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A Cidade das Entrelinhas
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Acordo. Atrasada. Um café ligeiro e uma corrida ao ponto de ônibus. Trânsito. Leitura dinâmica no jornal do dia. Escritório. Almoço. Escritório. Reclamações e cansaço. Café. Escritório. Trânsito. Reclamações e cansaço. Um banho e uma televisão para desligar. Durmo.

Assim, mais um dia se passou na vida daqueles que habitam a correria das grandes cidades. Se uma chuva começasse a cair e guarda-chuvas brotassem pelas ruas o cenário ficaria completo. Uma rotina estafante e sem graça, diria o observador leigo.

De fato, esta pode ser uma forma de encarar o nosso cotidiano citadino. Uma vida mecânica e repetitiva, onde a qualquer momento somos engolidos pela velocidade dos tempos hiper-modernos. Porém, se o olhar for mais demorado, será possível notar que entre uma palavra e outra, ou mesmo entre as letras, existe um espaço à espera de uma intenção. É nesta lacuna que reside a fronteira entre a obviedade e a poesia.

Morar em uma grande metrópole é muitas vezes um desafio. O ritmo que ela imprime em nossas vidas pode nos levar a certa cegueira caso não tomemos cuidado. Tudo se torna obscuro e perdemos a habilidade de se encantar pelas coisas do dia-a-dia. Um olhar viciado que procura sempre o lugar-comum e a segurança. O desafio é se aventurar como uma criança, que aprecia tudo de forma tão singela e pura. Não falo da maneira infantil, mas sim da curiosidade e da busca de explorar uma mesma coisa de formas diferentes. Todas as possibilidades que podemos ser neste espaço em branco em que vivemos.

Muitos falam que São Paulo é cinza e que seus principais ingredientes são o concreto e a garoa. È verdade que ela está longe de ser uma metrópole charmosa como Paris, mas consegue ser misteriosa e sedutora para aqueles que permanecem aqui por mais tempo. Não é um amor à primeira vista e sim um casamento, onde se é necessário cultivar cada sentimento. Ódio pelo trânsito que faz com que a cidade pare muitas vezes. Felicidade pelas delícias gastronômicas variadas. Revolta pelas grandes diferenças sociais. E por aí vai...

Para mim, morar na cidade da garoa é uma experiência única. Caminhando pelas ruas, pelas mesmas ruas, algo sempre me toca. Sinto a vibração urbana entrar pelos meus pés e afirmar que faço parte de algo que vai além do meu corpo. Cada avenida, cada praça, cada beco consegue abrigar toda minha humanidade. Assim são as cidades, estruturas para que a diversidade conviva em harmonia, nelas podemos ser livres. É como um acolhedor colo de mãe.

Sempre gostei de observar a urbe do alto de um prédio com uma janela ampla. É de lá que consigo ver suas articulações. Os carros à noite que se assemelham à lavas de um vulcão pronto para entrar em erupção. Os passarinhos fazendo ninhos em lugares inusitados, a natureza penetrando na artificialidade. Desço. No ônibus o contato com pessoas de diversas culturas me faz pensar na humildade. O sorriso do cobrador quando lhe presenteio com uma bala. Todo mundo está no mesmo barco. Brincar com uma criança no metrô. Caminhar pela Avenida Paulista e se deparar com um punk-gótico e em seguida com uma roda de música hippie. A graciosidade da Vila Madalena. As senhoras falando da vida alheia no banco da praça. O céu de brigadeiro no fim da tarde. Os jovens esbanjando alegria nos bares. Tudo se movimenta e acontece ao mesmo tempo, pulsante e vivo.

São nesses espaços que busco minha poesia. Para mim São Paulo não é cinza, mas sim branca. À espera do nosso colorir, da nossa intenção e da nossa atitude. A cidade dos encontros e desencontros, das consonâncias e dissonâncias, da obviedade e da surpresa. Afinal, os limites são muito tênues, porque tudo depende em que ponto da perspectiva o observador se encontra. As definições podem empobrecer a experiência urbana, por isso prefiro me deter na corda bamba, na busca contínua do equilíbrio entre uma coisa e outra. Nas entrelinhas de São Paulo busco a diferença entre o existir e o viver.

(Uma luz invade meu quarto.) Acordo. (A cama ainda está quente e uma preguiça toma conta de mim) Atrasada. (O tempo do mundo é mais rápido que o meu). Um café ligeiro e uma corrida ao ponto de ônibus. (O vento gelado bate no meu rosto) Trânsito. (A senhora sentada ao meu lado conta a história da filha que acabou se casar). Leitura dinâmica no jornal do dia. (As tragédias me fazem lembrar o quanto podemos mudar o mundo). Escritório. (As trocas são naturais). Almoço. (Hmm delícia de risoto). Escritório. (Vamos construir sonhos ou ganâncias?). Reclamações e cansaço. (Como gostaria de um café agora). Café. (Aquece a alma). Escritório. (A tendinite está pegando). Trânsito. (Faço desenhos na janela). Reclamações e cansaço. (Poderia haver mais transporte público do que carros). Um banho e uma televisão para desligar. (Tudo vale à pena, se a alma não é pequena, já diria o poeta). Durmo.

 

 

 


 

 

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