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Extremista, será a tua tia!
Alfredo Caldeira

Segundo a BBC, a rede americana Dunkin' Donuts retirou do ar um anúncio em que a protagonista usava um keffiyeh (lenço tradicional árabe em xadrez preto e branco) por se tratar de um “símbolo extremista[1] que, de acordo com o que escreveu Michelle Malkin no seu blog, era o "adorno habitual de terroristas muçulmanos que aparecem em vídeos decapitando pessoas e fazendo reféns"[2].

O Osservatore Romano , jornal oficial do Vaticano, escreveu que José Saramago era um “populista extremista[3].

O líder parlamentar do Partido Socialista acusou o PSD de "optar por uma via radical, extremista e irresponsável[4], a propósito da eventual proposta de criação de uma comissão parlamentar de inquérito ao computador Magalhães .

O Diário de Notícias afiança que “PJ e o SIS estão a investigar ameaças explícitas de morte ao Presidente da República, Cavaco Silva, levadas a cabo por movimentos extremistas[5]– acrescentando tratar-se de “elementos do grupo Rede Libertária”.

Ainda o mesmo Diário de Notícias informa-nos que “é previsível que grupos extremistas de esquerda e de anarquistas tentem causar distúrbios, infiltrando-se em manifestações de protesto legitimamente organizadas”, após afirmar que “a Al-Qaeda e os activistas de grupos anarquistas e radicais de esquerda estão entre as principais ameaças à segurança durante a realização da cimeira da NATO”[6], prevista para Lisboa.

Finalmente, extremista é, na versão portuguesa do Microsoft Word sinónimo de “revolucionário”…

Sem necessidade de recorrer também a citações oriundas da passada Administração estadounidense de George W. Bush – que, a torto e a direito, apelidava de extremistas quantos lhe não agradavam – parece evidente que este termo está destinado a crucificar todos os que, de algum modo, não pensam como os autores da acusação. E, por isso, extremista é quase sempre um insulto ou, para sermos mais rigorosos, uma acusação, uma acusação que pretende ameaçar quem supostamente nos ameaça.

Não será curioso (elucidativo) que o termo extremista nunca seja reivindicado por ninguém? E que apenas seja usado, pejorativamente, para denunciar um adversário ou um inimigo?

E, no entanto, na política, na religião, no comportamento social ou mesmo na economia, não faltam alegações de extremismo – que, no essencial, visam retirar do status quo quem com ele não se conforma, para, em seguida, melhor o eliminar (“tratava-se de um extremista!”).

Estar no extremo é apresentado como um crime horrendo, que justifica, por si só, a mão pesada da superstrutura jurídica e ideológica. Situação que, nos nossos dias, tem ganho especial acuidade na medida em que, como aliás explica a Microsoft, é sinónimo de “revolucionário” e, portanto, deve ser denunciado, afastado e eliminado.

Abro aqui um breve parêntesis: a alegação de extremismo estende-se hoje, com enorme abrangência, da direita à esquerda e tanto se aplica ao Islão como ao Cristianismo, ao Budismo ou ao Hinduísmo – o que reforça a óbvia dúvida sobre o rigor da expressão.

E não foram revolucionárias todas as grandes transformações e progressos da Humanidade? Não exigiram rupturas? Não obrigaram a escolhas entre o que estava caduco e o que era novo? E não foram os seus obreiros apelidados de extremistas ?

Não é, por isso, que o extremo está, ou deixa de estar, errado e deve, ou não, ser combatido. Aliás, como distinguir tanto extremista ?

Não é a expressão “extremista” que caracteriza o que quer que seja. Que permite distinguir a verdadeira natureza de uma ideia, de um acto ou de uma prática. Que possibilita julgá-lo. Como já se escreveu mais atrás, tal expressão é geralmente usado como um insulto e/ou uma ameaça.

