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Guião: Os filhos de Gabriela – Os que nasceram e
os que imigraram para Portugal.

Marcelo Valadares

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Guião: Os filhos de Gabriela - Os que nasceram e os que imigraram para Portugal.
Marcelo Valadares

A estória inicia-se nos anos de 1970, mas a maior parte é ambientada nos anos de 1990. Passa-se em Portugal, mas é produzida no Brasil. Os protagonistas: Brasileiros e Portugueses. Os antagonistas: o estereótipo, os preconceitos e a banalização. Discutem temas como: Indústria cultural e Imigração. As intrigas: A profundidade versus superficialidade. As influências versusos os reforços de estereótipos. A indústria cultural brasileira versus a construção de uma nova indústria cultural portuguesa.

ABERTURA

Música:
"Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro.
Transformam o país inteiro em um puteiro,
pois assim se ganha mais dinheiro"

Trecho da música "O tempo não para"- Cazuza – 1989.

O ano é 1977. Treze anos antes do início da década de 1990. O mês é Maio, e o motivo para as próximas linhas começa aqui:

PRIMEIRO CAPÍTULO
obs. Equipe de Cenografia, criar ambiente do ano de 1982.

CENA 1- Localização, no tempo e no espaço.

Difícil falar de indústrias culturais brasileiras, sem referir-se às telenovelas. Não há introdução ao tema, sem antes citar a mulher que, em 1975, parou o Brasil, e que dois anos depois, iniciava uma revolução na televisão, e por que não dizer, na sociedade portuguesa. Gabriela, Cravo e Canela. Exibida pela primeira vez, em Portugal, num contexto de transição, após os anos de revolução, foi o primeiro contacto dos portugueses com a “liberdade” e a “sexualidade”, em forma de telenovela trazida do outro lado do Atlântico. Ao longo dos anos, foi retransmitida em horários diferentes, porém sempre com o mesmo sucesso.

Gabriela, em sua bagagem para Portugal, trouxe imaginário, estereótipos e cultura. Foi uma das amantes utilizadas para fidelizar a sociedade portuguesa com a televisão[1]. A produção, de 1975, foi uma adaptação da obra homónima de Jorge Amado, publicada em 1952. Na época, o autor já era um sucesso de vendas no país e fora dele, segundo Isabel Ferin Cunha[2], outras produções da indústria cultural brasileira, já faziam sucesso por cá. A autora cita a música, com a MPB (Música Popular Brasileira), o Teatro, a partir das peças de Augusto Boal e Dias Gomes e o cinema, que teve no circuito comercial filmes como Dona Flor e seus dois maridos, de Bruno Barreto; O casamento, de Arnaldo Jabor e Xica da Silva, de Cacá Diegues. Apesar de já existir antes de Gabriela, foi depois dela que esta troca cultural, entre os dois países, se massificou.

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CENA 2 – Os anos 80. Estória do puto e de sua mãe.
obs. Equipe de Cenografia, criar ambiente do ano de 1982.

|FADE IN
"Thuru thu thuru thu thu Thuru, Thuru thu thuru thu. Marmelada de banana, Bananada de goiaba, Goiabada de marmelo"…
O puto levanta-se. Aumenta o volume e volta a sentar-se. Assiste ao Sítio do Pica-pau amarelo. O episódio: link. Sua mãe, está na cozinha, a engomar roupa e a pensar na telenovela que irá passar mais tarde.

- Vai ser a primeira vez que António Feio vai estar em uma telenovela![3].
(expressão de paisagem)

A roupa queima, a mãe se xinga.
O menino continua a ver televisão.
|FADE OUT

CENA 3- Quando Isabel Ferín contextualiza os anos 80.

"A hegemonia da produção brasileira na televisão pública portuguesa, repercutiu nas instituições governamentais e entre agentes interessados no sector das indústrias culturais. Os debates - na televisão, nos jornais e em colóquios - visaram encontrar alternativas a esta realidade e propor medidas que constituíssem opções para quem não gosta de "brasileiradas". Surgiu, assim a produção de telenovelas portuguesas, inspiradas no modelo da Globo, mas com temas e actores nacionais, sendo a telenovela Vila Faia, exibida em 1982, a tentativa com mais sucesso. Conforme dados recolhidos e tratados pela empresa Marktest e publicados no jornal O Dia, de 14 de Junho de 1982, Vila Faia agradou, nos seus primeiros cinco episódios a 71% dos portugueses e terminou agradando a 91%. Ao mesmo tempo, 23% dos telespectadores consideraram esta telenovela portuguesa melhor do que as brasileiras, 55% consideraram-na igual às brasileiras e 12% pior" (FERIN, Site[4]) .

