em todas as pólis deste mundo existem territórios à margem dos discursos correntes, sem voz para fazer parte da construção da história e sem voz para lutar contra a forma como nela são incluídos. Essa voz, que pode ser materializada através de diversos instrumentos comunicacionais, dá a uma parte da sociedade a possibilidade de construir e dar a conhecer a sua própria estética: o olhar dirigido a si próprio que escapa ao gueto social ao qual foi confinado e que se opõe ao olhar exterior que tem marcado a documentação social desde as suas origens .

Em última análise, nada existe que não tenha expressão. E o poder de expressão não está automaticamente incluído no kit da cidadania. Ele precisa de ser conquistado, e às vezes roubado, aos detentores do monopólio da fala. Ao sair da Teixeira Ribeiro sei que aquelas linhas invisíveis existem para ser pisadas e invadidas, arrastadas para dentro da cidade, para dentro dos discursos dos outros e para dentro da história.

 

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