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Em Construção – Work in Progress
Joana Areosa Feio

(…)

No fundo horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais.

(…)

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder.

Tim


Este texto surge enquanto reflexão em torno do tema Identidade , e resulta do trabalho de recolha de histórias de vida [1], através de aplicação de entrevistas, junto de pessoas de diferentes nacionalidades residentes em Portugal. Todas têm em comum a construção de um projecto de migração neste país [2].

Filipe [3] tem 30 anos, completou o 12º ano, é músico, intérprete e compositor, natural do Brasil (arredores de São Paulo) e reside há quatro anos em Portugal. A par de alguns concertos de música nos quais participa, tem trabalhado em diversos sectores, desde a restauração, à construção civil, passando pela venda de cosméticos, o seu último trabalho. Trabalhou mais de dois anos neste sector, sempre na mesma empresa, na qual lhe foi feito um contrato de trabalho falso (não reconhecido na lei), motivo pelo qual se encontra hoje em situação (legal) irregular. Perante este cenário, interessa aqui pensar os modos como escolhe (auto)representar-se a nível identitário, nomeadamente em contexto de entrevista, realçando-se a natureza do processo identitário em si: flexível e em mutação, um projecto em permanente definição [4].

Filipe diz-nos que as identidades persistem e resistem, mesmo em situações pouco favoráveis. Aposta assim, em entrevista, na escolha de identificações pessoais, sociais e culturais que vão para além das que facilmente encaixariam no estereótipo hegemonicamente associado ao “imigrante brasileiro”. Fá-lo-á conscientemente e por opção, escolhendo não preencher os “requisitos” identificatórios associados à categoria onde a sociedade o insere. Privilegia falar da sua profissão – a de músico e artista – bem como do seu gosto e aptidão pelo “trabalho árduo”. Da sua rotina diária consta o estudo intensivo da música – a paixão que não o larga – e da língua inglesa, pois tem como objectivo “fazer uma Faculdade” em Portugal ou noutro local “da Europa”, refere. A par da Faculdade ambiciona frequentar o Conservatório de Música, o que nunca conseguiu fazer no Brasil por “ser muito caro”. Provém de uma família humilde, tendo ele próprio começado a trabalhar ainda criança, conciliando trabalho e estudos.

É com o objectivo de “abrir horizontes” e munido da vontade de conhecer – outros países, outras culturas, a idealizada “Europa” que conhecia dos livros e da televisão – que resolve sair do Brasil. Andou pela Holanda, foi a Paris ver a Torre Eiffel – “achei mais bonita nos filmes” – e entretanto resolveu permanecer em Portugal “por causa da língua”. O projecto saiu “meio-furado” diz, mas acredita que ainda irá arranjar por aqui um bom trabalho, estudar, juntar algum dinheiro. Depois, talvez regressar ao Brasil, que a saudade aperta. “A solidão é o que mais custa, mais até que a discriminação. Eu aqui vim conhecer o significado de solidão, vim para Portugal olhar de frente a solidão, conhecer o que é a saudade”, explica sem desanimar.

Apresenta-se enquanto alguém que enfrenta desafios e não abandona aventuras, é assim que define a sua estadia – dificultada – em Portugal. É com a música “Homem do Leme” [5] do grupo português Xutos e Pontapés que nos recebe, viola na mão. A escolha de uma banda portuguesa não será involuntária, mostrando que também conhece as bandas que por cá se ouvem.

A letra da música do grupo português reflecte bem o modo como se descreve (também perante si próprio) ao longo da conversa, enquanto resistente, enquanto jovem, homem, enquanto lutador, enquanto conhecedor da cultura do país onde reside.

E é, também, na afirmação dos seus gostos musicais que Filipe se define. Recusa ouvir e tocar forró, apesar das solicitações que recebe. “A música brasileira é muito mais que isso”, esclarece, insistindo em manter-se coerente aos seus gostos variados e que seguem diferentes linhas, menos conotados com a ideia/crença num “território sociocultural específico”.

Não quer sair de Portugal nem regressar ao Brasil sem ter a situação legal resolvida, teima em achar que também tem direitos. “Eu não vou ser uma vítima! O que eu quero é seguir em frente. Agora eu vou ficar nessa empresa e ficar vivendo mais dois anos sem condições?! Não! Eu vou é reclamar o meu e reclamar pelos outros se preciso for! Não vou voltar enquanto não resolver os meus documentos, foi o que eu construí, quatro anos é vida ou não é?”, pergunta(se).

Deixa escapar, apenas momentaneamente, a revolta que guarda em si, apesar da boa-disposição que escolhe manter: “Porque é que não me dão uma chance, porque é que não me dão o poder de eu ser livre e fazer acontecer? Eu sou um fantasma aqui, sem documentos. Eu quero o livre arbítrio na mão”, até porque como lembra “durante quase quatro anos eu contribuí para a economia do país! Nem que seja com o IVA, com tudo o que eu compro!”. A sua vontade (e a importância dos “papéis”) é bem visível no que traz consigo para a entrevista, um dossiê com todos os documentos que possui: a queixa no tribunal que moveu contra o empregador que lhe fez um contracto falso, expondo-se perante as Autoridades portuguesas e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), uma multa de condução que ainda não pagou por motivos financeiros mas faz questão de vir a pagar, o falso contracto de trabalho, uma folha com o nº de contribuinte e outra com o nº da Segurança Social (os descontos descobriu nunca terem sido feitos), estas duas últimas folhas têm para ele uma importância extrema “foi o que consegui!”. Traz ainda o passaporte em dia e o original de uma revista para onde falou, outro dos seus grandes orgulhos. Traz ainda a carta de expulsão do SEF. A par disto, na mochila, os seus livros de estudo, algumas das músicas e letras que compõe, a guitarra.