CENA 4 – Apresentação dos personagens principais dos anos 90.


mira

 

SEGUNDO CAPÍTULO, E OS OUTROS

CENA 1 - A que fala sobre a imigração...

Em 1993, no jornal Expresso foi publicada um editorial que possui o seguinte fragmento:

O Estado português necessita assim de criar mecanismos que o possam proteger de uma avalanche migratória, tanto mais previsível quanto estão à vista os sinais de desagregação da economia e tecido social brasileiro (EXPRESSO, 1993 apud MACHADO, 2009, p.151)

No livro Cárcere Público, de Igor José Renó Machado (2009), o trecho acima é apresentado de forma mais completa. Neste editorial, publicado no Expresso, não foi acrescentado nada de muito especial, além dos clichés de costume sobre o “problema” da imigração em Portugal. Este artigo cita até, de forma quase irónica, as telenovelas como um “bem” trazido do Brasil (é de destacar que alguns autores, classificavam a telenovela e toda a indústria cultural brasileira como instrumentos pós-colonizadores). A citação acima demonstra a nova conjuntura da relação entre os portugueses e brasileiros, e como os anos 90 foram o inicio de diversas transformações, principalmente, no plano migratório. Este contacto (mais directo) com o contexto brasileiro, que pouco se assemelhava aos padrões das telenovelas e dos emigrantes retornados, mostrou, de forma geral, uma realidade bastante diferente da que estava no imaginário português.

A imigração massiva de indivíduos brasileiros para Portugal iniciou-se nos finais dos anos de 1980. Diferentes estudos apontam os motivos e consequências, que levaram tantos brasileiros a mudarem-se para cá[5]. Posteriormente, a metamorfose do processo migratório, iniciou-se na transição dos anos de 1980 para os anos de 1990, quando diversos profissionais qualificados, entraram no mercado português. Mais recentemente, ocorreu um avassalador crescimento do fluxo migratório com a chegada de diversos tipos de indivíduos, de diferentes níveis sociais. A partir deste momento, o brasileiro passou gradualmente a ocupar o “mercado da alegria[6]”, e de forma geral é hoje encarado “desqualificado”.

Câmara muda de ângulo - E que tem a novela a ver com isso? Para Machado (2009), além dos media portugueses que nos seus programas, quer sejam jornalísticos, ou ficcionais, estigmatizam esta sociedade, muitos dos estereótipos em torno dos brasileiros são “reforçados” pelas próprias telenovelas produzidas no Brasil.

CENA 2 - Entrevista com Fernanda Castilho[7]

Os personagens são um jornalista e uma doutoranda. Sentam-se em frente um ao outro, iniciam a conversa:

Jornalista: Qual o contexto da televisão portuguesa nos anos 90?

Fernanda Castilho: O marco deste período foi a entrada dos operadores privados – SIC e TVI – no cenário audiovisual português, quebrando o monopólio do Estado, responsável pelos canais RTP1 e RTP2. O impacto desta mudança foi também sentido pelas telenovelas brasileiras, tendo em vista que deixam de ser exibidas apenas pela RTP1 e passam a ser veiculadas também pela SIC. Em poucos anos a SIC conseguiu, por meio de acordos firmados com a Globo, adquirir o direito de exclusividade na exibição dos títulos brasileiros.

Jornalista: Quais foram as principais telenovelas brasileiras em Portugal, neste período?

Fernanda Castilho: Por meio do estudo de recepção com famílias portuguesas, realizado no âmbito do meu Mestrado na Universidade de Coimbra, e por meio de pesquisas em artigos e jornais, pude perceber que as telenovelas que obtiveram maior sucesso foram as exibidas nos anos 80, como Roque Santeiro. No entanto, percebe-se também o aparecimento de títulos dos anos 90 (lembrando que, após a estreia no Brasil, muitas vezes a telenovela demorava para ser exibida em Portugal) como Tieta, Pedra sobre Pedra, Fera Ferida, Porto dos Milagres, A Próxima Vítima, A Indomada, Sassá Mutema (Salvador da Pátria), Tropicaliente, Mulheres de Areia e Paraíso.

