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Energia Inesgotável para Todos
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No futuro, cada pessoa em cada casa vai conseguir recolher do sol e do vento a energia que consome sem ter de se ligar a nenhuma rede de abastecimento. Para quando este futuro? Na verdade, trata-se de uma promessa que não está no futuro, mas que já se desenha nos dias de hoje.

Durante o ano de 2009 consolidou-se uma linha estratégica mundial: a economia global, tal como a conhecemos, está a viver uma revolução. Hoje, parece incontestável afirmar que a um sistema económico dependente de combustíveis fósseis irá suceder um sistema económico dependente de energias renováveis. Apesar de não terem ainda sido determinadas metas concretas para a redução de emissões de carbono em todos os países, a disponibilidade que os líderes mundiais demonstraram na Cimeira de Copenhaga para se sentarem à volta da mesma mesa leva a que, hoje, a pergunta não seja se irá existir uma transição para as energias renováveis mas quando é que ela vai acontecer.

A certeza da transição para uma economia dependente de energias renováveis assenta em dois motivos. O primeiro é a mudança do clima e o segundo a auto-suficiência energética de cada nação. Para os cépticos que desconfiam da provável relação (firmada no relatório do IPCC, http://www.ipcc.ch) entre os efeitos da actividade humana e as mudanças do clima, o segundo motivo deverá bastar. A auto-suficiência energética de cada nação poderá redefinir o mapa geopolítico do mundo. Por um lado, será retirada hegemonia energética aos países com petróleo, por outro, países, como Portugal, poderão deixar de importar combustíveis, aliviando situações de dependência entre nações. Assim, a luta pelas energias renováveis é mais do que uma luta pelo ambiente. Se as fontes de energia passarem a estar disponíveis em qualquer lugar ao sol, em vez de se encontrarem concentradas em poucos países, a humanidade estará a trilhar um percurso de democratização com o objectivo concreto de alcançar fontes de energia inesgotável e acessível para todos. 

A certeza desta inevitável revolução já fez com que muitos arquitectos entrassem na corrida para conceber projectos de arquitectura que não dependem de energia fornecida pela rede de abastecimento. Hoje, o palco internacional é dominado por uma questão que ultrapassa o desenho do edifício singular: será, ou não, possível construir uma cidade totalmente movida por energias renováveis?

Um dos projectos mais ambiciosos está neste momento a ser construído: Masdar City, uma cidade em Abu Dabhi, nos Emiratos Árabes Unidos, concebida por Foster + Partners (http://www.masdar.ae). Masdar City pretende ser uma cidade Zero Carbon, Zero Waste movida exclusivamente por energias renováveis. O próprio nome, Masdar , significa “a fonte ” como tributo à maior fonte de energia desta cidade que será o sol. O que mais impressiona neste empreendimento é a escala e a ambição do programa. A cidade está prevista para 90,000 ocupantes (40,000 residentes e 50,000 commuters ) e pretende-se que seja um centro de investigação global dedicado às energias renováveis. Masdar City pretende agregar, no mesmo lugar, instituições académicas de excelência (um grupo destacado do MIT), instituições de grande abrangência internacional (como a International Renewable Energy Agency ), indústrias e serviços. Pretende-se que todos estes grupos e instituições trabalhem como parceiros em projectos que explorem as novas fronteiras de uma sociedade alimentada apenas por energias renováveis.

Naquilo que diz respeito ao desenho da cidade, a concepção arquitectónica de Masdar City assenta em três princípios de fundo: (1) retomam-se tipologias da cidade tradicional, incluindo ruas estreitas e uma ocupação compacta, já que estas tipologias são as mais adequadas ao clima de Abu Dabhi; (2) toda a cidade é coberta por pérgolas de painéis fotovoltaicos que servem simultaneamente para angariar energia e para providenciar sombreamento; e (3) a cidade não permite a entrada de carros, dependendo de um sistema de transportes constituído por uma rede de veículos movidos por energias renováveis e assentes sobre carris. Estes veículos não terão condutor sendo inteiramente controlados por programas informáticos. Em qualquer ponto da cidade, o habitante estará a menos de 200 metros de uma estação onde poderá aceder ao sistema de transportes solicitando um veículo por telemóvel.     

Claro que se nos fixarmos no objectivo de Masdar City , “ Zero Carbon, Zero Waste”, é fácil apontar incongruências. Desde logo, Masdar City pretende ser um centro internacional. A cidade está localizada em terrenos próximos do aeroporto dos EAU para facilitar relações com uma comunidade global, ou seja, serão produzidas, por definição programática, elevadas emissões de carbono que terão de ser compensadas de algum modo. No entanto, a investigação promovida por esta ambiciosa experiência pioneira pode abrir novos horizontes tecnológicos e conceptuais.

Masdar City levanta ainda outra questão que parece minar a ideia de democratização no acesso a fontes de energia inesgotável para todos: os custos inerentes à construção de Masdar City só parecem possíveis num país com um dos mais elevados PIB per capita e com um sistema político e económico centrado no emir, distante das democracias ocidentais. Será então possível falar de “ democratização ” se as grandes frentes de inovação aparecem em países com economias sólidas e sistemas políticos não democráticos? Acresce ainda que quem desenha e concebe Masdar City é uma das oito maiores empresas de arquitectura no mundo. Serão estes projectos de vanguarda exclusivos para empresas globais, como Foster + Partners?

Há, neste momento, dois projectos que me levam a acreditar que a democratização é  possível e que pode ser desenhada e construída em qualquer lugar, por qualquer equipa empenhada em inventar um mundo novo.

O primeiro projecto é o Barefoot College (http://www.barefootcollege.org), uma instituição na Índia sem fins lucrativos que desenvolve o seguinte programa: chama populações de aldeias pobres que não têm acesso a electricidade e forma pessoas destas comunidades de modo a ficarem aptas para instalar e manter painéis solares. São pessoas do meio rural, às vezes iletradas, que não só passam a ser Engenheiros Solares formados pelo Barefoot College como passam a ter electricidade nas suas casas derivada dos painéis que as próprias montam. Este processo já chegou a 751 aldeias em 17 países e 16 estados da Índia.

O segundo projecto é particularmente relevante para Portugal e deve servir como referência para todos os jovens arquitectos que saem das faculdades com vontade e capacidade de reinventar e construir um novo mundo. Um concurso internacional chamado Forwarding Dallas desafiou concorrentes em todo mundo a desenhar um quarteirão no Texas que fosse um modelo de sustentabilidade. Quem venceu este concurso foram os portugueses Atelier Data & MOOV (http://www.revision-dallas. com) O projecto habitacional, para cerca de 854 residentes, apresenta um conjunto de edifícios que produzem integralmente a energia que consomem (aproveitando o sol e o vento) para além de incluir reaproveitamento de águas e a utilização de coberturas ajardinadas. O mais interessante deste projecto de Atelier Data & MOOV é que aparece como um objecto plasticamente coerente, que não se perde perante obrigações tecnológicas, mantendo uma linha arquitectónica clara. Atelier Data & MOOV jogam com coberturas inclinadas e com a criação de diversos pátios de modo a atribuir ao quarteirão em Dallas uma identidade única.

O mundo das energias inesgotáveis para todos não está a ser desenhado “lá fora” nem “é para quem tem dinheiro”. Entre os pioneiros que desbravam o território daquilo que será a arquitectura deste virar de milénio estão não só os mais ricos do mundo acompanhados das empresas com a maior massa crítica, como estão jovens arquitectos portugueses. A revolução das energias renováveis está em curso e é para quem quiser acreditar que é possível redesenhar o mundo.

 

 

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