Capa de Rita Almeida

Editorial

Sociedade e Mundo

# O que ofereceria à República?
Vox Populi

Não queremos retroceder ao Século XIX
Precári@s Inflexíveis

Ciências Sociais

# A I República portuguesa no pós-guerra
(1919-1926): para uma nova leitura.

Ana Catarina Pinto

Crónica de tempos que correm: do "testamento vital"
Lucília Nunes

Arquitectura e Design

# Design/Mudança/Poder
Susana Branco

A Cidade das Entrelinhas
Marina Pedreira de Lacerda

Arte e Entretenimento

# Benoliel: ao Serviço de Sua Majestade
Tiago de Brito Penedo

À Procura da Incredibilidade Semanal
Rodrigo Nogueira


EDITORIAL
João Tibério

Je suis en république, et pour roi j’ai moi-même.
Victor Hugo

Il y a bien peu de républiques dans le monde, et encore doivent-elles leur liberté à leurs rochers ou à la mer qui les défend. Les hommes sont très rarement dignes de se gouverner eux-mêmes.
Voltaire

A vida é Uma comédia de erros, uma farsa repleta de enganos, um paraíso para os que mentem. Certamente que o Dr. House não é referência para ninguém, mas é inquestionável que há um fundo de verdade quando ele diz que todos mentem, e quando até a circunspecta e sisuda linguística nos mente, em que se pode confiar?

República. Não. Na República, não. Ninguém confia mais na República. É uma palavra com um cada vez maior valor pejorativo. Há que fugir dela. Negá-la. Recusá-la. Até refutá-la. Mas, e se a República for algo mais do que o regime político que se opõe à Monarquia? Se a palavra for mentirosa, dissimulada e fingida?

A palavra leva ao engano. E confesso que até gosto disso. Gosto do erro. Da falha. Da provocação. Mas, e haverá mesmo erro? Os autores convidados para os artigos temáticos deslumbraram-se tanto com a República, a primeira, a de 1910, a de Teófilo Braga ou Manuel de Arriaga, como os próprios populares que se aglomeravam e amontoavam em Loures ou Lisboa para ouvir os discursos da Implantação da República. A primeira República. O primeiro amor, talvez. Dizem que não há amor como o primeiro. Mesmo quando é platónico. Um amor que se baseia na virtude acima de tudo.

Platão escreveu a Politeia, no século IV a.C., apresentando um relato da vivência na república fictícia que então criou, e que ainda hoje é um documento fundamental no questionamento do funcionamento da polis. Em Junho, o PROJECTO10 apresentou a Polis, em Outubro a República. Casual? Acaso? Coincidência? Provocação? Jogo?

Voltemos então ao jogo dos enganos. Se na República de Platão, o cerne da discussão de Sócrates encontra-se na ideia de justiça dentro da polis, no De Republica de Cícero o objecto em debate muda para a organização do Estado da República Romana. Terá sido esta deturpação conceptual que estará na génese da percepção generalizada que república será o oposto da monarquia, aristocracia, oligarquia, etc. Será, muito provavelmente, esta deformação do conceito que fez desvanecer-se a essência do mesmo: “a República é o modo como uma polis é governada, quer no seu sentido de regime, de forma de governo, quer na sua Constituição.”

Mas, e será que a população portuguesa terá realmente uma opinião tão enviusada do que é a República hoje como parece fazer-se crer? Com essa questão em mente, o PROJECTO10 saiu à rua e perguntou: «O que ofereceria à República?» As mais de quarenta respostas apontam que há muita desilusão na República, alguma confusão com o sistema político e os seus representantes, mas que há também alguma esperança. E é por aí que se deve avançar. Perceber que a República, o governo e o poder são conceitos diferentes é essencial. Susana Branco segue nesse sentido ao defender a necessidade do design se assumir como uma força de poder ou uma importante alavanca de mudança na sociedade.
Joshua Benoliel sendo ainda hoje um dos mais importantes fotógrafos da história da fotografia em Portugal, falhou dois momentos essenciais da primeira metade do século XX: o regicídio e o assassinato de Sidónio Pais. Fica o convite para conhecer um pouco melhor a vida de Benoliel, no artigo do investigador Tiago de Brito Penedo.
A actriz Jenny Romero faz neste número uma eloquente leitura da «Acta da Implantação da República, a 4 de Outubro de 1910, em Loures», um documento que para muitos poderá ser uma total e surpreendente revelação. Ana Catarina Pinto expõe no seu artigo sobre a 1ª República (1919-1926), uma outra visão e leitura do Portugal do pós-Grande Guerra além da comummente aceite, pelo que se recomenda vivamente a sua leitura.

Em épocas de crise surgem sempre as dúvidas e naturalmente reconsideram-se opções, como alguns entrevistados no Vox Populi bem patenteiam, mas mais do que isso o colectivo Precári@s Inflexíveis ousa questionar as bases, fundações e a forma como o actual sistema social, financeiro e politico se encontra assente. Um retrato duro e violento da realidade que espera os jovens (e menos jovens) na actualidade. Num registo bem mais poético e idílico a arquitecta Marina Pedreira de Lacerda expõe as assimetrias e paradoxos da cidade de S. Paulo. Uma cidade onde se pode viver, mas uma cidade onde também se pode existir. O artista plástico Daniel Melim apresenta neste número seis obras invulgares. Seis momentos representativos do acto de experimentar. De buscar a diferença no acto de criar. A pintura encontra-se, portanto, em estreia absoluta no PROJECTO10, e isso é algo de salutar, é algo de incrível. Incrível. Incrível. Incrível. E não se fala aqui do super herói verde, Hulk - o Incrível. Incrível. Incrível. Memorizado? É que este é o adjectivo base para as variações de Rodrigo Nogueira sobre a incredibilidade semanal de Kanye West, e escrever sobre genialidade, sobre música, sobre arte, a partir da incredibilidade é apenas isso, Incrível. E regressamos à casa-partida, tal e qual como quando jogávamos Monopoly em pequenos – nos já longínquos anos 90 - , voltamos à polis, à gestão da sociedade, à nossa própria gestão. Voltaire dizia que são poucos os que se sabem governar, talvez tenha razão. Mas, é um direito termos direito a escolher as nossas opções, a nossa vida e a nossa morte. Lucília Nunes expõe no seu artigo o que está por detrás da questão do «testamento vital», e, sobretudo, corrige algumas incorrecções, falsidades ou confusões que surgiram recentemente durante a discussão, na Assembleia da República, desta questão.

Quanto ao aniversário da República, e socorrendo-me das palavras do professor João Luís Lisboa, ela não precisa de nada pelo seu aniversário, porque ela é o que os cidadãos fazem dela. E isso é muito. E isso é tudo.

 

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