Jornalista: Como essas telenovelas influenciaram a visão Portuguesa sobre a imigração brasileira?

Fernanda Castilho: De maneira geral, a sociedade portuguesa começa a conhecer melhor a cultura brasileira por meio das telenovelas, principalmente em relação ao sotaque brasileiro. A primeira telenovela brasileira exibida em Portugal, Gabriela, obteve grande sucesso em 1977. A partir daí até meados dos anos 2000, as telenovelas brasileiras dominaram as audiências do prime-time português. Em relação à língua, alguns jornais da altura de Gabriela problematizam os possíveis impactos na língua portuguesa, o que chamam de “brasileirismos”. Na verdade essa pergunta é digna de um doutoramento porque existem estudos que sinalizam mudanças de comportamento dos portugueses perante a presença dos brasileiros no país, mas é complicado mensurar a influência da visão portuguesa sobre a imigração brasileira.

Jornalista: Como a percepção sobre as telenovelas se alterou desde 1977, até o final dos anos de 1990?

Fernanda Castilho: A história das telenovelas em Portugal pode ser divida em três principais fases, até o momento. Comentei as duas primeiras fases nas respostas anteriores, ou seja, a primeira é caracterizada pela entrada das telenovelas brasileiras num cenário de monopólio estatal da televisão (1977 a 1992). A segunda fase é marcada pelo aparecimento dos operadores privados – SIC e TVI – e pelo estabelecimento de vínculos entre a Globo e a SIC. Uma terceira fase inicia-se a partir do aumento da produção e do sucesso das telenovelas portuguesas, exibidas pela TVI, a partir de 2000. Essas fases revelam uma maior preferência do público português pelas novelas brasileiras até o final dos anos 90, em termos de audiências.

 

ÚLTIMO CAPÍTULO

CENA 1 - Onde os maus morrem e os bons se casam.

Muitos dos problemas traçados por este texto (roteiro/artigo/entrevista), são apenas introdutórios. A influência brasileira em Portugal é um assunto a ser aprofundado, tanto pela academia, quanto pelos media. Há, ainda, diversos temas tabus em relação à presença brasileira, seja ela virtual ou real, que precisam ser analisados.

Um final ideal para este roteiro é o extermínio do moralismo, dos estereótipos e dos preconceitos mútuos. No final desta novela, assassinam-se as matérias jornalísticas irresponsáveis, os programas de humor sem carácter e as publicidades inconscientes. Enquanto isso, a troca cultural se casa com o respeito e tem como filho novos conhecimentos.

Sobem os créditos finais. A imagem foca-se nos olhos do personagem principal e, gradualmente, transforma-se numa panorâmica. Porém, uma surpresa! A cena dois entra sobrepondo-se à imagem.

Cena 2- Aquela com algumas questões sobre a estória.

Na cena final, surge um gajo - entre os 25 e 35 anos – a lançar diversas perguntas ao telespectador:

Como é que as indústrias culturais brasileiras, e não só as telenovelas, fazem parte da sua formação? Do que se lembra? O que o marcou?

O que a relação entre o Brasil e Portugal representa para ambas culturas?

Como ampliar a troca cultural entre o Brasil e Portugal?

(Esta perguntas não são esclarecidas. O intuito é deixar em aberto algumas questões, pois pretende-se lançar uma continuação da história, coisa que, ainda, o telespectador não sabe).

Trilha sonora para o encerramento:


 

[1] FERIN, Isabel. As telenovelas brasileiras em Portugal.
No link abaixo.

[2] link

[3] http://www.youtube.com/watch?v=-uqDYGmG3V4
Vila Faia- Remake, de 2008, da primeira telenovela feita em Portugal.

[4] link

[5] Um destes trabalhos: http://www.ceg.ul.pt/mcm/ImigrBrasileira.pdf

[6] MACHADO, Igor José de Renó. Cárcere Público. Lisboa: ICS, 2009.

[7] Fernanda Castilho (link)
é doutoranda em Ciências da Comunicação, na Universidade de Coimbra.

 

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