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Berlim Abandonada
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A primeira vez que visitei Berlim foi em 2000, a segunda em 2001, depois em 2004 e por cá vivo desde início de 2009. No entanto, convidam-me para escrever algo sobre esta cidade e os anos 90. Protesto. Digo que nem sequer cá estive nessa década, que não tenho formação académica específica sobre o período, que não percebi a sua dimensão quando esses mesmos anos passaram pela minha inocência lisboeta, enfim…que me sinto lisonjeado, mas que não é de mim que andam à procura. Insistem…

Divago sobre o que os anos 90 terão feito a esta cidade…Sei que foi aqui que a Love Parade se concretizou como o maior festival de música electrónica do mundo, mas eu só assisti, pela televisão, como milhares de alemães, às horríveis imagens da última edição, deste ano, já em Duisburg… Sei que foi nessa década que a Alemanha emergiu de novo como uma potência económica mundial, mas já Lenine dizia que “quem controlar Berlim, controla a Alemanha e quem controla a Alemanha, controla a Europa”, e apesar disso tudo, nesse campo, Berlim continua a puxar a média alemã bem para baixo, com as mais elevadas taxas de desemprego e criminalidade a nível nacional…Não sei como terá sido a reunificação em termos de futebol, como se terão sentido Sammer e Ballack (nascidos, respectivamente, em Dresden e Görlitz) ao envergarem uma braçadeira de capitão da Mannschaft, num país que vive o futebol de uma maneira que envergonharia quem diz que “no Sul é que é”…Questiono o conceito de multikulti, agora declarado morto pela Chanceler, tal como questiono a real integração das duas Alemanhas, mas as estatísticas dizem que em 2004 (15 anos depois da queda do Muro), 24% dos casamentos celebrados em Berlim foram entre alemães e estrangeiros e apenas 2% entre alemães de ‘leste’ e de ‘oeste’…Nunca saberei o que é nascer e crescer num país que de um ano para o outro deixa de existir, como os milhões de alemães do Leste, e ter partilhado durante cinco dias um quarto de hospital com um Ossi dos ‘quatro costados’ apenas confirmou a complexidade da situação…Oiço com apreensão discursos sobre políticas de imigração, mas vejo ainda com mais tristeza filmes como Gegen die Wand e Die Fremde…Suspeito o que terá sido a reconstrução do que foram os 140 km de muro que cortavam as principais artérias da cidade, mas acredito quando me dizem que a reconstituição do tecido urbano da capital alemã deverá durar, seguramente, mais uns 20 anos…Enfim…estas e tantas outras coisas sobre os anos 90 e esta cidade que me interessam, mas que interessam também a muita gente que as elevou a temas de investigação e ensaio histórico, político e social e interessarão ainda a outros que as vêem como inspiração artística, em ambos os casos, inibindo-me de as abordar, alegando desconhecimento de causa…

Ainda assim, insistem …E a verdade é que cedi, com condições, mas cedi…

Cedi porque a Berlim de hoje, a que vou conhecendo, é uma cidade especial. Um elogio fácil, que se soma aos comummente feitos à oferta cultural existente a todos os níveis, aos preços baixos, à diversidade étnica, à tolerância, aos diferentes estilos de vida, aos verdes parques e aos apetecíveis lagos, aos constantes tropeços na história da Guerra Fria e da reunificação e à ‘onda cool’ que atravessa os diferentes bairros da cidade, mantendo cada um, apesar da crescente gentrificação, a sua originalidade. Mas é principalmente um elogio pelas surpresas que a cidade vai oferecendo a quem tem a sorte de por cá passar.

Uma dessas muitas surpresas é a Berlim abandonada. Uma Berlim que se distancia de tudo o resto. São espaços parados no tempo. Locais pelos quais a história passou, ou que por ela passaram e que agora, por uma razão ou por outra se encontram obsoletos, vazios e desprezados. É uma Berlim que não se encontra nos guias turísticos e está longe da dinâmica do resto da cidade e cuja existência dificilmente se explica na capital da maior economia europeia. São edifícios claramente ligados aos anos 90, não por terem sido construídos nessa década, mas precisamente e paradoxalmente por terem deixado de fazer sentido na Berlim que nessa década emergiu.

No lado leste da cidade temos o Spree Park, o único parque de diversões da ex-República Democrática Alemã (na altura chamado Kultur Park Plänterwald), privatizado e remodelado após a queda do Muro com o objectivo de se tornar no maior parque de diversões da Alemanha. No entanto, durante os anos 90 acumulou dívidas ano após ano e em 2001 fechou as portas, tendo o seu dono fugido para o Peru (onde mais tarde foi condenado a 7 anos de prisão por tráfico de cocaína). A visão de um parque de diversões vazio e em silêncio é algo de muito estranho, pois são espaços que quer gostemos quer não, estão, na nossa memória, associados a filas de gente, magotes de crianças, sons e cheiros bem característicos. Ora ali…ao caminharmos por entre montanhas russas tingidas de ferrugem e vegetação desordenada, ao vermos barcos sepultados em lagos, dinossáurios sem cabeça, apenas ao som de pássaros e à sombra de uma roda gigante fantasma – sentimos algo bem diferente.