Então, qual o motivo do uso reiterado dessa designação pelos políticos, pelas polícias e pelos media? Se pegarmos no exemplo do Iraque, a resposta aparecerá óbvia: do ponto de vista da Administração Bush, o “extremismo” justificava a invasão, justificava a destruição, a ocupação e a repressão e, para tal, bastava associar umas quaisquer inventadas “armas de destruição maciça” – sendo irrelevante a prova do que quer que fosse.

Se pegarmos no “extremismo” atribuído a muitos seguidores do Islão, aí encontramos exactamente o mesmo fenómeno: atira-se para o ar, potencia-se através dos meios de comunicação social, sempre tão ávidos de sangue e “boas” informações policiais, e basta servir aos incautos – diga-se, em abono da verdade, que, como em todas as campanhas, sempre importa aduzir alguns elementos verosímeis, seja o uso do véu, seja em geral o estatuto das mulheres, seja este ou aquele grupo terrorista que se reivindica de uma qualquer leitura exógena dos textos sagrados.

Mas o que é mais relevante neste fenómeno do extremismo e na sua utilização intensiva pelas grandes cadeias noticiosas é a abrangência do termo, que sempre escorre para expressões como “grupos extremistas de esquerda e de anarquistas”, sem nunca explicar em que consiste o respectivo “extremismo” ou o seu “radicalismo” (outra expressão igualmente recorrente e quase sempre associada).

A utilização do papão do extremismo é, por isso, a maioria das vezes um anátema político orientado.

A História fornece quase sempre boas exemplificações, como foi o caso da declaração “contra o comunismo e as ideias subversivas” posta em vigor pelo governo de Salazar, em Setembro de 1936, escassos dois meses após o início da Guerra Civil de Espanha, e que se aplicava a todos os funcionários públicos ou aspirantes a funcionário, a todos os militares, a todos os dirigentes dos bancos emissores e das empresas concessionárias de serviços públicos e ainda aos directores e chefes de serviço que não tivessem exercido a sua autoridade ou comunicado superiormente quis os respectivos funcionários ou empregados que professavam “doutrinas subversivas”, ou seja, extremistas . E mais: as empresas seriam privadas de financiamentos do Estado quando se verificasse terem ao serviço, com conhecimento dos respectivos administradores, indivíduos que professassem ideias subversivas.

Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas.[7]

Esta declaração – que hoje muitos invejarão – era, precisamente, apresentada como um instrumento contra o extremismo , fosse isso o que fosse – “Havendo de facto gente que não agradece nem quere gosar (sic) dos benefícios que lhe garante o trabalho na ordem e na paz[8], conforme escreveu A. Salazar em nota oficiosa desse mesmo dia 10 de Setembro de 1936.

Como se pode verificar, as expressões extremismo e extremista servem a ordem social estabelecida (as diversas ordens sociais estabelecidas) e resultam, quase sempre, do julgamento da ideologia dominante dessas mesmas ordens sociais, visando os que, de um modo ou de outro, as contestam.

E, no entanto, tais expressões podem – devem poder – configurar também realidades bem mais inequívocas e que a longa marcha da Humanidade tem tentado travar, ainda que algumas das manifestações da globalização tendam a confundir.

Vejamos alguns exemplos, de diferente natureza:

  • Um ataque terrorista indiscriminado;
  • A organização de experiências biológicas ou outras que constituem ameaça generalizada, regional ou internacional;
  • A destruição de um Estado pela actuação concertada de ONGs e similares em estreita articulação com instituições transnacionais;
  • O envolvimento de um Estado ou de instituições especializadas de um Estado na organização de actos terroristas e/ou de perseguições étnicas, religiosas ou políticas;
  • A substituição na tomada de decisão dos orgãos eleitos de um Estado por estruturas fácticas (nacionais, estrangeiras, transnacionais, políticas ou económicas).

Embora, como se disse, estejamos perante fenómenos de natureza aparentemente diferenciada, estes simples exemplos – que, muitas vezes, se completam ou se cruzam – permitem evidenciar que a natureza dos actos ditos extremistas é hoje raramente de cariz individual e antes radicam na organização das sociedades ou Estados com vista à prossecução de objectivos financeiros e geo-políticos.

