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# The Good Reagan Years.
A violência no cinema americano dos anos 80.

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The Good Reagan Years
A Violência no Cinema Americano dos anos 80.

Jorge Geraldo

O princípio combinatório é, na verdade, a base linguística da criação poética.
Herberto Helder

Cinema Americano dos 80's

“A reacção contra a seriedade e a chegada do mega-divertimento”
Mark Cousins

A indústria cinematográfica durante este período não se limitou apenas a seguir os gostos e interesses da sociedade, mas começou a seguir os exemplos dados pelas políticas de Reagan, seguindo alguns dos ideais proclamados por este, como o renovado patriotismo, visível nomeadamente nos filmes de acção, acabando por levar a um crescente desfasamento com alguns géneros cinematográficos: “Family-oriented spectacles, gun-ho action and escapism became the staples of the screen. Social comment, and themes dealing with that which was ugly, threatening or cautionary were, for the most part, left to independent filmmakers or the impressively emerging Third World Cinema” [1].

Ou seja, a criação, muito mais do que a criatividade passou a estar “refém” de um espartilho político e social que a direccionava para a satisfação imediata de determinados objectivos. O facto de ser considerado um período menor na criação cinematográfica (senão mesmo o menor), em muito se ficou a dever a esta medida comprometedora, que levou tempo a ser emendada. O cinema dos anos 80 na América passou a ser uma bandeira de enaltecimento nacional, deixando de parte um trabalho enorme construído no final da década de 60 e durante toda a década de 70, a chamada nova vaga americana. Aquele que se tinha tornado num cinema com enormes preocupações e ambições sociais era agora uma indústria de massas e para as massas, iniciando-se aquilo a que Jurgen Muller chama de “Cinema of Surfaces” [2]. Não havia qualquer forma de o cinema dos anos 80 continuar na senda das décadas antecessoras, pois não se encontrava interessado em ideias, ideais ou convicções, encontrando-se sim completamente embrenhado num mundo de aparências e poder visual, trocando a importância e conteúdo de uma obra, por apelativos espectáculos visuais, desprovidos de intenção.

Foi o começar de uma nova era, que trocou a seriedade dos temas, pelo puro e “simples” divertimento, colocando de lado o cinema enquanto arte, preferindo-o enquanto matéria-prima, preferindo-o como comércio.

A preocupação com o visual em detrimento da forma, não se deveu apenas a uma mudança política e social na América, sendo o aparecimento de novas formas de entretenimento um grande boost para a mudança estética do mundo cinematográfico. A coragem dos realizadores que já não se encontravam condicionados por nenhum Código Hayes e o facto de a violência desde o final dos anos 60 ter ganho uma nova cor [3], principalmente graças a dois filmes, Bonnie and Clyde (1967) de Arthur Penn e The Wild Bunch (1969) de Sam Peckinpah.

Além disso a sociedade americana estava substancialmente diferente, se depois da Segunda Guerra Mundial o público queria filmes mais realistas que retratassem a situação social de então. Já na sociedade pós Vietname isso não aconteceu. Se na década de 40 os temas foram tratados com seriedade e de formas criativas no que diz respeito ao cuidado estético [4], já a sociedade do final dos anos 70 e anos 80, parecia contentar-se em manter longe do olhar (e das objectivas) qualquer referência aos acontecimentos de então. O facto de se tratarem de conflitos armados com resultados finais diferentes em muito contribuiu para essa escolha, a sociedade americana não queria ser lembrada de algo que correu mal (em plena Ásia) e que a marcou definitivamente (a contestação interna que se fez sentir).

Action Movie e respectivo Action Hero

Cinema como campo de batalha: amor, ódio, acção, morte… numa palavra, emoção.
Samuel Fuller

Em plenos anos 80 dá-se uma mudança de realidades, passando o cinema a abordar estes assuntos de uma forma mais desapaixonada, onde a curiosidade predomina, ultrapassando outro tipo de sentimentos, como Susan Sontag refere e bem, “O resto de nós somos voyeurs , quer queiramos quer não.” [5]

O “realismo” voyeurista conferido pelos filmes de guerra seria completamente desvirtuada nos restantes géneros cinematográficos durante os anos 80, sendo o action movie onde isso é mais visível.

