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À Procura da Incredibilidade Semanal
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À Procura da Incredibilidade Semanal
Rodrigo Nogueira

Os Insane Clown Posse, uma banda terrível, têm uma canção chamada “Miracles”[1]. Em vez das histórias violentas e misóginas desprovidas de sentido ou inteligências que são apanágio deles, a canção fala de como os ímanes, as pirâmides e os OVNIs são milagres da natureza. Sem uma ponta de ironia. Violent J. e Shaggy 2 Dope, os membros do duo que não aparecem em público sem estarem pintados como palhaços, recusam explicações científicas para estes fenómenos. São milagres e pronto, acaba aí a discussão. A canção inspirou um gozo sem precedentes. Até os juggalos, o círculo de fãs da banda, gozaram com a canção (afinal de contas, há que ter um sentido de humor para gostar deles). Em vez de serem ridiculamente violentos, foram violentamente sinceros. E falharam.
Não há que ter pena deles. Têm uma carreira feita de insultos baratos e de montar festivais de juggalos onde qualquer banda sem ligações aos ICP que toque é invariavelmente apupada e agredida com objectos arremessados para cima do palco. Apesar do passado de atitudes reprováveis e infantis, é mesmo possível que esta gente, que, com trinta anos, ainda veste calções e camisas de manga curta largas, usa maquilhagem de palhaço e ganha a vida a falar de violência, ache que os elefantes são incríveis. Na verdadeira acepção da palavra: algo extraordinário, no qual é complicado acreditar. E que quem goza com eles, tendo perdido a capacidade que uma criança tem de sentir deslumbramento perante o mundo que está a conhecer, seja demasiado cínico para aceitar que, de facto, as girafas são algo de fora deste mundo.

É com estupefacção, reverência e incredulidade infantil que os Insane Clown Posse vêem o mundo, mesmo as pequenas coisas mais banais. Há que dizer que os compreendo. Cada vez que me sento numa sala de cinema ou em frente a um televisor e vejo gente a ser incrível, apodera-se de mim um sorriso de orelha-a-orelha que, para quem me vir, poderá parecer o de uma criança. E é assim que me sinto quando oiço o Kanye West.

Custa admiti-lo, mas é complicado alguém ser recompensado por ser bom naquilo que adora fazer. Há poucos que o conseguem, e Kanye West é um deles. Ora, na obra dele há certamente momentos de ingenuidade, com tiradas parvas que competem com os momentos mais ridículos dos Insane Clown Posse. Só que, das produções às rimas, West é realmente bom naquilo que faz, algo que não se pode dizer dos ICP, que são maus rappers. Kanye West é incrível (até tem uma canção chamada “Amazing” e tudo) e, todas as semanas, podemos assistir à incredibilidade dele. Até ao Natal, haverá uma nova faixa dele todas as sextas-feiras, através do seu site. A iniciativa chama-se G.O.O.D. Friday e já houve nove. Todas elas são, de uma maneira ou de outra, incríveis, quanto mais não seja por serem colaborações absolutamente inesperadas. “Runaway Love”[2], por exemplo, junta West, Justin Bieber e Raekwon, algo que nunca na vida aconteceria, só que aconteceu.

O que West tem lançado cá para fora não é só incrível, é também incrivelmente variado. De canções destinadas a partir ao meio pistas de dança a posse cuts (canções com três ou mais rappers) de rap puro e duro, há de tudo. Em “Good Friday”[3] e em “See Me Now”[4] (que não faz parte das G.O.O.D. Fridays mas foi posta na net pelo próprio West antes de abrir a torneira semanal), West volta ao bounce característico das produções dele em 2002-2004, com o piano à John Legend e a atitude celebradora do gospel, sem ser redundante ou demasiado revivalista. “So Appalled”[5] tem um beat que lembra canções épicas, mas não necessariamente grandes singles pop, como “Two Words”, do primeiro álbum de West. “Don’t Stop”[6], a mais recente, é uma orgia de ritmos com Pharrell e Lupe Fiasco. Porque, quando se tem uma G.O.O.D. Friday, não se tem só Kanye West. Tem-se acesso a um mundo que inclui rappers, cantores e produtores como Mos Def, Pusha-T, John Legend, Jay-Z, Rick Ross, Raekwon, RZA, Charlie Wilson, Beyoncé, Kid Cudi, Nicki Minaj ou Swizz Beatz, todos com prestações de qualidade variável, como seria de esperar.

O facto de Kanye West fazer isto enquanto prepara dois ou três novos álbuns, colabora com outras pessoas, realiza filmes de 40 minutos e parece passar 24 horas sobre 24 horas no Twitter, a fazer compras ou a dormir com supermodelos, é incrível. Numa altura em que somos contemporâneos de centenas de coisas brutalmente maravilhosas, como o Twitter do Steve Martin[7], o Kenny “Fucking” Powers[8], o disco-sound ter voltado à moda, o Bill Murray ainda estar vivo, ou o Conjunto Ngonguenha[9], é um privilégio ainda maior ser confrontado semanalmente com a incredibilidade do Kanye West. É uma constante. A semana pode correr mal, mas haverá sempre uma G.O.O.D. Friday para compensar.

