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O Sagrado: Experiências de Laboratório
Idalina Correia

É provável que este artigo tenha sido escrito por linhas tortas. A perspectiva que aqui se oferece do sagrado pode passar por extemporânea uma vez que procura investigar o fenómeno a partir das suas réplicas de laboratório. E falar de reproduções, de próteses, de cópias de algo tão sagrado quanto o sagrado, merece no mínimo, o nosso espanto.

Nos anos 80, Michael Persinger, um neurocientista numa universidade de Ontário, Canadá, induzia experiências religiosas e espirituais nas pessoas através de estímulos artificiais. A experiência era simples; uma estrutura composta de campos electromagnéticos em forma de capacete era colocada em voluntários. Os relatos desta experiência confirmam que, munidas de um God's Helmet a maioria das pessoas dizia sentir uma “presença etérea na sala”, a presença de mais alguém na sala, caracterizando o que tinham experimentado e sentido de forma similar aos relatos de um intenso momento espiritual ou religioso.

As implicações de um aparato tecnológico como o “Capacete de Deus” são incontornáveis. A primeira de uma série de implicações que me ocorre é ver reaparecer Deus dos corredores da ciência dos quais tinha sido, aparentemente, afastado. Afastado para longe das conversas inteligentes, das teorias credíveis da criação do mundo e do surgimento do homem, dos fundamentos da moral e do sentido da história.

Como é possível obter uma experiência do sagrado num laboratório, sem necessidade do kit-completo-do-homem-crente? Sem ser preciso ter fé, sem ser necessário ter uma crença, sem ser necessário exercitar os mandamentos divinos? Significa que podemos ter uma prótese de sagrado da mesma forma que temos uma prótese de uma perna ou um bypass?

A bomba-relógio tinha sido lançada; e se existir um lugar próprio de Deus no cérebro humano? E se já tivermos recebido o nosso cérebro equipado para a religião, para a crença num Deus, para a experiência do sagrado, para esse tipo de espiritualidade?

É habitual referir-se Aldous Huxley como o autor do conceito de neuroteologia, que em 1962, no seu livro, A Ilha , descreve um neuroteólogo como alguém que pensa em termos de uma fusão ou intersecção do espiritual com o cerebral, ie, e de forma mais abrangente, da filosofia com a ciência.

O pressuposto da existência de bases neurológicas e evolutivas que possam fundamentar e explicar experiências tão subjectivas como as experiências religiosas, espirituais ou místicas é aplicado pelo campo da neuroteologia. A lista de revelações que a ciência nos tem fornecido sobre descobertas tão impressionantes e improváveis como um God's Spot é volumosa. Da descoberta desse sítio específico de Deus no cérebro humano, descritível em termos de conexão de sinapses e neurotransmissores à quantificação e mesmo criação de experiências religiosas através da tecnologia da imagem cerebral no início deste século, a direcção tomada é invariavelmente a mesma: os assuntos divinos não são mais sagrados do que todos os outros. Falo de assuntos como a emoção e a moral, o comportamento e as inclinações para a acção, a linguagem e o sentido de justiça, que têm igualmente recebido leituras materialistas e funcionais, típicas de uma visão que naturaliza todos os fenómenos crendo-os explicáveis pelas leis da física.

Hoje, conhece-se particularmente melhor os cérebros de algumas freiras franciscanas e de alguns monges budistas do que outros. Estes, especificamente, foram iluminados pelo SPECT (Single Photon Emission Computed Tomography, trad, Tomografia Computorizada por Emissão de Fotões Individuais) com o objectivo de determinar quais as zonas de maior actividade cerebral durante o estado de meditação. Os estados de meditação e oração destas freiras e monges têm agora uma cartografia, um mapa. Quando pensamos numa tecnologia como o SPECT a sondar as nossas vivências mais íntimas, é natural que a nossa reacção se incline mais para a dúvida e para a aversão do que para o assentimento. Mas, se pensarmos que uma tecnologia semelhante possa vir a identificar um serial killer, por exemplo, através de um scanner cerebral e prevenir o crime, eventualmente pensaremos duas vezes. De qualquer forma, não é a tecnologia empregue que está aqui em causa, nem tão pouco a finalidade para a qual foi desenvolvida que nos interessa. Conhecer o homem e a sua natureza, da qual a relação com o sagrado é intrínseca, significará invadir a subjectividade da mente humana. Significará determinar e distinguir e, portanto, reproduzir os nossos qualia , ie, os nossos sentimentos e experiências subjectivos. Esta invasão, que o God's Helmet e o SPECT inevitavelmente perpetram, do nosso sentimento religioso, sublinha a dimensão de rascunho do conhecimento humano que se faz através de réplicas e só através delas. Esta é a natureza do nosso conhecimento, mas também o homem não é um Deus!



Referências Bibliográficas

CURADO, Manuel (org), Porquê Deus se temos a Ciência, (2009),
Fronteira do Caos Editores, Porto

HUXLEY,  Aldous, The Island, (1962)
(versão PDF, link)

NEWBERG, Andrew B. e  Le, Bruce Y., The Neuroscientific Study of
Religious and Spiritual Phenomena: or Why God Doesn't Use
Biostatistics, (NeuroscienceReligionReview. Pdf)

COOKE, Stephen P., Neurotheology: Neuroscience of the soul,
Armstrong Atlantic State University (link)

RAMACHANDRAN, V. S. (1998). Phantoms in the Brain: Probing the
Mysteries of the Human Mind. New York: William Morrow.

ST. PIERRE, L. S. and Persinger, M. A. (2006). Experimental facilitation
of the sensed presence is predicted by the specific patterns of the
applied magnetic fields, not by suggestibility: Re-analysis of 19
experiments. International Journal of Neuroscience, 116, 1079-1096.

NEWBERG, A., Pourdehnad, M., Alavi, A., and d'Aquili, E. G. (2003).
Cerebral blood flow during meditative prayer: preliminary findings and
methodological issues. Perceptual and Motor Skills, 97, 625-630.

 

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