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Sobrados
Carla Caffé

É difícil dizer de onde nascem esses desenhos. Mas com certeza eles vivem e habitam no segundo andar da percepção. O olhar busca alguma familiaridade, se esforça por reunir o pouco que restou das sobras dos antigos sobrados. O pequeno comércio do tempo arruinou o espaço da rua: a calçada, o solo, o chão somem numa topografia esvaziada, fundo falso, buraco esbranquiçado. Os moradores migraram para o andar de cima. Foram empurrados, expulsos, despejados em outras formas de vida.

As fachadas reformadas operam como velhos utensílios, indumentárias gastas. Mas, ainda assim, úteis. Na prática, um sobrado vira escola de dança, uma garagem vira boteco. Tudo é reaproveitável. A velha porta de ferro se encaramuja, o toldo de lona puída se projeta sobre a calçada, letreiros resmungam, janelas tatalam. Assemelham-se a peças de um camelô que precisa recolher rapidamente suas tralhas.

Carla Caffé aparentemente não se preocupa em retratar pessoas. Mero recurso para contornar o realismo tradicional, que precisa sempre afirmar a presença humana. Num primeiro momento, ele instaura uma distância. Mas é esse distanciamento que acaba por nos revelar o elemento humano enraizado no artesanato miúdo. Pouco a pouco, somos atraídos por escadas, sacadas, janelas abertas. Formas geométricas pressupõem a dimensão do trabalho humano: sapateiros, dentistas, costureiras.

Após ter riscado exaustivamente a verticalidade da avenida Paulista, a artista retorna às pequenas artérias, aos vasos capilares, às ruazinhas de bairro. Se no passado já tinha desenhado padarias no Bom Retiro, botecos em Santo Amaro, casas geminadas em Santana, agora volta toda a sua atenção de andarilha para a rua Butantã, o largo da Batata, o mercado de Pinheiros.

Retornar ao mesmo tema faz com que passe da exterioridade para uma relação de intimidade, convívio, solidariedade com o seu objeto. Alguns desenhos chegam a sugerir uma inclinação para a narrativa. O aspecto inacabado das obras pede a nossa participação. Assim como o boteco com as portas abertas, o desenho de Carla Caffé está pronto para receber o olhar das pessoas.

Augusto Massi
[1]

Largo da Batata

Avenida Paulista


[1] Texto publicado na Folha de S. Paulo em 8 de agosto de 2010

 

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