EDITORIAL
João Tibério

VLADIMIR Então? Vamos embora?
ESTRAGON Vamos.
Não se mexem.
“À espera de Godot”, Samuel Beckett



E se não nos formos embora?

Se insistirmos em ficar por cá? A ver o tempo passar, a criticar a passividade e apatia dos outros. E se ficarmos presos a um agradável e previsível presente?

Critiquemos, então. Há espaço para a crítica, sempre houve. Mas há ainda mais espaço para agir. Ajamos. Façamos. Um projecto à nossa medida, um projecto para 2010. O PROJECTO10 .

O PROJECTO10 nasce daí. Dessa ideia. Desse querer. Desse fartar. Nasce da espera por um Godot que insiste em chegar muito depois do fim da conversa de café.

No PROJECTO10 há uma ânsia de errar em comum. De partilhar as nossas questões e as nossas respostas. E, tal qual como aqueles que nos rodeiam e optam por agir, uma vontade sem fim de chegar aos outros.

O PROJECTO10 cria hoje a sua identidade. Porque nestas nossas linhas e nos olhos do leitor encontra-se o mais puro e sincero cliché de comunidade.

PROJECTO10 não é política nem religião. Não é esquerda nem direita. Não é Sul nem Norte. Não é pobre nem rico, nem mesmo remediado. O PROJECTO10 só pode ser catalogado por quem o lê e por quem nele participa.

PROJECTO10 recria o conceito de sagrado, mas também o de profano. Faz as rupturas com o passado, mas também os cortes com o futuro. Porque somos todos jogadores de futebol num campo de contornos desconhecidos. A nosso favor? Claro! Hoje a polis é mais nossa, é mais comunitária. Vive e revive na web 2.0, na 3.0 e até na imaginária 10.0.

Porque hoje comunidade rima espontaneamente com global, e as contra e sub-culturas não são mais ilhas inacessíveis ao grande público. Porque num mundo de extremismos exacerbados a república de Platão existe hoje muito para lá “da juventude propensa para o mal”. Porque onde havia a “geração rasca” dos anos 90, encontramos hoje o devido reconhecimento em personalidades como Ricardo Araújo Pereira ou Mariza. Porque está Portugal a mudar? Porque Portugal está a mudar. E que Portugal temos hoje? Que identidade é a nossa?

Portugal é hoje provavelmente mais cosmopolita do que na época dos Descobrimentos. Porque hoje descobrimos o outro e deixámos que nos descubram. É um Portugal de turistas e de migrantes.

Como dizia Pessoa, e Rui-Mário Gonçalves refere: “O Português que só é Português, não é Português”, e essa ideia aplica-se não só às artes plásticas portuguesas mas também à vivência do brasileiro “Filipe”, entrevistado por Joana Areosa Feio, ou à experiência do búlgaro Gueorgui Ivanov que são hoje tão portugueses como eu ou o leitor. Porque Portugal tem através da acção do Alto Comissariado para Imigração e Diálogo Intercultural, ou dos recorrentes e múltiplos programas de intercâmbio de jovens, realizado um importante trabalho de integração do outro . Claro que há coisas a mudar e a melhorar, mas como Gueorgui e “Filipe” referem, existe uma contagiante identificação lusa.

 A questão identidade surge também com um carácter importante e relevante na explicação de Marta Gomes de Andrade sobre o estado de emergência do Haiti. Especializada nas questões identitárias haitianas e dominicanas, Marta vê-se hoje confrontada no terreno com as fendas que retalham aquele país, fissuras que vão bem mais fundo que os abalos do recente sismo.

Todavia, o conceito de identidade neste primeiro número não se cinge ao nacionalismo português e haitiano, ou às questões da imigração e integração, ele existe também nas possíveis concepções de cidade . Uma cidade tem hoje a sua própria identidade, e é em parte por isso que sentimos uma maior empatia pela jovem Barcelona, pela milenar Roma, pela multicultural Londres ou pela moderna e tecnológica cidade de Tóquio. São as pessoas que fazem a identidade de uma cidade, ou são as cidades que criam e moldam a identidade dos seus habitantes? E qual a importância de ser green na identidade de uma cidade nestes tempos de preocupação ecológica? -questiona Filipa Roseta.

Porém, o conceito de identidade não se esgota em todas as definições anteriores, porque tal como a própria palavra antecipa, a identidade é múltipla e variada e emerge até nas diferentes entidades do nosso id. Um passeio por alguns dos sonhos de Rui Zink é o invulgar convite à identidade de uma entidade do humor português, e é a proposta criativa do primeiro número do PROJECTO10.

A identidade do PROJECTO10 não se resume a palavras. A estas palavras. Nem às próximas que aqui escreverei. Nem às imagens que o povoam. Nem às músicas que nele ecoam. PROJECTO10 constrói-se, como qualquer sonho, com o trabalho incansável e extraordinário de muitos. De muitos amigos. De amigos que acreditaram que era possível criar este projecto. E foi. A todos eles, um grande obrigado. Este é o vosso/nosso PROJECTO10.

© PROJECTO10 - 2010 . PROJECTO10 - Revista Digital Temática - 10 Números 10 Temas.