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Habitar o Feminino
- uma perspectiva feminista

Elisa Seixas

«Quem sou eu para ti? ou: Quem sou eu? ou: Como voltar a mim?»[1]
Começarei com uma impossibilidade: posicionar-me no problema.
Habitar o feminino a partir do(s) feminismo(s) é uma morada difícil. Ainda que localizada, solo matricial finalmente encontrado, significa também seguir caminho por um trilho essencial mas, ao mesmo tempo, tragicamente minado.
De que falo quando evoco o(s) feminismo(s)? Que identidade é essa que assino quando me identifico como feminista? Que engano é esse que por norma perpassa pelo semblante do/da ouvinte quando ouve a afirmação Eu sou feminista? Afinal, Quem tem medo dos feminismos?[2]

Paradoxalmente, numa língua que é, por norma, injusta, tal afirmação afigura-se justíssima: Eu sou feminista não denuncia o sexo do(da) declarante, e consoante o caso, o(a) interolucutor(a) tem, por norma, duas reacções diferentes: se a declarante for mulher, o(a) ouvinte desvaloriza imediatamente a afirmação imputando-lhe uma declaração (semi)pública de interesses. Um problema de gueto. As mulheres (algumas mulheres) são feministas porque o feminismo lhes diz respeito directamente. A elas. Por outro lado, se o declarante for homem, a afirmação é colhida com surpresa e desdém… e rapidamente esquecida. Em última análise, é de registar que uma declaração desta natureza nunca é indiferente. Não para quem a ouve e certamente que não para quem a faz.

Em primeiro lugar, convém esclarecer o(a) distraído(a) ouvinte/leitor(a): feminismo não é um simples (e inglório) antónimo de machismo, como muito frequentemente se ouve. Nem tão pouco a sua definição é consensual ou unívoca. Dito de outro modo, um tanto ou quanto confessional: não existe isso de feminismo.
E insisto no escândalo que é esta afirmação: o feminismo não existe. E ainda bem. Porque o que existe é antes uma pluralidade de feminismos, uma multiplicidade de discursos de natureza filosófica, política, social, cultural e por aí adiante. Logo aqui é perceptível a dificuldade inerente a um movimento que escapa, desde logo, à revelação. E não fosse a intuição de que esta definição (que afinal não é) é prenúncio do espinhoso caminho que atravessa o movimento (nos seus múltiplos dialectos), a História encarrega-se de nos alertar: é que primeiro surgiram as vozes a colocar a mulher como problema, para depois surgir o termo pela primeira vez (algures na década de 1870[3]).

Começou por ser, em pleno século XVIII, a luta pela emancipação da Mulher nomeadamente no que dizia respeito aos direitos políticos (inexistentes), através de textos fundacionais como o Déclaration des Droits de la Femme et de la Citoyenne, de Olympe de Gouges (e que por ele muito caro pagou, tendo sido guilhotinada por esta e outras ousadias), A Vindication of The Rights Of Women, de Mary Wollstonecraft, sem esquecer Stuart Mill com The Subjection Of Women. E apesar do pouco tempo percorrido desde o seu surgimento, a verdade é que as conquistas têm sido muitas. Ao ponto de, no final desta primeira década do século XXI, vaticinarem-lhe a morte por nada mais haver a conquistar. Apesar dos arautos manifestamente exagerados acerca da sua morte (por falta de agenda, alegam), certo é que os feminismos (ainda) estão aí.
Mas reforço, este feminismo que começou mesmo antes de ter um nome (que começou – e muito bem – por escapar à definição e à conceptualização) não é um feminismo. É uma multiplicidade de feminismos, uma profusão de linguagens em interpelação permanente com outras narrativas, muitas das quais veículos privilegiados de uma cultura patriarcal em que o espaço deixado para o feminino foi sempre reduzido e, ao mesmo tempo, redutor: espaços onde a objectificação da diferença (do que não é o mesmo) é o registo dominante (e dominador). E a partir deste princípio, de que o feminismo não é (nem pode ser – formulado aqui como um imperativo) unívoco, que começo a desenrolar o fio desta pequena narração, que é incapaz de expressar tudo o que com ela se quer exprimir.

«Como dizê-lo? Que desde logo somos mulheres.»[4]
Então importa clarificar: de que narrativa feminista vos falo? A partir de que solo posiciono este texto que deseja pensar o feminismo a partir do feminino, ou antes, que aspira a pensar o feminino a partir de um feminismo?
É a partir do horizonte de um feminismo sem medo do feminino que vos falo. Um feminismo que reconhece a urgência de a narrativa feminina ter uma voz, uma narrativa que viabilize o tornar-se mulher e que tenha o seu idioma assente na Diferença. «O feminino não é, em primeiro lugar nem de todo, algo que se dá a ver, a aperceber, a representar, a conceptualizar ou a saber, mas tão somente algo que se dá a pensar, a ler ou a interpretar – para além da anatomia (da biologia e da antropologia)[5].» É preciso que o feminino se dê a ler – ou a interpretar, ou a pensar. Mas para tal, é preciso que o feminino se escreva[6].