Na verdade, muitos dos extremismos com que hoje alegadamente nos defrontamos não são ou, pelo menos, não aparecem como actos individuais, mas antes como actuação concertada de Estados e instituições.

Tal é, aliás, a principal destrinça entre os actos de terror mais ou menos isolados e individuais que marcaram, por exemplo, os atentados contra reis, imperadores e presidentes na primeira metade do século XX, e os actos terroristas a que hoje diariamente assistimos, maioritariamente inspirados por Estados ou organizações transnacionais.

E mais: os principais actos extremistas nossos contemporâneos comportam a própria noção de terror como arma dissimulada para a sua concretização – geralmente envolvida, no entanto, em límpidas palavras de generosidade e de afirmação.

Mas, também aqui, estamos cortados da análise concreta das situações concretas. Não nos é dado conhecer a mão que armou o terror, somos envolvidos numa nebulosa de factos, raramente chegamos aos seus actores e, mais importante ainda, sempre existirão justificações piedosas para os efeitos colaterais.

Ou seja, conhecemos que existiu um dado fenómeno, um dado acto de terror, mas não nos é dado perceber quem o executou, como e quando foi executado.

É que, além do mais, a primeira vítima dos actos de terror é a corrupção da linguagem, a utilização sistemática de eufemismos, o recurso à manipulação dos conceitos e das ideias, passando cada palavra a querer dizer o seu oposto – e quem, senão a grande imprensa internacional, o pode executar de modo sistemático?

Como escreveu Lewis Carrol em Alice do Outro Lado do Espelho:

Quando eu uso uma palavra, – disse Humpty Dumpty com certo desprezo – ela significa o que eu quiser que ela signifique... Nem mais nem menos.
– A questão – disse Alice – é se você pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.
– A questão – respondeu Humpty Dumpty – é saber quem manda.

Mais uma vez, o extremismo não apresenta bilhete de identidade – pois recorre à sua falsificação. As palavras passam a ameaças, os actos criminosos são os dos outros e, afinal, quem reina são os que podem e querem controlar um dado status quo .

Os actos de terror, os actos ditos extremistas , serão apresentados como tal pela imprensa bem-falante? Serão eles alguma vez susceptíveis de conhecimento rigoroso? Saberemos distinguir entre quem os programa e ordena e quem os executa? Somos nós, afinal, os extremistas e não eles, que praticaram tais actos?

Nesta perspectiva, extremista passa a ser, afinal, quem é acusado de o ser. E não quem mandou praticar os actos que configuram o terror .

O extremismo não é uma história policial. É um fenómeno complexo em que o investidor prefere a destruição à solução dos problemas. Prefere a sua “segurança” à dos outros. Opta pela pacificação em vez da Paz.

Mas, ainda assim, também existem casos de polícia – uns, verdadeiros, em que se optaria pela desmontagem dos fenómenos de terror, designadamente de Estado, e outros, falsificados, em que tudo aparece embrulhado em monitores de televisão, páginas de jornal ou versões online da mesma verdade absoluta e maniqueísta: estamos a lutar contra o extremismo !

Não será fácil entender as invasões do Iraque e do Afganistão, o 11 de Setembro em Nova Iorque e o 11 de Março em Madrid, mas o certo é que, se nos derem elementos verdadeiros de compreensão, se a realidade puder controlar a propaganda e a manipulação, se a verdade ultrapassar o pensamento único, se a investigação e o julgamento eliminarem a tortura, cada um de nós poderá chegar ao entendimento desses actos, apreciando devidamente o seu carácter e deles extraindo as necessárias consequências, como homens e mulheres livres.

Por tudo isto, e muito mais que aqui não cabe, apetece-me gritar, parafraseando um político português: extremista, será a tua tia!

 

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