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"I Want to Die for Mother India"
O mito orientalista do Hinduísmo e da Índia sagrada e pacifista esconde a sua dimensão ordinária: violenta e opressiva.
Constantino Xavier

Terminámos a mudança e o cyclewallah , o puxador de riquexó intocável que nos transportou a mobília para a nova morada, começa a vociferar, pedindo quatro vezes mais do que o acordado inicialmente. Sou novo ainda em Deli e, aflito, peço ajuda ao nosso novo senhorio Khurana-ji que, por acaso, passa por nós naquele momento. Penso que irá intermediar, traduzir e resolver o que será certamente só um mal-entendido. O senhorio diz-me ”sure!” com um sorriso orgulhoso e começa a pontapear e a insultar o pequeno homem escuro, que se retira – em silêncio, ferido, rebaixado – puxando o seu pequeno triciclo.

A Índia sagrada, exótica e, acima de tudo, pacífica. O Hinduísmo que atrai milhares de ocidentais em busca de mais espiritualismo, de redenção de um mundo materialista, de uma ligação entre paz interior e exterior. Uma religião não institucionalizada, não hierárquica, difusa, que estabelece uma dicotomia entre o material (biológico, epifenomenal, desprezível) e o transcendental (amorfo, eterno, superior). Que paradoxalmente identifica na abnegação do terrestre, em especial no abraçar da estática condição social herdada, a única via para atingir o moksha , a libertação do eterno círculo da reincarnação.

É assim que o Hinduísmo, e a Índia em geral, são muitas vezes vistos na Europa. As palavras-chave: paz, espiritualismo, estabilidade, equilíbrio. Se o debate sobre a natureza social do Hinduísmo é complexo – e eu pouco habilitado a intrometer-me nele – a verdade é que, pelo menos na sua vertente performativa contemporânea, o Hinduísmo também tem a suas dimensão opressiva, materialista e violenta. O sagrado, por norma, convive de perto com estas características. É por isso que, ao explorar o carácter opressivo, materialista e violento do Hinduísmo, procuro sublinhar a sua essência como uma religião ordinária, igual a tantas outras, e não essencialmente diferente, como muitas vezes sugerido pela imagem-mito que prolifera no Ocidente.

É uma das melhores alunas do Center for Political Studies . Está prestes a terminar o último semestre do M.A. quando, enquanto bebemos um tórrido chai à sombra de umas amaltas em flor, nos confidencia, num misterioso tom híbrido, entre orgulho e desespero, a decisão tomada pelos pais: “I'm going to get married next month. I hope you can come”. Nunca mais volta às aulas, nem à universidade. Durante a recepção que se segue à cerimónia de casamento, os irmãos e primos do seu estranho marido dançam embriagados na pista, celebrando uma mota ou PlayStation nova incluída no dote. Vamos cumprimentá-la. Soluça, chora, pede que continuemos a dar notícias, que lhe enviemos livros, artigos, os nossos trabalhos.

Onde nasce este mito da Índia pacífica? A três níveis, parece-me. Primeiro, na escola orientalista, que constrói “o Oriente” como o domínio do espiritual, em que nunca poderá haver desenvolvimento material sem a intervenção do “Ocidente”. Legitimando assim o objectivo colonial por via da historiografia, da literatura e até das ciências exactas, o Orientalismo manteve-se como paradigma dominante na abordagem ocidental à Índia, um subcontinente supostamente misterioso porque religioso; pobre porque espiritual. Como indentured laborers, recrutados coercivamente aos milhões no seguimento da proibição da escravatura e distribuídos pelos cinco continentes, os indianos eram elogiados por serem trabalhadores dóceis, pacíficos e pouco dados a revoltas. Na realidade, se assim o eram realmente, seria talvez porque menos de metade sobrevivia às violentas e longas viagens transatlânticas – voltar não era uma opção; a resignação sim.