Falo-vos a partir do solo (?) da desconstrução[7]; uma desconstrução dos géneros que interpela e ao mesmo tempo subverte as várias categorias de opostos, uma desconstrução que tem como alvo as próprias categorias e respectivas relações hierárquicas. Esta é, a meu ver, condição fundamental para um feminismo que atinja o âmago das problemáticas de género. Uma desconstrução tal que seja capaz de desmontar essa «dualidade oposicional (masculino-feminino) e, enquanto tal, em termos hierárquicos onde o masculino acabou sempre por levar a melhor ao feminino[8].» A assimetria não é de natureza biológica: é, primeiramente, uma assimetria relacional, fundadora de uma identidade (sexual) que se construiu fundamentalmente a partir de um horizonte masculino.

«Do mesmo modo que um não é sem o outro, um não pode ser pensado sem o outro[9]
Assim, este feminismo que professo é uma «(…) questão de reinvindicar uma cultura, de querer e construir uma espiritualidade, uma subjectividade e uma alteridade próprias a este género: feminino. Não se trata apenas de, como dizia Simone de Beauvoir:  não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres (pela cultura) mas mais que isso: eu nasci mulher, mas devo ainda tornar-me essa mulher que [já] sou por natureza.»[10]

É preciso então um novo idioma relacional que não pode ser um espelho dessa outro que nunca foi a dois. Não pode ser assente na oposição, certamente que não pode ser um idioma bélico, de guerra dos sexos, como tantas vezes se ouve por aí.
É por tudo isto que é preciso tornar-se mulher assume assim a necessidade de um novo idioma que inaugure o espaço relacional a partir de outras coordenadas relacionais, a partir do horizonte da diferença, simetricamente, olhos nos olhos ou lábio no ouvido: «Eu reconheço-te significa que reconheço que tu és, (…). A partir deste reconhecimento, eu marco-te, eu marco-me, (…). Nem tu nem eu somos o todo, nem o mesmo, princípio de totalidade. E a nossa diferença é irredutível a uma hierarquia, a uma genealogia, a uma História. Ela não pode ser posicionada em termos de mais ou menos.»[11] Esta mulher que se torna o que é e que convida este homem a tornar-se, também ele, o que é. Nem o todo, nem o mesmo, que é também um convite ao diálogo, a um novo começo, à reescrita de uma outra história (a dois).

[1] «Qui suis-je pour toi? Ou: Qui suis-je? Ou: Comment revenir à
moi?», IRIGARAY, Luce, (1990). J’Aime à Toi, Grasset, Paris, p.153.

[2] Título das actas do Congresso Feminista de 2008, que decorreu na
Gulbenkian, 80 anos após o anterior.

[3] Eurídice Furtado Monteiro, Feminismos e Pós-colonialismos no
Limiar do Século XXI, in MAGALHÃES, Maria José, et all [org.] (2010).
Quem Tem Medos dos Feminismos? – Congresso Feminista 2008 (Actas),
volume 2, Nova Delphi, p. 355

[4] «Comment le dire? Que tout de suite nous sommes femmes»,
IRIGARAY, Luce, (1977). Ce Sexe Qui n’En pas Un, Collection Critique,
Les Éditions de Minuit, p. 221.

[5] Fernanda Bernardo, Ibidem, p. 223

[6] Apelo reiterado de Hélène Cixous nos seus múltiplos escritos, com
especial relevância para Le Rire de la Meduse.

[7] «Os feminismos pós-modernos são designados deste modo por se
terem constituído sob a influência de Derrida e Lyotard, especialmente
pelo contributo dado por estes filósofos à fragmentação do eu e à
perda de identidade (…). Em França as teses de Luce Irigaray,
profundamente influenciadas por Derrida, são significativas desta
escola, visando a construção de uma subjectividade feminina não
constrangida pela lógica feminina dominante.» In MACEDO, Ana
Gabriela e AMARAL, Ana Luísa [org.] (2005). Dicionário da Crítica
Feminista
, Edições Afrontamento, Porto.

[8] Fernanda Bernardo, Feminografia’s: Pensar–Habitar–Escrever o Mundo
no Feminino
in MAGALHÃES, Maria José, et all [org.] (2010). Quem Tem
Medos dos Feminismos?
– Congresso Feminista 2008 (Actas), volume 2,
Nova Delphi, p. 220

[9] «De même que l’un nest pas sans l’autre, l’un ne peut être pense
sans l’autre.» CIXOUS, Hélène, (1998). Neutre, Editions Antoinette
Fouque, Des Femmes – réédition, Paris, p. 20

[10] «Il est question de revendiquer une culture, de vouloir et
d'elaborer une spiritualité, une subjectivité et une alterité propes à ce
genre: féminin. Soit non pas, comme disait Simone de Beauvoir: on ne
naît pas femme, on le devient (par culture) mais plutôt: je sui née
femme, mais je dois encore devenir cette femme que je suis pas
nature.», IRIGARAY, Luce, (1990).
J’Aime à Toi, Grasset, Paris, p.168

[11] IRIGARAY, Luce, (1990). J’Aime à Toi, Grasset, Paris, p.168

 

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