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Onde Estão as Pessoas de Bem?
Joana Ribeiro

Quais são as perspectivas em Portugal para uma jovem cidadã como eu?

A resposta que eu ouço desde há muito, de pessoas que só me querem bem, é invariavelmente esta – arranjar trabalho no Estado. Sim, é isto. No tom quase alterado de quem professa uma verdade absoluta: ”Ouve o que eu te digo: tu entra para o Estado! Hás-de arrepender-te de não me dar ouvidos!”. Não, nunca dei ouvidos a esta sentença e, verdade seja dita, o meu percurso tem sido cheio de caminhos sinuosos e obstáculos complicados de transpor. Talvez um dia me venha mesmo a arrepender.

Chegarei eu à conclusão, tal como tantos outros com a minha idade e a minha boa formação académica, de que existe algo de profundamente errado neste país? Portugal, que tem tanta coisa boa como o sol, o mar, a comida, e o humor, é um sítio onde o futuro parece obscuro e tortuoso para quem tem o desejo simples de construir o seu próprio caminho, contribuindo à sua própria maneira e com a liberdade para fazer as escolhas que só lhe dizem a si respeito. É sempre tudo extremamente difícil, demorado, tirado a ferros e à custa de muito sacrifício, sem uma recompensa à altura.

Numa altura em que eu que tento construir um percurso na área de que gosto, que tenho pouco dinheiro e zero bens em nome próprio à excepção do portátil e do telemóvel, mas que sou livre não tendo que dar explicações a ninguém, apenas gostava de fazer esta pergunta: será o Estado em Portugal uma pessoa de bem?

Eu acho que não é. O Estado em Portugal, o oásis primeiro e último de garantia da segurança e do bem-estar, dá-nos a todos um exemplo deplorável. Esse Estado , que consome muito mais do que devia para nos devolver pouco e mau , nem sequer serve como modelo de boa conduta. Se o objectivo é ter uma sociedade civil e empresarial minimamente saudável e capaz por si de fazer andar o país para a frente, pois as práticas vindas de cima desencorajam-no completamente.

Atravessamos um momento que o exemplifica na perfeição: a situação política e social que estamos a viver é a demonstração do que acontece quando os aparelhos partidários, os boys e os traficantes de influências se apoderam do Estado. E o mercado dos boys e dos assessores, ao contrário de outras indústrias que definham ou abrem falência, vai entre nós de vento em popa: o presente Governo, por exemplo, nomeou nos seus primeiros cinco meses mais do que os dois anteriores governos no mesmo período – incluindo 265 assessores. Tanta fartura em período de crise.

A turbulência das últimas semanas não parece ser difícil de entender: o nosso primeiro-ministro, com um currículo tão vasto em casos dúbios, terá ele próprio sido um boy , como todos aqueles que gravitam à sua volta e das grandes empresas, e que aparentemente “invocam” o seu nome como quem bebe um copo de água. Mas Sócrates foi um boy que conseguiu chegar a primeiro-ministro e por isso tem um problema grave com a comunicação social (ou, como ele nos quer fazer crer, é a comunicação social que tem um problema com ele).

Retrospectiva dos últimos anos em Portugal: António Guterres saiu de cena para evitar afundar-se e afundar ainda mais o país no “pântano” instalado; Durão Barroso, a gerir um povo “de tanga”, achou que nos prestaria melhor serviço ao ir para a Europa “prestigiar” o país; o governo Santana não durou quatro meses; e o segundo governo Sócrates também vai cair a meio, por si próprio, exausto de tantas “infâmias”, “ignomínias” e “cabalas”.

Eu não acho que Portugal seja um país ingovernável. Vejamos: nós não saímos à rua para partir carros quando se sabem coisas estranhas. Nós não pedimos a cabeça dos líderes quando está mais que visto que há aproveitamento por parte de uns poucos daquilo que deveria ser de todos. E enquanto nação, não temos um trauma colectivo ou a vergonha de brutalidades cometidas no passado que nos espicacem a agir e ser diferentes, como têm outros países. A nossa longa ditadura serviu sobretudo para uma coisa: para nos amolecer e manter um povo de brandos costumes. Não acredito por isso que os portugueses sejam, como às vezes se diz, um povo ingovernável. Nós deixamos correr e pacificamo-nos desde que tenhamos o futebol e a novela de vampiros ao fim-de-semana. São as classes político-partidárias que, de tão más, não se conseguem governar a si próprias.

Previsões para o futuro próximo: o actual governo não vai chegar ao fim e Pedro Passos Coelho vai ser o próximo primeiro-ministro de Portugal. Como todos os outros, haverá de desiludir-me profundamente, já só peço que não tanto quando Sócrates.

Previsões para o futuro longínquo: daqui a 100 anos, tudo continuará na mesma. Continuaremos a lamentar sermos assim, evoluiremos à mesma velocidade do último século e ouviremos ainda a palavra “crise”. Eu acredito nisto. Ém 1871, Eça de Queiroz dizia: “ Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima abaixo! (…) O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.[1]. Mudámos pouco nos últimos 139 anos.

Como nota final, deixo um apelo. Preciso de ser esclarecida, eu que em termos profissionais ainda estou a atravessar uma espécie de adolescência na construção de personalidade. Nos tempos que correm e tendo em conta o exemplo quem vem de cima… Vale a pena ser uma pessoa de bem?

[1] As Farpas, Eça de Queirós (1871)

 

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