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A necessidade Humana de explicar os mistérios de uma realidade que lhe era anterior degenerou na criação de um certo número de entidades, mais ou menos humanizadas, e dotadas de poderes especiais, capazes de explicar e justificar a ordem natural das coisas. Nascia assim a noção de Divindade. Intrínseca a esta, estava também uma outra essencial para o sucesso da primeira - o Sagrado. Ou seja, condição inquestionável atribuída a todas as entidades Divinas bem como aos seus poderes.

Porém, um aspecto muito curioso inerente ao Sagrado, reside no facto de este não ser um conceito Universal. Ou seja, aquilo e aqueles que não se questionam variam consoante a longitude e a latitude em que nos encontramos. Veja-se por exemplo o caso dos Budistas e dos Cristãos, ou dentro do Cristianismo, os Católicos e os Protestantes. Cada um dos anteriores tem o seu referencial Sagrado explicativo da realidade perfeitamente definido, e que exclui todos os outros. O curioso deste facto, reside precisamente na universalidade dos fenómenos para os quais se procura explicação - a vida e a morte, o céu a terra, o dia e a noite, etc.

O Design aparece num contexto civilizacional completamente diferente. A ciência e a filosofia dominam enquanto formas de explicação da realidade, e por meio de observação e análise aparecem com respostas universais para descodificar os fenómenos da Natureza. Um mais um é igual a dois independentemente da latitude e longitude em que se ponha o problema. O Design pertence ao campo das actividades profissionais criativas, das quais se espera inovação. Tal seria impensável num contexto dominado pelo Sagrado onde qualquer manifestação Humana era exclusivamente representativa.

A capacidade Humana de inovar é sem dúvida uma das conquistas mais importantes do nosso desenvolvimento científico. A descodificação científica do Mundo desmistifica-O, e dá lugar a um instrumento fundamental - tecnologia. A tecnologia terá tido três fases de maturação: 1 - descrição/registo dos processos científicos explicativos da realidade dotando-os de objectividade universal; 2 - replicação desses mesmos processos com propósitos demonstrativos e educativos; 3 - simulação de realidades não existentes demonstradas de forma objectiva, que degeneram em resultados inovadores. Este terceiro estádio de maturação tecnológica, e por ventura não o último, é aquele que permite ao Homem criar. O Homem conquista desta forma a capacidade que antes era requisito exclusivo da Divindades.

Não é propósito deste texto discorrer sobre os fundamentos dos discursos teocêntrico e antropocêntrico, mas sim reflectir sobre Design e Sagrado. A referência ainda que breve aos mesmos é meramente contextualizante. Admito que a minha primeira reacção ao tema deste artigo foi: Design e Sagrado são como o cão e o gato, água e o vinho; os Portugueses e os Espanhóis... Ou seja, não combinam!

Atentemo-nos porém ao objecto cadeira. A cadeira é sem dúvida um dos objectos mais desenhados, e certamente aquele que qualquer designer mais ambiciona desenhar. Às cadeiras que já conhecemos, juntar-se-ão muitas outras mais ou menos diferentes destas. Nada de muito revelador nisto. Tal é válido para cadeiras, como para qualquer outro objecto. Enquanto designer, este é um tema recorrente de reflexão profissional. Porém, ainda não o tinha considerado à luz do Sagrado...

Voltando então à cadeira. Como em qualquer objecto há dois aspectos a ter em consideração: 1 - tipologia cadeira - a ideia universal de cadeira; 2 - formalização da tipologia cadeira - cada design novo de uma cadeira. Esta subdivisão comum, iluminada pelas reflexões anteriores acerca do Sagrado acaba por ser reveladora de algo que não me tinha ocorrido antes: o que realmente acontece aquando do processo de design de uma cadeira nova, é a representação da ideia universal de cadeira, à luz de determinados factores contextuais de utilização. Tal pode ser interpretado da seguinte forma, a ideia de cadeira é algo inexplicável, intangível e inquestionável que só pode ser explicado por meio de representações sucessivas.

Aceitando o acima exposto como verdadeiro, é também verdade que existe algo de Sagrado no processo de design de um objecto, no sentido em que este consiste na representação/explicação de uma ideia universal e inquestionável por meio da imposição de uma determinada forma a um dado material. Mais, os factores contextuais dos quais dependem as diferentes representações da ideia universal de cadeira, são geográficos e culturais tal como aqueles que diferem o Budismo do Cristianismo, mas são também locais e individuais. Não é qualquer um que consegue comunicar com os Deuses, no entanto qualquer indivíduo é um potencial Shaman de uma cadeira. Porém, é consensual que há cadeiras e cadeiras! Este facto legitima a consagração, no verdadeiro sentido do termo, de designers como os Eames, o Wegner ou o Morrison. Dito isto, verifica-se que cada design novo de um objecto consiste numa representação/explicação da ideia universal e intangível que se tem do mesmo, e que há designers com a capacidade (especial) de nos fazer continuar a "acreditar" na universalidade dessa ideia.

Num contexto dominado pelo Sagrado eram impensáveis manifestações Humanas que não fossem meramente representativas. Porém, num contexto dominado pela ciência há ainda espaço para "espécies" de Sagrado. Eu diria que é este espaço que nos permite continuar a evoluir. Qualquer forma de espiritualidade, ao ter uma base emocional, é sempre um complemento valioso para a razão. O mais curioso disto tudo, é que o nosso interesse (porque ainda me custa chamar-lhe Fé) se desviou da Natureza para o mundo das coisas criadas pelo Homem.
 

 

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