Também no lado “vermelho” da cidade, no coração da “República de Pankow”, está a Embaixada do Iraque na RDA. O edificio foi construido em 1974 quando as relações entre os dois países iam de “vento em popa”, depois do Iraque ter sido o primeiro país não comunista a reconhecer a RDA em 1969. O intercâmbio terá prosperado a vários níveis, havendo suspeitas deste ter sido um local privilegiado para cooperação em matéria de armamento químico e parece certo que a Stasi viu nos passaportes diplomáticos iraquianos uma via verde para a Berlim Ocidental. No entanto, tudo isto mudou com o início da década de 90 – com a Grande Alemanha reunificada e a Guerra do Golfo a aproximar-se do seu final, as novas autoridades alemãs, “piscando o olho” aos parceiros atlânticos, expulsaram os diplomatas iraquianos em Janeiro de 1991. Desde então os três andares do edifício encontram-se abandonados, resistindo estoicamente aos mais de vinte invernos passados, preservando a certeza de que quem saiu, o fez à pressa.

Para trás deixaram quase tudo...mobília, máquinas de escrever, recibos em marcos de Leste, manuscritos em árabe, correspondência entre diplomatas, agendas de telefone anotadas e listas de compras, porém o mais impressionante são os livros. Uma imensidão de livros, amontoados no chão ou ainda em prateleiras, em várias línguas (até discursos de Saddam em português) e sobre os mais variados temas, desde a já então ilegal ocupação da Palestina a teses de doutoramento de química e inventários de armamento, numa toada bem clara de propaganda nacionalista sempre bem acompanhada pelas fotografias de um então ainda vivo e sorridente Presidente.

No lado ocidental, no antigo sector britânico, temos Teufelsberg, literalmente “monte do diabo”, o ponto mais alto de Berlim com uns ‘envergonhados’ cento e poucos metros de altura. É um monte artificial feito por cima de um complexo militar nacional-socialista projectado pelo “nazi que pediu desculpa”, Albert Speer, que, por ser de tão difícil destruição, acabou coberto com destroços da reconstrução de Berlim após a 2ª Guerra Mundial. Esta montanha está totalmente coberta de uma densa vegetação, mas na sua subida ainda tropeçamos no que pensamos serem pedras, mas que na realidade são tijolos que parecem ali colocados de propósito para nos lembrar a história daquele monte. Todavia, o que nos faz subir este monte é o que se encontra no seu topo: uma antiga estação de escuta da National Security Agency – os serviços secretos das Forças Armadas Norte-Americanas. Durante a “Guerra Fria”, Berlim foi um dos locais onde a tensão mais subiu e onde as duas superpotências mais claramente se olhavam nos olhos. Assim, este complexo militar assumiu um papel fundamental como receptor e interceptor de sinais rádio soviéticos que certamente teriam feito a diferença na eventualidade de uma “Guerra Quente”. O que aconteceu foi que a “Cortina de Ferro” caiu e, depois de, obviamente, retirado todo o material que, de alguma forma, pudesse ser considerado confidencial, este espaço ficou, após algumas peripécias e tentativas de reaproveitamento, entregue a si próprio. Apesar de tudo, houve uma coisa que não mudou: a montanha do diabo continua a ter, sobre Berlim, uma vista digna de deuses. Caminhamos por camaratas e cantinas militares, por salas de comando, vidros à prova de bala, finalmente quebrados, salas que, apesar dos anos, continuam totalmente insonorizadas e ainda por muitos outros locais que apenas podemos imaginar o que foram, enquanto lemos numa parede: Lead, Follow – or get the hell out of the way, como se ainda nos quisessem lembrar de que estamos na linha da frente da “Guerra Fria”.

Como estes, existem vários outros locais protegidos por vedações altas, arame farpado, avisos de propriedade privada e histórias de cães de guarda, e naturalmente, um buraco numa rede e uma curiosidade contagiante, sempre cúmplice do que é proibido.

Berlim é e será sempre vista como uma cidade refém da constante metamorfose desde a queda do Muro. Jack Lang, ex-Ministro da Cultura e da Educação do Governo francês, disse uma vez qualquer coisa como “Paris será sempre Paris e Berlim nunca será Berlim”, referindo-se a esta constante mudança que cunha a cidade. Mudança essa já amplamente explorada nas suas dimensões histórica, política e social. Berlim é uma cidade marcada pelos anos 90, por tudo o que aí se esgotou e iniciou, por tudo o que significou para o resto da Alemanha e da Europa, por tudo o que mudou depois daquilo a que os alemães, sem surpresa, chamam Die Wende...

Mas esta cidade também é distinta pelo que não mudou, pelo que ficou, pelo que foi deixado para trás, pelo que foi abandonado, pelo que deixou de ter lugar ou fazer sentido, pelo que foi deixado ao esquecimento, pelo que ‘já era’, mas que, por uma razão ou por outra, ainda cá está. Para nos lembrar de onde viemos, para sabermos para onde vamos, ou simplesmente para sabermos onde estamos...

 

 

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