É First Blood (1982) de Ted Kotcheff, mais conhecido entre nós como Rambo: A Vingança do Herói , um dos filmes que melhor demonstra esta dialéctica entre violência gratuita e o retrato justificado da violência. Ou seja, que melhor demonstra a preocupação com o grafismo estético dos anos 80. Este filme serve como ponte entre os melhores trabalhos sobre a guerra produzidos nos anos 80, e os blockbusters produzidos em massa, direccionados para o consumo imediato e de rendimento fácil.

First Blood é uma obra paradigmática devido a todo o seu processo de produção. Não tenta ser muito mais que um filme de acção puro e duro, mas acaba por abordar temas importantes, que assolavam ainda a sociedade americana, uma sociedade sem espaço para os seus próprios (ex) combatentes. No entanto, à medida que os filmes de rambo se foram multiplicando, também os interesses passaram a mudar, senão vejamos:

First Blood
(1982)
Rambo II
(1985)
Rambo III
(1988)
Mortes
1 69 132

Mortes por minuto

0.01 0.72 1.30

Vezes em que disparam sobre Rambo sem consequências

12 24 38

John Rambo no primeiro filme é um veterano do Vietname apanhado em circunstâncias adversas, tentando lutar pela sua sobrevivência, já nos dois filmes seguintes Rambo: First Blood Part II (1985) de George P. Cosmatos e Rambo III (1988) de Peter MacDonald, John Rambo é um autêntico one army man, uma máquina implacável de matar com uma musculatura impressionante a condizer com o seu estatuto de herói. Qualquer vestígio de realismo presente no primeiro filme da saga acaba por desaparecer.

Todas as mudanças no panorama cinematográfico propiciaram a criação do filme de acção, onde rápidas e violentas sequências de acção pautavam grande parte da duração total do filme, não havendo, nem sendo necessário o desenvolver de personagens ou intriga, bastando apenas um pequeno acontecimento que dinamiza e despolete todos os outros acontecimentos: o rapto da filha do herói – Commando (1985) de Mard L. Lester; acções terroristas – Die Hard (1988) de John McTiernan; presenças alienígenas – Predator (1987) de John McTiernan, a procura de vingança – Conan the Barbarian (1982) de John Milius ou protecção de testemunhas – Cobra (1986) de George P. Cosmatos.

Estes são alguns dos filmes que marcaram não só a década, mas também a carreira dos respectivos actores principais, pois um filme de acção precisava de um icónico action hero , alguém que personificasse todo o patriotismo e servisse como “inspiração” a uma América on the down fall . Estes action heroes eram mais que simples humanos, eram homens com capacidades extraordinárias capazes de vencer todas as adversidades, um exemplo para todo o país: “Sometimes cinema acts as a mirror, reflecting the changing mood of a society. Nowhere is this more evident than in contemporary America where the success of Ted Kotcheff's First Blood and John Milius's Conan the Barbarian has created a new race of heroes for a nation drained of confidence by defeat in Vietnam , undermined by economic problems and humiliated by terrorist and drug barons.” [6]

O filme residia tanto da performance da sua estrela principal como das elaboradas sequências de acção, o action hero passou a ser muito mais que isso, passou a ser um action icon , que marcava o filme pela sua presença e onde a sua contratação para o elenco era fundamental para a realização de alguns projectos.

De realçar que apenas uma mulher interfere, realmente, neste domínio de testosterona, Sigourney Weaver no papel de Ellen Ripley no filme Aliens (1986) de James Cameron, a bem sucedida continuação do filme de Ridley Scott, Alien (1979). De resto o universo dos filmes de acção foi praticamente dominado na sua totalidade pelos homens, cabendo às mulheres papéis meramente secundários, em muitos casos, meramente decorativos.

A preocupação com as sequências de acção faziam dos filmes de acção uma autêntica montanha russa emocional onde “Each breath of relief is accompanied by a winding gasp as a successful step forward is knocked back by a subsequent, jet propelled counteraction. There's never a dull moment.”[7]

O público-alvo eram os jovens que se identificavam não só com o herói, mas com a própria acção, ficando o diálogo para um plano bastante secundário, como observa Ronald Bergan: “The genre was aimed primarily at young men, and translated well into the increasingly important overseas markets – not least because the films had very little meaningful dialogue.”[8] Esta falta de preocupação com o diálogo deu origem a outro fenómeno associado aos filmes de acção e aos actos de violência neles praticados, os one-liners [9], frases carismáticas proferidas pelo herói aquando o confronto com o/os vilão/vilões. A violência deixava de ser só nos actos praticados, para se alastrar à própria linguagem.