Filipe não se auto-identificou nunca enquanto “imigrante”, apesar de estar a ser entrevistado na qualidade de tal; prefere falar de si enquanto “viajante e guerreiro” (palavras suas), enquanto cidadão , alguém que conhece os seus direitos e assume as faltas que quer resolver.

“Sou guerreiro, sou leão”, repete, ao contar episódios mais sofridos, de vivências duras sem casa, dinheiro ou comida. Mas não esmorece: “Eu não hei-de ser uma vítima!” e ironiza aquando da sua estadia na rua devido ao facto do “patrão” não lhe ter pago os salários em atraso “já morei em casa, barraco, tenda, armação e limitada”, soltando uma gargalhada.

A vontade que o move é inerente à idade que, por sua vez, não é mensurável em anos de vida mas em estados de alma; ela é inseparável do Homem, daquele que se procura, não desistindo nunca de si mesmo.

É assim que Filipe se vê e assume, enquanto alguém que procura ir mais “além” munido de uma “vontade que não adormece”. É este argumento que, sustenta, o fez partir, e é este argumento que, sustenta, o faz ficar apesar das dificuldades. "Devem achar que sou maluco, não é?”, interroga ainda.

A nacionalidade de Filipe poderia ser qualquer uma; isto é tão verdade como a afirmação de que os sonhos não se medem em “cartões de identidade”, válidos ou caducados, regulares ou não. E, no fundo, é isto que Filipe também quer dizer e é nisto que Filipe insiste, ao teimar em ficar, quando tudo lhe indica (os sinais, Filipe acredita em sinais) que está na hora de regressar. Mede forças com as leis, com os outros e consigo, reivindicando o que entende ser seu por direito.

É aqui apresentado “de máscara”, um (F.), sem nome. Na entrevista insiste em dizer o seu nome todo, apesar de referirmos ser um estudo anónimo e confidencial: “É o meu nome”, diz. Quase que o poderia ouvir dizer, “não me tiram isso também”.

Fala do medo das pessoas que vivem sem documentos: “ Eu consegui, até pela música, por já ter tocado em sítios, me conhecerem, consegui criar uma barreira, esfriar…Tem pessoas, e eu conheço, que não saem mesmo, totalmente, têm mesmo medo, mesmo. É trabalho-casa. Depois até tiram os documentos, mas mesmo assim já não conseguem sair na mesma…”, conta.

As motivações para se “deixar” um determinado país, podem ter tanto de objectivas como de subjectivas, escapando a um conjunto de regras demasiadamente abrangentes e simplificadoras. As motivações, tal como as reconstruções identitárias de um sujeito “em construção” – como somos todos nós – nomeadamente em situação de “diáspora” são múltiplas e ambivalentes, confluindo num modo de estar e de ser que é, por natureza, situacional. Ou seja, é-se em situação dependendo do “lugar” onde se está, com quem se está, variáveis simultaneamente transformadoras e transformáveis.

Filipe escolhe para si, em contexto de entrevista um leque de identificações que valoriza em detrimento de outras. O sujeito lido hegemonicamente enquanto “imigrante brasileiro” e “ilegal” é muitas outras coisas quer perante o entrevistador quer – e mais importante – perante si próprio e é isto que Filipe afirma através das suas escolhas.

Realça as amizades que conquistou: “Do tempo que eu estou aqui eu fiz muita amizade, muitos amigos, sabem que eu sou trabalhador, sempre me dando força, dizendo você é lutador cara!”.

“E eu já tou contando a minha história…que há muito tempo eu não fazia isso”.

O sujeito em entrevista não é só narrador da sua história, é actor da performance em que aceita participar. O processo de contar/(re)construir o passado, no qual se dá a selecção de memórias, informações, saberes e sentires, não está desligado do processo de (re)leitura, do processo de reconstrução de um self que se lê e se (auto)representa.

O contexto de relato da história de vida pode ser lido enquanto “lugar” de experienciação, lugar de reclamação de um estatuto, em última instância identitário, que não é reconhecido “lá fora” e em variados contextos, nomeadamente os “oficiais” [6].