Não que não haja a possibilidade de ele nos desiludir. Pessoas incríveis podem fazer coisas pouco ou nada incríveis. Não é o Jay-Z que tem um disco com os Linkin Park?[10] E o inverso também pode ser verdade. Há pessoas que não incríveis mas conseguem fazer coisas incríveis. O John Mayer, que faz música tão inofensiva que se torna ofensiva, é incrível em entrevistas e skits de talk shows e a colaborar com Kanye West[11]. Até agora, ainda não houve nenhuma desilusão total, contudo, é provável que haja, já que West anda a apontar para todos os lados.
Até agora, o momento mais impressionante destas G.O.O.D. Fridays nem vem do próprio West. Aparece em “Monster”[12], lá para o final do desfile de estrofes de rappers, logo a seguir a Kanye West e Jay-Z explicarem, com fúria, por que é que são monstros. É a prestação de Nicki Minaj, que torna tudo o que veio antes obsoleto, ou, no mínimo, fraco. Faz-me lembrar a maneira como Busta Rhymes destrói “Scenario”[13], dos A Tribe Called Quest, com intensidade crescente que depois abranda, com força, garra, grunhos e gritos, a usar as palavras e a mudar o flow e o sotaque a seu bel-
-prazer. Ambos sabem demonstrar virtuosismo, mas também sabem entreter. Também me lembra o Busta Rhymes na forma como adoro esse momento dele e, se me lembrar bem, só me vêm à cabeça uma ou duas canções dele a solo.

Não é só na internet e nas G.O.O.D. Fridays que reside a incredibilidade actual de Kanye West. Há umas semanas ela fez uma aparição no Saturday Night Live. Armado com um fato vermelho, uma MPC, um grupo de bailarinas e a estrofe do enorme Pusha-T, Kanye montou- uma versão de “Runaway2, uma espécie de pedido de desculpas a Taylor Swift feito de notas soltas no piano e muita emoção, absolutamente perfeita e diferente de tudo o que já passou pelo palco daquele programa lendário.

Kanye West – Runaway feat. Pusha-T (Saturday Night Live)

Antes tinha debitado “Power” com uma coroa que remetia para o vídeo/obra de arte humana[14] que passa em todo o lado. Já o fato vermelho fazia lembrar Delirious, o filme-concerto incrível de Eddie Murphy quando Murphy era o rei da comédia. Nenhuma das duas canções faz parte das G.O.O.D. Fridays, mas são ambas sinónimo da incredibilidade do homem. Não quero, de todo, saber da polémica com a Taylor Swift ou da parvoíce toda que se gerou à volta daquele momento. Mas quero, e muito, saber de “Runaway”. Não será esse o poder dos melhores artistas pop? Dos melhores comunicadores? Fazerem-nos querer saber de algo que não nos aquece nem arrefece, pelo menos durante o tempo em que estão a comunicar?

Kanye West – Power (Saturday Night Live)

O que há mais por aí é gente medíocre e incompetente que, mesmo assim, cumpre objectivos. Por exemplo, o mundo inteiro ri com Two and a Half Men, uma série terrível que contribui, sem uma única centelha de originalidade ou esforço, para que o mundo seja um sítio pior, mas mesmo assim arranca gargalhadas das pessoas. A notícia recente[15] de que Angus T. Jones, o miúdo de 17 anos que protagoniza a série, foi aumentado para 300 mil dólares por episódio5. Estamos a falar de um miúdo que se limita a dizer piadas terríveis e a seguir o péssimo exemplo de Charlie Sheen em termos de camisas de bowling e de tratar mal prostitutas, o que só mostra que o mundo é um sítio que não tem como hábito procurar nem recompensar a incredibilidade.

É por isso que é bom que haja alguém como Kanye West, que segue o exemplo dos Beatles ou do Michael Jackson em termos de ser realmente incrível e ao mesmo tempo reconhecido como incrível. Não que o mundo precise de mais gente como ele. Estamos a falar, claro está, de um tipo egocêntrico, egoísta, cheio de manias e que se acha, genuinamente, o maior que há. Só que há duas atenuantes. O que ele faz permite-lhe tais luxos. E, dentro do discurso de “eu sou o melhor de sempre”, cabe muita auto-dúvida. Duvido que Angus T. Jones alguma vez tenha sentido hesitação ou insegurança. Deve olhar para o espelho e pensar “sou mesmo, mesmo bom”. Kanye West deve pensar “será que estou a fazer a coisa certa? Sou mesmo, mesmo bom”. Talvez seja isso que faz dele incrível. Até porque, tirando os rappers, quem se acha incrível raramente o é. O melhor entretenimento (não tenho interesse na palavra “arte”, prefiro procurar a incredibilidade) parece vir de quem, de uma maneira ou de outra, já se odiou a ele próprio, já teve momentos em que pensou que talvez não fosse realmente bom e depois trabalhou para contornar isso.

Kanye West é uma dessas pessoas. Pelo menos por agora. Qualquer dia, tal como Eddie Murphy, em quem se inspirou para vestir um fato vermelho, talvez Kanye West desista e passe a acomodar-se, a negar a incredibilidade e a deixar de querer saber. Só espero que, nem que seja só até ao Natal, consiga manter o meu lado de criança incrédula. Que me consiga aproximar, pelo menos nesse sentido, do que um membro dos Insane Clown Posse sente quando olha para um arco-íris. Há quem diga “extraordinário”, “maravilhoso” ou “brutal”. Outros dizem “milagroso”. Eu digo “incrível”. E o Kanye West é, por agora, incrível.


 

[1] Vídeo Youtube

[2] kanyewest.com

[3] kanyewest.com

[4] sonicmusic.wordpress.com

[5] kanyewest.com

[6] kanyewest.com

[7] twitter.com/iamstevemartin

[8] www.kennypowers.com/

[9] www.myspace.com/ngonguenha

[10] www.amazon.com

[11] Vídeo Youtube 1 ; Vídeo Youtube 2

[12] kanyewest.com

[13] Vídeo Youtube

[14] Vídeo Youtube

[15] theonion.com

 

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