O filme de acção com a violência a rodos, ganharia a sua total credibilidade e estatuto através de um one-liner bastante famoso, proferido pelo presidente dos Estados Unidos da América Ronald Reagan, que num discurso dirigido à nação, citou sem objecções John Rambo ao dizer: “Like Rambo said in a popular movie: we get to win this time.”[10] Os filmes de acção ganharam instantânea credibilidade e passaram a ser (erradamente) levados (demasiado) a sério. 

De Porter a Rambo

 I believe that images of violence evoke particularly strong emotions, and that's what the movies are all about.
Brian De Palma

O cinema percorreu um longo caminho desde o seu início em 1895, a violência tem acompanhado o cinema ao longo de todos estes anos, alterando-se e reinventando-se à medida que as épocas passam. Em 1903, sete anos depois do nascimento do cinema, estreou The Great Train Robbery de Edwin S. Porter, considerado o primeiro filme de acção, e o primeiro filme de cinema narrativo, com recurso a vários planos, algo inovador até então. O último plano de um dos ladrões a disparar directamente para a câmara (ou seja, para o público) teve um efeito marcante no público de então e marcou o início da representação da violência no grande ecrã.

Quase um século depois a violência ganharia novos parâmetros, não devido a um processo criativo inovador, mas porque a principal preocupação dos anos 80 passou pela comercialização, o cinema como indústria, o cinema como jogo de atracções.

A violência surgiu como o prato forte da indústria cinematográfica, a forma de o cinema fazer as pazes com o público. Passou-se a criar de forma comprometida, as barreiras foram sendo ultrapassadas e os limites alargados, tudo era passível de ser mostrado e quanto mais gráfico se conseguisse ser, mais o público respondia positivamente.

Convém lembrar que até finais dos anos 60 não era permitido mostrar no mesmo plano uma arma a ser disparada e alguém a ser atingido, já no final dos anos 80 todo e qualquer espectador sabia perfeitamente os efeitos estéticos de uma bala no corpo humano.

Desde a morte dos assaltantes no filme de Porter, ao aparecimento de John Rambo, distam anos de história cinematográfica e mundial. No entanto em 1903 já Porter tinha percebido os efeitos da violência perante o público, aquele tiro final no último plano do seu filme, nunca pareceu tão certeiro e tão bem direccionado quanto agora.

 

 

[1] Cinema Year by Year: The Complete Illustrated History of Film.
London, Dorling Kindersley Limited, 2006, p. 590.

[2] MULLER, Jurgen. Best Movies of the 80s. Koln, Taschen, 2005.

[3] Neste caso o vermelho, pois o sangue passou a ser um
denominador comum em filmes de acção e um representante da
mudança dos tempos.

[4] Ter em conta que um dos géneros mais reconhecidos e estilizados
de sempre, surgiu durante o segundo conflito mundial (embora só
tenha sido “descoberto” em 1946), falo do film noir que embora tenha
terminado “oficialmente” em 1958 com Touch of Evil de Orson Welles,
continua a ter marcas bem visíveis nas produções dos dias de hoje.

[5] SONTAG, Susan. Olhando o Sofrimento dos Outros, Trad. José Lima.
Lisboa, Gótica, 2003, 2ª edição, p.49.

[6] Cinema Year by Year: The Complete Illustrated History of Film.
London, Dorling Kindersley Limited, 2006, p. 618.

[7] MULLER, Jurgen. Best Movies of the 80s. Koln, Taschen, 2005,
p. 268.

[8] BERGAN, Ronald. Film . London, Dorling Kindersley Limited, 2006,
p. 74.

[9] Frases como “You're the disease, and I'm the cure” Cobra (1986)
ou apenas “Yippee-ki-yay, motherfu***r” Die Hard (1988) são bons
exemplos de one-liners.

[10] Presente no documentário do Biography Channel sobre a carreira
do actor Sylvester Stallone.

 

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