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Design/Mudança/Poder
Susana Branco

O nosso poder é nossa capacidade de decidir
Buckminster Fuller

Associado às decisões políticas e à República está o conceito de Poder. Mas quem detém o Poder? O que se faz com o Poder? Eles podem. – E eu, posso? Apesar dos imensos significados, é certamente uma palavra que atrai ou repulsa, e à qual não se fica indiferente.

Qual a relação que os designers têm com o Poder? Com base na pesquisa para a minha tese, posso afirmar que a maioria dos designers não é educada para perceber e analisar o Poder, pelo que este é ignorado, subestimado e, consequentemente, evitado.

Qual a importância de perceber e desenvolver a capacidade de Poder? A raison d’être do Design é criar Mudança – e só existe mudança se existir Poder (Poder como capacidade de agir). A próxima questão salta claramente aos olhos do leitor: - Como pode então existir Design sem Poder? Este paradoxo pode estar na origem do reduzido número de designers em posições de Decisão, o que reduz o potencial do design/do designer como “criador/catalisador” da mudança.

E o que se entende pela palavra Design? O conceito de Design tem diferentes significados cuja definição tem gerado forte debate na classe . Segundo Heather Fraser[1], as múltiplas, e por vezes contraditórias, visões do que é o Design podem ser encaradas como uma barreira, ao tornarem difícil a comunicação com outras disciplinas. Que, por outro lado, podem ser consideradas como uma vantagem, visto que não fragmentam o campo de acção dos designers, gerando uma visão mais holística dos problemas.

Argumenta-se, então, que o design tem evoluído ao longo do tempo, passando da escola do fazer (objectos, mensagens, espaços) para a escola do pensar. Um dos modos de definir design é considerá-lo como uma forma de olhar o mundo à nossa volta e perguntar - Por que não? É como se colocássemos um par de óculos, olhássemos o mundo através dessas lentes, e interpretássemos a realidade à procura de oportunidades para a mudança e melhoria (sociais). Depois, vem a fase de imaginar inúmeras soluções e criar um plano com metas alcançáveis para tornar esse futuro viável.

Design é Mudança. Este é o seu verdadeiro propósito, embora as capacidades dos designers sejam frequentemente utilizadas para a manutenção e sobrevivência de um sistema existente. Mas o design existe para propor soluções alternativas e para resolver problemas humanos/sociais, dirigido para as reais necessidades do Homem.

O que é então o Poder? Segundo Martin Luther King[2], poder não é mais do que a capacidade de atingir objectivos. É a força que se requer para obter mudanças sociais, políticas e económicas. Sem esta capacidade de acção não existe a implementação das ideias, e é neste trama que caem muitos designers: têm óptimas ideias, visões magníficas e sentem a responsabilidade para efectuarem mudança mas não conseguem agir, acabando por alimentar um sentimento de frustração. É curioso analisar, o trabalho desenvolvido pelo Emeritus Professor of Strategic Management Dr Bruce Lloyd[3] focado na relação entre responsabilidade, ausência de poder e frustração. Neste trabalho, Llyod defende também que deve existir uma educação para o poder em paralelo com a uma educação para a responsabilidade, dado que o desenvolvimento de poder, só por si, pode levar a comportamentos ditatoriais e abusivos.

A relação de Design com Poder não está ligada, presentemente, às capacidades do designer, mas sim à distância que existe entre ele e os centros de decisão, quer na orgânica Empresarial quer na Estatal.

Na nossa sociedade, os recursos mais valorizados são, ainda, os de natureza económico-financeira e, consequentemente, é aqui que os centros de decisão se encontram e interagem. Na realidade, tem valor quem sabe manipular o capital económico e quem tem fácil acesso ao mundo das finanças[4].

Contudo, assiste-se actualmente a uma mudança de paradigma. As preocupações de sustentabilidade, mesmo na tomada de decisões de ordem económico-financeira, começam a ser referenciadas por valores éticos, de equilíbrio entre factores ecológicos, sociais e ambientais . Os recursos/capital ecológico e social estão a ganhar terreno, ao serem reconhecidos como parceiros da vertente económico-financeira.

Esta mudança irá, certamente, mexer nas estruturas de poder e aproximar os centros de decisão de quem trabalha e valoriza os recursos sociais, leia-se, dos Designers e, em muito, dos Designers Sociais.

Vive-se numa fase de transição, que implica saber jogar nos dois campos, do lucro e do social: o Design tem de saber demonstrar que as suas propostas são economicamente rentáveis ultrapassando barreiras instaladas. Para isso, o designer tem de adquirir novas capacidades de liderança e de empreendorismo, aspectos que começam a surgir nos seus currículos académicos. Inquestionavelmente, deverá munir-se de conhecimentos e instrumentos que defendam os seus argumentos e convençam os diferentes actores que as suas ideias têm valor e, principalmente, que as suas iniciativas atraem parceiros para co-operarem na mudança dos valores da sociedade.

Então, os designers que façam as pazes com o Poder. Não vale a pena ignorá-lo! Enquanto designers, temos de perceber que a capacidade criativa sozinha não é suficiente e que as grandes visões para um mundo mais desejável só poderão ser implementadas se desenvolvermos capacidades e boas relações com o Poder em paralelo com uma aprendizagem de Responsabilidade evidenciada.

 

 

[1] FRASER, H. 2006. Turning Design Thinking into Design Doing.
Rotman Magazine Spring/Summer. Canada.

[2] Discurso de Martin Luther King, Jr. citado no livro de A.Kahane,
Power and Love- A Theory and Practice of Social Change

[3] LLOYD, B. 2010. Power, Responsibility & Wisdom: Exploring the
issues at the core of Ethical Decision-Making and Leadership.
In: UNIVERSITY, L. S. B. (ed.) London.

[4] Baseado na entrevista à Professora Dr Rita Almendra no contexto
da minha tese de Mestrado.

 

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