Este exemplo, entre muitos outros que poderiam ser aqui aprofundados, levam-nos a pensar no que é hoje comummente aceite pelas ciências sociais, a ideia de que as identidades que os indivíduos escolhem enquanto suas não são estanques, inserem-se sim na dinâmica das inter-relações sociais e podem por isto mesmo ser constantemente reformuladas, abafadas ou explicitadas, em detrimento de outras. As afirmações (identitárias) de F. em entrevista podem ser interpretadas também enquanto reivindicações, escolhas (mais ou menos “livres”) de um self que é e por isto deve ser concebido enquanto alguém dotado de agencialidade, isto é, um sujeito tem sempre o poder de reflectir e agir sobre o real sociocultural que lhe é apresentado, contribuindo para a mudança do mesmo. Um sujeito não é mero recipiente de categorias identificatórias impostas por ideologias vindas de “fora”, por maior que seja o peso das mesmas [7].

Um dia, e esperemos que em breve, F. irá contar nas suas próprias palavras as suas histórias, mostrar as suas “letras” e cantá-las “para todo o mundo ouvir”, podendo escolher assinar também este ou outros textos, sozinho ou em co-autoria, com o “seu nome todo”.

Referências Bibliográficas

CASTELLS , Manuel, The Power of Identity : The Information Society , Oxford, Blackwell, 1997, Vol. II,

GIDDENS, Anthony, As Consequências da Modernidade , Oeiras, Publicações Celta, 1995

HALL, Stuart, Identidades Culturais na Pós-Modernidade , Rio de Janeiro, DP&A Editora, 1997

LECHNER, Elsa (org.), Histórias de Vida: Olhares Interdisciplinares , Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2009

LECHNER, Elsa, “Migração, pesquisa biográfica e emancipação social: Contributo para a análise dos impactos da pesquisa biográfica junto de migrantes ”, Revista Crítica de Ciências Sociais . 2009, Nº 85, Coimbra, Centro de Estudos Sociais, p.43-64.

.....

[1] A maioria das histórias de vida recolhidas poder-se-ão chamar “mini” – histórias de vida” ou “breves retratos biográficos” no seguimento de O'Neill (LECHNER, Elsa Histórias de Vida: Olhares Interdisciplinares , Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2009, pp.109-121), uma vez que seguem as perguntas de uma entrevista semidirectiva, não assentando tanto em exercícios mais “livres” e prolongados.

[2] Recolha levada a cabo no âmbito de diversos Projectos de Investigação, de 2007 a 2009. Porém, a entrevista aqui citada bem como este texto são da minha única e exclusiva autoria/responsabilidade.

[3] Nome fictício.

[4] Uma pessoa é em situação, dependendo do contexto, não havendo identidades fixas e homogéneas (GIDDENS, Anthony, As Consequências da Modernidade , Oeiras, Publicações Celta, 1995 e HALL, Stuart, Identidades Culturais na Pós-Modernidade , Rio de Janeiro, DP&A Editora, 1997 , entre outros).

[5] Sozinho na Noite, um barco ruma, para onde vai. Uma luz no Escuro, rima a direito, ofusca as demais. E mais que uma onda, mais que uma maré. Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé...Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade, vai quem já nada teme, vai o homem do leme. E uma vontade de rir nasce do fundo do ser. E uma vontade de ir, correr o mundo e partir ,a vida é sempre a perder... No fundo do mar, jazem os outros, os que lá ficaram. Em dias cinzento, descanso eterno, lá encontraram. No fundo horizonte, sopra o murmúrio, para onde vai. No fundo do tempo, foge o futuro, é tarde demais... E uma vontade de rir nasce do fundo do ser. E uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a perder...

[6] São várias as referências que indicam que a narração de uma história de vida – assumindo-se todas as reconstruções e selecções próprias da memória individual – servem também para o próprio actor que as narra, de momento de introspecção, reflexão, (auto)reconstrução, e, numa perspectiva mais optimista, de emancipação identitária. Parto da ideia de que há diálogo no acto de entrevistar, no acto de escutar/dizer história(s) de vida(s), sendo este acto um exercício partilhado e dinâmico. Ambos – o entrevistado e entrevistador – são convidados a questionar-se, ouvir-se (mesmo no silêncio), encontrando e (re)construindo pontes de ligação, que são uniões momentâneas entre pessoas, que também são memórias, “mundos” culturais, afectos. Reconhece-se que o lugar de partida entre entrevistador/entrevistado não é igual, os estatutos não são iguais. A tentativa é porém a de procurar esbater/gerir hierarquias, mais ou menos circunstanciais, abrindo lugar ao “empowerment do interlocutor. Deloy-Momberger (LECHNER, Elsa Histórias de Vida: Olhares Interdisciplinares , Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2009, p.55-74.) sugere que os sujeitos ao narrarem (o que escolhem ser) a(s) sua (s) história(s) “ (…) produzem uma certa ideia de si mesmos”. Os lugares onde este processo acontece, sejam entrevistas ou outros exercícios de biografização, são sobretudo lugares onde “(…) são criadas as condições para que os sujeitos se construam como autores e actores das suas vidas dentro dos limites de possibilidades internas e externas”, escreve Lechner (LECHNER, Elsa (org.), Histórias de Vida: Olhares Interdisciplinares , Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2009)

[7] cf.: GIDDENS, Anthony, As Consequências da Modernidade , Oeiras, Publicações Celta, 1995 e HALL, Stuart, Identidades Culturais na Pós-Modernidade , Rio de Janeiro, DP&A Editora, 1997

 

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