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A Louca, o Médico, os Discípulos e o Diabo
A profanação pós-moderna de Béla Pintér sobre a história de Jesus
Susana Chicó

O espectáculo musical “ A Louca, o Médico, os Discípulos e o Diabo” criação do aclamado encenador húngaro Béla Pintér, esteve em cena no Teatro Maria Matos nos passados dias 3, 4 e 5 de Março. Béla Pintér e Companhia apresentaram “uma parábola sobre o Bem e o Mal”, recriando a história de Jesus numa provocadora visão contemporânea que misturou elementos da tradição folclórica húngara com a música de Mozart, Pergolesi e Allegri. Esta companhia teatral, activa desde 1998 em Budapeste, é um dos mais significativos e inovadores grupos teatrais independentes da Hungria, tendo sido já por quatro vezes consagrada com o prémio da crítica teatral húngara. O trabalho criativo deste encenador e companhia, funde a arte tradicional húngara com as formas pós-modernas de expressão dramática. Esta opção estética, visceral para Pintér, encontra na música e numa multiplicidade sóbria de recursos estilísticos, as armas de combate a um teatro fastidioso. O encenador afirmou ao Ipsilón [1] que: “ O contraste entre o velho e o novo, entre a tradição e o modernismo, entre o real e o surreal, entre o folclore e o kitsch, encontra-se em todo o meu trabalho, particularmente na linguagem, que é uma mistura de 'slang' contemporâneo e de poesia popular”.

Esta ecléctica textura dramatúrgica percorre a desconcertante história de Edina, uma louca estudante de teologia, nascida de uma barriga de aluguer no dia de Natal na Hungria rural. A história de Edina é anacronicamente narrada e vivida por um pastor, o padre Béla (interpretado por Béla Pintér, como não podia deixar de ser), os reis magos são mulheres de negócios japonesas de expressão performativa ‘kabukiana', e Herodes é um autarca inseguro cuja desconfiança sugere ao diabo (uma sensual mulher vestida de vermelho) um infanticídio para impedir a chegada do Messias. Edina cresce, transforma água em vinho, e apregoa que Deus é mulher formando uma seita com discípulos leais. Entre eles, uma noiva, sua apaixonada lésbica, que ao ver rejeitadas as suas investidas sexuais é seduzida pela mulher-satã e trai Edina, acusando-a falsamente de incentivar os discípulos ao suicídio em massa. Edina é então internada num manicómio, onde é violada e enforcada numa rede de basquete por discípulos loucos.

A acção dramática deste espectáculo lembra uma espécie de evangelho apócrifo sem convite, nem redenção. Além da linguagem e da história, os aspectos cénicos e musicais deste espectáculo determinaram a tonalidade mordaz e humorística desta experiência teatral.

O encenador baseou-se na ruralidade iconográfica do "Censo de Belém" de Brueghel, e o público foi envolvido numa provocadora atmosfera iconoclasta, embora a meu ver, a qualidade geralmente asséptica da iluminação não ostentasse ofensa. A plateia rodeava o cenário, um círculo de madeira giratória que possibilitou a exibição móvel de várias cenas. Existiam ainda, em lados opostos, dois corredores de madeira que desembocavam em duas cabines semelhantes a guaritas. No topo destas duas cabines, dois violoncelistas tocaram ao vivo de batina vestida. Sentado num banco lateral, o médico/teclista acompanhava o canto dos actores distanciando-se do grupo afirmando neste posicionamento fora do palco, e na sua condição profissional científica, o desdém pela religião.

Os músicos, recorrendo a um repertório tradicional religioso e à composição original, tinham a dupla função de intensificar a tensão das cenas, de “levantar o espectáculo” dando-lhe uma fluidez orgânica, e de destilar o humor pintando com solenidade e altivez momentos perfeitamente absurdos e ridículos. Por exemplo, numa cena em que o Vaticano aceita a nova ordem religiosa feminista de Edina, o palco girou, e à semelhança de uma escultura humana ronde bosse, todo o elenco cantou sobre o preço inflaccionado do café em Itália, entoando com comoção a melodia de Lacrimosa do Requiem de Mozart. A subversão temática dos textos cantados esvaziou o espírito sacro do Requiem, (Mozart), do Stabat Mater (de Pergolesi) e do Miserere (de Allegri) elevando-se com a música, a banalidade e a esperança vã, com um sarcasmo deliciosamente naif e absurdo.

O humor negro, fortemente aliado à música, invadiu a cena espalhando vários apontamentos sardónicos. Foram de delicioso requinte kitsch os momentos em que Maria, mãe de Edina foi enfeitada com ornamentos de Natal, ou ainda a estrela dos reis magos de um néon piroso que lembrava a celebração natalícia urbana.

Os figurinos e psicologia das personagens principais, Edina e Satanás, são também exemplo da mordacidade do encenador. Edina vestia uma camisa de noite, e estava coberta com um robe azul claro como o manto da Virgem Maria. Calçava chinelos de borracha barata, parecia saída de um asilo, e fumava que nem um cavalo. As suas palavras parabólicas e proféticas (embora coloquiais) pareciam toldar-lhe a audição que nunca funcionava quando era exigida uma resposta clara e directa. A enigmática mulher/diabo vestia um provocante top vermelho que lhe deixava as costas nuas, calças de ganga justas, tinha um pé descalço e uma grande bota vermelha à stripper no outro. O seu pé descalço erotizava ainda mais a sua ardente figura, e hipnotizava o público que ficava sem perceber ao certo por que estava nu aquele pé.

Assim interpretou Béla Pintér - não muito longe da descrições bíblicas - um diabo insidioso e provocador, e um Jesus imerso numa loucura mansa e falta de clareza que encantava discípulos sedentos por orientação.

Toda a lógica dramatúrgica deste espectáculo baseou-se numa profanação mordaz de uma história religiosa universal, provocando o público através da inversão dos géneros das entidades divina e demoníaca, satirizando pelo kitsch e pela música o capitalismo da fruição contemporânea da religião (do Natal, do casamento e do careiro Vaticano), mas, acima de tudo, criou num tom tragicómico uma parábola sensacionalista sem ressurreição, como mostra a reportagem televisiva de Páscoa conduzida pela mulher Satanás no final do espectáculo. Na última cena, Edina enforcada desce do tecto (um céu estrelado) pendurada pelo pescoço, mas não ressuscita, deixa cair apenas um dos seus chinelos numa última tirada humorística.

Sem redenção, mas com humor, sem sacralização, mas com moral, este espectáculo foi uma sóbria e excelente demonstração da profusão dramática pós-moderna criando com a tradição folclórica húngara uma linguagem singular.

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[1] Ípsilon 24.02.2010

 

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