E depois veio Gandhi. Esse grande orientalista (e, só nesse sentido, ocidental) que sintetizou o mito do pacifismo, mediatizando-o internacionalmente. A sua grande vitória foi ter sido capaz de acoplar a freedom struggle anti-imperialista à narrativa orientalista, tornando-a assim interpretável para o Ocidente. De certa maneira, Gandhi limitou-se a produzir e a oferecer um discurso (simbolizado na prática da
não-violência: satyagraha , ou ahimsa ) que o Ocidente desejava ouvir – a Europa via assim confirmada, naquele pequeno e magro homem semi-nu, a sua preconcebida imagem espiritual da Índia. Não há dúvida que a principal importância do Mahatma residiu na sua capacidade congregadora, liderando as massas no plano doméstico. Mas, na sua dimensão externa, Gandhi também teve um papel fulcral como empresário mediador (aproveitando a sua experiência transnacional na Grã-Bretanha e na África do Sul), articulando o nacionalismo indiano em contornos espirituais, não materiais, digeríveis e aceitáveis para Londres. E que outro tipo de nacionalismo, a não ser o transcendental, universal e espiritual, poderia ter sucedido numa Índia minada pela diversidade socioeconómica, étnica, religiosa e linguística?

Cruzamos o leite seco e cinzento do Rio Iamuna e chegámos aos subúrbios orientais de Deli, com Ghaziabad no horizonte. De repente, o brilhar do mármore polido, o olhar inerte de gigantescos elefantes em pedra – emerge à nossa esquerda o monumental templo hindu de Swaminarayan Akshardham. Depois de um security check mais rigoroso do que os de JFK ou LHR entramos, seguindo as setas fluorescentes, a la Disneyland . Para descobrir o glorioso passado da Índia védica há um boat ride e ao lado as setas apontam insistentemente para o giant screen film e as musical fountains . A saída do templo
faz-se obrigatoriamente pelo gigantesco centro comercial, tal como pelas áreas
duty free nos grandes aeroportos.

O princípio do não-alinhamento veio institucionalizar a ideia da Índia pacifista, pelo menos no plano secular e externo. Pós-1947, Nehru converteu o capital discursivo deixado por Gandhi num paradigma político mais sofisticado, em que a Índia se solidarizava com o bloco afro-asiático das restantes nações ainda colonizadas. A Índia recusava-se (muito devido à sua incapacidade material) a integrar a lógica competitiva e conflituosa da bipolaridade entre Washington e Moscovo. Aqui estava uma nova nação, uma experiência em curso, dedicada a revolucionar a política internacional e a aplicar os princípios gandhianos no plano externo. Com a invasão de Goa, em 1961, e a derrota humilhante perante a China, em 1962, essa agenda implodiu, se é que jamais foi perseguida com convicção pelo grande estadista Nehru (idealista ou pragmático? - um debate historiográfico em curso).

Mas mais do que ruptura, aquelas palavras de Nehru, a 14/15 de Agosto de 1947, aquela identificação da Índia independente como “ the star of freedom in the East ”, representam uma linha de continuidade. Reflectem uma disponibilidade em estender o Orientalismo à era pós-independência, mas agora adaptado às novas necessidades: é assim que se compreende o intenso revisionismo normativo da Índia pós-1950, concentrada em forjar uma “terceira via” em Bandung. Exceptuando talvez só o período de Indira Gandhi, esta linha normativa, pós-orientalista, permeia a política externa indiana até hoje, em que o pacifismo é reivindicado como bandeira indiana e símbolo de superioridade moral. E é assim que, ao longo dos últimos séculos, o mito da Índia sagrada, não-violenta, submissa e efeminada, viajou clandestinamente até ao presente.

É noite de verão no campus universitário e estamos a ver Final Solution , o documentário de Rakesh Sharma sobre os motins inter-religosos no Guzerate, em 2002, que provocaram mais de mil mortos (principalmente da minoria muçulmana) em poucas horas. De repente, caem pedras sobre as nossas cabeças. Confusão, pânico, poeira, sangue. Emerge uma multidão de activistas do ABVP, a ala estudantil dos nacionalistas hindus do BJP – querem boicotar o filme. Em público dizem que é tudo mentira, fabricação de comunistas. Em privado dizem-me mais tarde que “os cabrões dos muçulmanos mereceram”. Entre os matulões descortino uma face feminina suave, e inquiro-a na esperança de uma opinião mais branda, tolerante. “I want to die for Mother India”,
diz-me ela, sorridente.

 

 

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